Às vésperas de centenário da morte, Tia Eva se torna patrimônio cultural
Certificado entregue nesta segunda formaliza título do primeiro quilombo tombado do Brasil

Às vésperas do centenário da morte de Eva Maria de Jesus, a Tia Eva, a comunidade quilombola que leva seu nome recebeu nesta segunda-feira (28), em Campo Grande, o certificado de tombamento como Patrimônio Cultural Brasileiro. A cerimônia, com a presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes, marcou a entrega formal do título ao primeiro quilombo do País inscrito no novo Livro do Tombo do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
RESUMO
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A Comunidade Quilombola Tia Eva, em Campo Grande, recebeu nesta segunda-feira (28) o certificado de tombamento como Patrimônio Cultural Brasileiro, tornando-se o primeiro quilombo do País inscrito no novo Livro do Tombo do Iphan. A ministra da Cultura, Margareth Menezes, participou da cerimônia e disse que o título pode facilitar o acesso a políticas públicas. A Igreja de São Benedito também será entregue restaurada em breve. Tia Eva, nascida escravizada em Goiás, morreu em 1926.
Trineta da matriarca e integrante da diretoria da associação da comunidade, Vânia Lúcia Batista Duarte afirmou que o título chega em um período de outras conquistas para o quilombo. A Igreja de São Benedito, um dos principais símbolos do território, também passa por restauração e deve ter essa etapa da obra concluída em breve.
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“Para nós é um momento muito especial, é uma realização, uma conquista para nós, descendentes de Tia Eva. Hoje estamos recebendo esse título de patrimônio cultural nacional, o território da Comunidade Tia Eva, e em poucos dias também será entregue a restauração da Igreja de São Benedito. Então, para nós é um período festivo, de muita alegria e de muita emoção. Estamos muito felizes”, afirmou Vânia.
Segundo ela, os moradores acompanharam as intervenções na igreja desde o planejamento. A obra foi discutida com a comunidade para que os serviços não interferissem nas atividades realizadas no local.
“A construção foi muito dialogada, de forma que não interferiu nas nossas ações aqui na comunidade. E, como é um bem para nós, entramos em conversa, em diálogo, e todos nós nos acertamos esperando por essa grande obra. É uma expectativa muito grande. A gente vê cada tijolinho, cada efeito aqui na igreja, e para nós é uma grande realização”, disse.
Para a trineta, o reconhecimento também reforça a responsabilidade dos descendentes na preservação da história deixada pela matriarca.
“Para nós é uma responsabilidade, porque Tia Eva foi e nós ficamos com o legado dela. Então, cuidar desse legado, levar para frente, levar o conhecimento para toda a sociedade é nossa responsabilidade. Com isso, nós estamos felizes. É gratificante, mais uma vez, honrar Tia Eva”, afirmou.

Margareth Menezes disse que o tombamento amplia o reconhecimento institucional do território e pode aproximar a comunidade de outras políticas públicas. Segundo a ministra, o trabalho envolve diferentes áreas do governo federal.
“A partir do momento que tem um tombamento oficializado, a comunidade começa também a adquirir os registros e até mesmo a possibilidade para receber as políticas públicas do governo, de maneira mais oficial. Isso é uma batalha que vem de centenas de anos das comunidades quilombolas do Brasil. Nós estamos, neste momento, começando a trazer essas entregas”, declarou.
Questionada pelo Campo Grande News sobre a possibilidade de outros quilombos de Mato Grosso do Sul passarem pelo mesmo processo, a ministra disse que cada caso depende do cumprimento de etapas próprias, mas afirmou que o trabalho deve continuar.
“Todos esses processos têm um ritual, são ritos para conseguir. Mas, como nós estamos vendo a realização, a materialização, é uma sequência para que as outras comunidades também comecem a receber. Estamos trabalhando muito fortemente para que a gente consiga contemplar o máximo possível dos quilombos com esse tombamento”, afirmou Margareth.
Confira a galeria de imagens:
O superintendente do Iphan em Mato Grosso do Sul, João Henrique dos Santos, destacou que a iniciativa para o tombamento partiu da própria comunidade. Segundo ele, a medida reconhece tanto o território quanto a trajetória das pessoas que mantiveram viva a história de Tia Eva.
“A iniciativa pelo tombamento partiu da própria Comunidade Tia Eva. É um reconhecimento que representa um marco importante na valorização e no fortalecimento da trajetória de resistência do povo quilombola e na preservação de territórios que guardam parte fundamental da história do Brasil”, afirmou.
João também relacionou o tombamento à preservação da ancestralidade e dos modos de vida construídos no território ao longo das gerações.
“É um momento de celebrar a ancestralidade para que não se esqueçam de quem veio antes, abriu os caminhos e resistiu para que toda essa Comunidade Tia Eva pudesse hoje existir. O tombamento do quilombo parte da compreensão de que esses territórios e seus moradores são partes constitutivas da nossa identidade, da nossa memória e da nossa diversidade cultural”, disse.
Para o superintendente, o reconhecimento também destaca o papel das mulheres negras na formação dessas comunidades. “Esse tombamento reconhece que as mulheres negras foram centrais na luta pela liberdade, pela construção de comunidade, pelo fortalecimento dos afetos e pela preservação de saberes e fazeres ancestrais”, afirmou.
Saiba mais - A cerimônia ocorre a pouco mais de um mês do centenário da morte de Tia Eva. Nascida em condição de escravização em Goiás e posteriormente alforriada, Eva Maria de Jesus chegou a Campo Grande no início do século 20 e se estabeleceu na região onde seus descendentes formaram a comunidade. Ela morreu em 11 de novembro de 1926.










