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Campo Grande, Terça-feira, 18 de Setembro de 2018

14/05/2018 10:33

Campo-grandense paga para ser humilhado e ainda aplaude espetáculo em pé

Espetáculo do comediante "Carioca" mostrou como vale sair da bolha para ver o quanto nossa cova anda funda.

Ângela Kempfer
Carioca no palco como o personagem Bolsonabo, o último a entrar em cena. (Foto: Divulgação/Sparta Produções)Carioca no palco como o personagem Bolsonabo, o último a entrar em cena. (Foto: Divulgação/Sparta Produções)

Depois de duas horas pasma com o escracho do humor nacional, quando o show de piadas velhas parecia não ter fôlego para produzir nada pior, o espetáculo “Carioca, em más companhias” termina no apogeu do mau gosto com a derradeira frase: “Se arte é criança colocar a mão em homem pelado, ejacular em mulher no ônibus é grafite!”. O público aplaude em pé, claro, gargalhando, apesar de ser chamado de burro e de malandro durante praticamente a noite inteira.

A experiência do último sábado (12), no Teatro Glauce Rocha, coloca o cidadão dentro de um daqueles filmes que mostram como ideias apresentadas a princípio de maneira inofensivas, engraçadas, podem se transformar em algo realmente perigoso. O sujeito vira personagem de produções do tipo "A Onda" ou "Ele está de volta", ambos sobre a possibilidade de ascensão do nazismo ainda nos dias atuais. E, pode ter certeza, não estou exagerando, nem querendo discutir política partidária.

O show serviu para fazer fervilhar o fígado, reforçar o estoque de críticas contra o campo-grandense médio mas, principalmente, ensinar o quanto vale sair da bolha para conhecer determinados artistas e assim entender que nossa cova fica cada vez mais funda. 

Marvio Lúcio, o tal Carioca, é um talento para reproduzir vozes e sons. Sabe, por exemplo, imitar um avião como ninguém. Mas é só isso. De resto, finge ser corajoso ao provocar o público com ofensas infantis e não vai além de detonar cachorro morto na política, como Dilma, Lula e, inclusive, o presidente Temer, a quem o comediante defendia até pouco tempo, mas que diante da rejeição popular resolveu transformar em "velho morto" que não come a esposa.

Mas Carioca não foi o triste protagonista da noite. O campo-grandense conquistou o mérito nos minutos finais do jogo.

Hitler volta a ser ícone em Alemanha moderna no filme Ele está de volta, de David Wnendt (2015). (Foto: Reprodução Er ist wieder da)Hitler volta a ser ícone em Alemanha moderna no filme "Ele está de volta", de David Wnendt (2015). (Foto: Reprodução Er ist wieder da)

O espetáculo começa com o personagem Jô Suado, que abre a sessão transformando pessoas da plateia em sacos de pancadas para as cansativas grosserias durante o show da autocracia Carioca. Na hora, lembrei do consumidor que é esculhambado, mas continua lotando aquela loja popular famosa da Rua Calógeras.

O bancário gordinho, que nasceu em Bauru (SP), logo é apelidado de capivara e chega a esboçar algum constrangimento ao ganhar o rótulo de burro, por não saber declamar uma poesia de Carlos Drummond de Andrade. 

Outro alvo é um senhor de 65 anos, que começa levando puxão de orelhas por ter direito à meia-entrada, o que para o humorista é produto da malandragem do brasileiro. É perturbador ver tanta gente achando aquilo divertido. Mas dá para entender, porque o nazismo já ensinou o quão sedutor é pertencer a um grupo, independente de qual seja.

Jô Suado sai do palco repetindo centenas de vezes a palavra “cagar”, como criança pequena que acha graça de palavras relativas ao sistema excretor, em uma sequência pré-gravada e exibida em telão que, sinceramente, chocou pela vergonha alheia. Nessa hora, o único alento é lembrar que você não precisou pagar R$ 80,00 pelo ingresso e entrou como jornalista convidada.

Na sequência, Carioca imita o apresentador Bóris Casoy, canta como Lulu Santos e vira o Pastor "Cráudio". Independentemente do personagem, é humor como nos anos 1980, manjado, que faz piadinha de gay, zomba da velhice, tira sarro de gordo, compara vida de casado aos dias de solteiro, defende que mulher ideal é a gostosa e repete os clichês baratos que há muito já foram desbancados pela qualidade de produtos inteligentes como do Porta dos Fundos, uma transformação sentida até em programas clássicos da Globo, como o Zorra Total.

 

Cena do filme A Onda, do diretor Dennis Gansel, lançado em 2008. (Foto: Reprodução Die Welle)Cena do filme A Onda, do diretor Dennis Gansel, lançado em 2008. (Foto: Reprodução Die Welle)

O choque de realidade chega definitivamente com "Bolsonabo", o último personagem em cena, uma muleta para Carioca despejar na plateia o que sobrou do estoque dos extremos preparados para a noite. Ele consegue cuspir o politicamente incorreto machista e homofóbico, escondido nas sobrancelhas grossas do pré-candidato radical.

Mas de repente, como crise de consciência, resolve dar lição de moral. O problema é que já é bem tarde.

O comediante pega um fuzil de brinquedo tentando mostrar ao público que o tal candidato é uma farsa e que armamento liberado para compra em supermercado não vai salvar ninguém da miséria e da violência. Mas basta uma resposta do senhorzinho simpático de 65 anos, aquele da meia-entrada, para a galera ir à loucura e o tiro acertar o pé de Carioca. "Pelo menos, Bolsonaro é bem melhor que esse outro aí (Lula)", grita o senhor, aplaudido com fervor pelo público que lota o teatro.

E o artista, que durante 2 horas elegeu como inimigo comum o PT, chamando Dilma várias vezes de velha sapatão das "tetas murchas" e dizendo que não vê a hora de Lula ter de "cagar" no chão de uma penitenciária, ainda achava que alguém entenderia o recado contra Adolf Hitler.

Por fim, a fila para autógrafos na porta do camarim me faz sentir ridícula, por menosprezar a capacidade de empatia de um sujeito sem graça que colocou em xeque em apenas 2 horas tantos valores dignos da sociedade.

Nessa hora  deve ter gente ai falando: "Discurso de petralha! Baboseira de feminista". Lamento se você pensa que só petista ou feminista têm massa cinzenta sobre os ombros.

Bom seria se na primeira intervenção do comediante, o bancário de Bauru fosse iluminado pela poesia de Drummond e recitasse ao público o "Congresso Internacional do Medo", sobre tempos de guerra e desiquilíbrio.

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

(*) Ângela Kempfer é jornalista e editora do Lado B do Campo Grande News.



Texto fantástico!
É um absurdo que a população se deleite com críticas tão barrelas, baixas. O senso crítico desse público é o mesmo de amebas. Desconhecimento de fatos históricos, absoluta falta de embasamento de qualquer ordem.
 
Aureliana em 15/05/2018 10:36:39
Que alívio saber que não sou a única a detestar esse tipo de 'humor'. Há alguns meses esteve aqui um outro, ridiculo (que teve problema com a filha do Zezé de Camargo) em que ele passou algum tempo conhecendo as peculiaridades da cidade e à noite humilhava a todos se achando engraçado! até o homem que ficava na av. Afonso Pena com o rádio, dançando, foi escrachado durante o espetáculo e, pasme! ria! comentei que se estivesse lá a coisa ia ficar ruim pro imbecil! que demência é essa gente?
 
Lia em 15/05/2018 08:09:35
Sobre a critica da peça:Não li e não gostei.
 
Bruno Feitosa em 14/05/2018 22:43:48
Com tantos elogios, deu até vontade de assistir.
 
Nacional_Bolchevique em 14/05/2018 17:42:33
Parabéns pela análise e crítica. Uma pena que em terra de coronel qualquer crítica feita contra o conservadorismo é motivo de sobra para classificar alguém como "comunista".
 
Miranda em 14/05/2018 16:22:41
Esta colunista, antes ativista de esquerda que jornalista imparcial, chama o campo-grandense de ignorante por aplaudir um comediante que faz críticas ao segmento político-ideológico que saqueou a nação e que empenhou-se em destruir os valores morais construídos ao longo da História e praticados pela maioria esmagadora do povo brasileiro. Ela, a colunista, faz e fala como membro da propaganda Nazista com ações de: Mentiras; Acusações infundadas; Intolerância à verdade; etc. Para finalizar, ela qualifica como inteligente o Porta dos Fundos, que, em matéria de desrespeito às Leis e às pessoas, é o que tem de pior no humor, ou melhor, falta de humor nas mídias brasileiras.
 
Ricardo Pereira em 14/05/2018 16:21:32
kkkkkk geeente eu acho que a jornalista poderia virar comediante... poh, em terra de chatisse comediante é rei isso sim.Será que ela não entende dos tipos de comedia? poh se eu estivesse incomodada simplesmente sairia. alguns do POvo de Campo Grande de fato não toma jeito. Esse texto é mais um oferecimento do politicamente correto, é porque da hibope, tanto que to aqui perdendo tempo kkk
 
Dani Santana em 14/05/2018 14:50:06
Parabens pelo post. Esse Carioca é um ignorante e quem gosta do tipo de humor dele é farinha do mesmo saco.
 
Fabio em 14/05/2018 14:39:31
Aposto que a coluna recebeu um monte de críticas, mas logicamente não vai publicar, por que se tem uma coisa que esquerdista é com força é covarde. Não por isso o condenado pinguço falou pra todo mundo ouvir que se voltasse pra presidência (Deus nos livre), iria fazer de tudo para controlar a imprensa e a internet.
 
Dean_Winchester em 14/05/2018 14:29:39
Esquerdoso adora falar da “tortura” do regime militar, mas estranhamente nada falam sobre os crimes, “justiçamentos”, ataques a bomba, assaltos, sequestros, e também tortura, perpetrados pelos quadrilheiros que quase destruíram o País ao ocuparem cargos no (des)governo e hoje são processados e presos. Nada falam das ditaduras comunistas que executaram inocentes, e continuam matando até hoje. Nada falam sobre Raul Castro hoje no poder no lugar do irmão que lá ficou por 50 ANOS. Eleições?? Pfff... Achou ruim? Prisão e paredão pra você! Aí tá tudo certo. Só que não. Não há mau caratismo e mentira que dure pra sempre. O choro é livre :)
 
Dean_Winchester em 14/05/2018 14:27:17
Textinho medíocre, bom pra fazer mortadeleiro mostrar a cara, e se iludir com a imprensa da foice e martelo, e seu incansável (e bem patrocinado) mimimi, que já não engana mais ninguém (a não ser os idiotas fanáticos ou os comprados de sempre). Basta ver a pesquisa aqui mesmo desta “beleza” de site esquerdoso sobre a mudança de nome da Avenida Ernesto Geisel: até o momento, 70% disse NÃO. Deve ser triste ver quase 4 décadas de esforço de ocupação de universidades e meios de comunicação, buscando a hegemonia cultural, indo pro buraco hahaha! Peteba dá chilique, chama de “manifestoche”, mas quem recebe 30 reais e sanduíche de mortadela pra passar vergonha em “protesto” é a turma do barbudo condenado.
 
Dean_Winchester em 14/05/2018 14:23:04
Não sabe que é HUMOR, comédia , nem merecia ser jornalista
concordo com o Joaquim


JOAQUIN TEIXEIRA
‏ @JqTeixeira
1 hHá 1 hora

PROBLEMATIZARAM UM SHOW DE HUMOR

PARABÉNS AO @cariocadelegado ÓTIMO TRABALHO!

Ps: ele fez um show aqui, zuou nosso povo, nosso jeito (diferente), nossa cidade e nem ligamos.. sabemos diferenciar Humor de preconceito/racismo e essas coisas ..
Imagine se vc para num comedy então ...
 
Breno Arcie em 14/05/2018 14:17:04
Parabéns pelo texto Ângela! Precisamos de mais coragem dos coleguinhas jornalistas para o trato da informação jornalística. Há anos o jornalismo local corre atrás, com prejuízo, do popularesco pela audiência, e não o contrário, como mediador e como forma de conhecimento.
 
Gerson Luiz Martins em 14/05/2018 13:35:43
A sorte do Brasil é que campo grande não tem nem 1% dos votos e não faz a mínima diferença. Assim como os manifestoches da Paulista que juravam ser maioria...e depois perderam pela 4a vez a eleição e não temos o maior ladrão da história desse país, aquele mineiro que mora na Viera Souto, na Presidência até hoje. Esse sujeito ai retratado como Hitler é pior, porque Hitler não era tão burro. Ele foi expulso do Exército por planejar um atendado a bomba. Os campograndenses que moravam bem longe dos centros de tortura e assassinatos em São Paulo e Rio não sabem de nada!
 
Pedro em 14/05/2018 12:43:17
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