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Campo Grande, Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018

25/02/2017 07:05

Autista, menino abraçador sente o mundo pelas mãos e pelos abraços a estranhos

Autista, Ricardo toca quem chega à sua casa, abraça estranhos pela rua, fala, interage e é apaixonado por dinossauros

Paula Maciulevicius
Ao fundo, Ricardo no computador e ali na fotografia, no abraço ao irmão Eduardo. (Foto: Alcides Neto)Ao fundo, Ricardo no computador e ali na fotografia, no abraço ao irmão Eduardo. (Foto: Alcides Neto)

Os olhinhos atentos à tela do computador acompanham o montar e desmontar de um dinossauro. A voz responde ao "oi" e da pergunta sobre o que ele está fazendo ali, vem o nome da criatura. Ricardo é Rico, uma criança de 7 anos que teve o diagnóstico de autismo aos 4. A voz ao fundo é de Alessandra, a mãe que encontrou alento no estudo e o desabafo nas palavras.

Farmacêutica, ela deixou a profissão quando reparou que, aos 2 anos, Rico estava regredindo no repertório de palavras. Segundo filho da família, o menino chegou como resposta ao pedido do irmão Eduardo, que queria porque queria um irmãozinho.

Os meninos têm 3 anos e meio de diferença e foi por já ter a experiência materna que Alessandra percebeu que "alguma coisa estava diferente". Rico foi uma criança planejada e muito esperada. A gestação foi toda certinha e o nascimento dele, também.

Rico tem 7 anos e o diagnóstico de autista desde os 4. (Foto: Alcides Neto)Rico tem 7 anos e o diagnóstico de autista desde os 4. (Foto: Alcides Neto)
Olhos atentos ao computador mostram familiaridade do menino com o que gosta. (Foto: Alcides Neto)Olhos atentos ao computador mostram familiaridade do menino com o que gosta. (Foto: Alcides Neto)
Atenção dele é toda voltada para os dinossauros.(Foto: Alcides Neto)Atenção dele é toda voltada para os dinossauros.(Foto: Alcides Neto)

"Ele teve todo desenvolvimento típico normal até em torno de 2 anos, que foi quando eu comecei a ficar preocupada. Ele começou a falar com 1 ano e meio, mas não aumentava as palavras e de repente, começou a parar", narra Alessandra Satie Mori, de 40 anos.

"Água" por exemplo, foi virando "agu" para depois ser só "gu". E numa soma desproporcional, quanto mais meses de idade vinham, menor era o vocabulário do menino. "Revirado" como a mãe diz, de ponta cabeça, foram dois anos de exames até fechar o diagnóstico que ela já sentia alarmar no peito.

Rico nunca apresentou nada que a família pudesse suspeitar, como outros pais, nos primeiros meses. "Eu chegava aos médicos e perguntava: "é autismo? E quando fechou, para mim foi bem chocante, de repente alguém concordou comigo", recorda.

O mundo caiu, o chão se abriu e todas as angústias possíveis tomaram conta de Alessandra. "Autismo, deficiência, não tem cura e nem sabemos se ele vai falar". As palavras resumem o que a mãe ouviu dos médicos em São Paulo. "Minha saída foi estudar, estudar o que era aquilo e só dessa maneira eu ia conseguir ajudá-lo e potencializar as coisas para ele", retoma a mãe.

Alessandra, a mãe, encontrou na escrita o alento e criou o blog Estamos autistas. (Foto: Alcides Neto)Alessandra, a mãe, encontrou na escrita o alento e criou o blog "Estamos autistas". (Foto: Alcides Neto)

Ricardo é um menino esperto na descrição da mãe. E lá pelos seis minutos de conversa, acredito que ele tenha percebido que era dele que falávamos ou foi apenas pela visita que mudou a rotina da tarde, que Rico começou a cantar do computador.

"Com o tempo, você vai vendo o outro lado da moeda. Ele é uma criança atípica, não é aquele filho que na gestação você lê um monte de livros. Ele canta e tem muita facilidade com computador e coisas que não deveriam ser da idade ele", conta Alessandra.

A cantoria é uma forma de se expressar. "Para circular no ambiente, como os autistas têm dificuldade de comunicação, muitas vezes eles usam o corpo. Algumas crianças têm aquele movimento de ir para frente e ir para trás. O Ricardo não tem, mas ele desde sempre cantou, antes mesmo de falar", narra.

Foi só aos 4 anos que Ricardo voltou a falar, ainda que numa construção de repetir o que ouvia e por muito tempo foi assim. De usar frases da TV dentro do contexto para conseguir se comunicar. "Hoje ele já consegue formar frases, mas ainda com dificuldade. Ele tende ao isolamento, mas quer participar e tenta. Só que às vezes não consegue achar abertura", explica Alessandra.

Num jogo entre crianças, por exemplo, Rico não consegue entender as regras do pega-pega, que ora ele é pegador e ora é preciso correr.

Desconfiado, é pelo cheiro, toque e abraço que Ricardo reconhece quem chega de diferente à sua casa. (Foto: Alcides Neto)Desconfiado, é pelo cheiro, toque e abraço que Ricardo reconhece quem chega de diferente à sua casa. (Foto: Alcides Neto)

Entre cuidados e estudos acerca do tema, Alessandra também fez terapia e seguiu o conselho da psicóloga. De escrever para desabafar. O resultado é o blog "Estamos autistas", de onde o Lado B viu o texto "O menino herói". 

Sem pretensão de escrever para ninguém além dela mesma, quando se deparou, Alessandra tinha seguidores. Mães como ela que procuravam com os pés e o coração para onde foi o chão levado com a notícia do diagnóstico. 

Apaixonado por dinossauros. A última curiosidade é esta. De "a" a "z", o menino sabe o nome de todos e repete quase que numa cantoria. Foi com o nome de um dinossauro que ele respondeu à nossa primeira pergunta. Na tela do computador, o joguinho mostrava uma espécie da criatura que o ajuda a se comunicar aqui.

E antes mesmo da gente perguntar o por que do "menino abraçador", Rico demonstra. Durante a entrevista com Alessandra, um cutucãozinho veio nas costas e antes que eu me virasse. Cadê o menino? Voltou para seus dinossauros.

"Ele é assim. Extremamente carinhoso. Existem algumas lendas, de que crianças autistas não gostam de toque e algumas não gostam mesmo. Essa forma que ele chegou em você é para reconhecer. Ele precisa te tocar, te abraçar, ele cheira. Tem isso muito sensorial nele", explica a mãe.

No abraço. (Foto: Alcides Neto)No abraço. (Foto: Alcides Neto)

Alessandra diz ainda que depois deste reconhecimento, vem o abraço. "Ele abraças as pessoas, abraça na rua os estranhos. Conforme ele vai crescendo, isso pode ficar mais complicado. A gente não sabe como vai ser o entendimento dele no futuro", se preocupa. "Mas ele precisa disso".

Nem todo autista se isola e o desenvolvimento depende muito de quem está do outro lado.

"Eu digo: 'oi Ricardo' e ele repete: 'oi Ricardo'. Aí ele para, pensa e fala: 'oi mamãe' e vem aquilo dele provar para mim que é capaz, que é possível sim e isso vem me trazendo força. A partir do desenvolvimento dele, me sinto mais forte e vou cada vez mais em busca do que pode melhorar a vida dele", ressalta.

Alessandra também coloca para fora a principal preocupação e aquela que ela divide com tantas outras mães. "Um dia eu não vou estar mais aqui e quero para o Ricardo, como quero para meu outro filho, que ele seja mais independente".

Se existe um mundo de Ricardo? A mãe prefere colocá-los todos um só. "Ricardo nunca foi dessas crianças que ficam fechadas nelas mesmas. Ele gosta de pessoas, mesmo que tenha essa dificuldade de se comunicar, ele gosta. Eu não gosto de dizer que ele vive num mundo. Não, eles vivem aqui com a gente e o que precisamos é incentivar e criarmos maneiras para que eles consigam mostrar tudo o que gostam, querem e precisam neste mundo com a gente. Eles querem isso e nós só precisamos achar os caminhos".

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