Menina que atrapalhou voo é tratada como voz de Deus em igreja cheia
Em conversa com o Lado B, a menina contou o que aconteceu durante o voo polêmico
Após viralizar nas redes sociais por pregar dentro de um avião, a pastora mirim Júlia Ortiz, de 10 anos, voltou a Campo Grande e foi recebida por uma comunidade de fiéis que apoiaram a atitude da criança, mesmo diante da enxurrada de críticas sobre ter invadido o espaço coletivo durante o voo.
Na igreja onde o pai é pastor, no Bairro Caiçara, a menina foi descrita à reportagem como “corajosa”, “destemida”, “ungida por Deus” e até mesmo “impulsiva”. No templo da Igreja Pentecostal Nova Redenção da Fé, Júlia tem lugar de destaque e até se senta no altar, ao lado do pai, Mauro Ortiz.
O Lado B acompanhou o culto na noite desta segunda-feira (4) e conversou com fiéis, que enxergam na menina alguém com missão definida desde cedo. Durante a cerimônia, Júlia demonstrou segurança incomum para a idade. Com voz empostada e postura séria, falou para uma igreja lotada sem demonstrar qualquer timidez.
Durante a pregação, entregou mensagens que afirmou receber diretamente de Deus, direcionando palavras aos fiéis sobre reconstrução familiar, fim da tristeza e necessidade de confiar no divino. Em vários momentos, o comportamento se distancia do esperado para uma criança de 10 anos e se aproxima de pregadores adultos, o que reforça o status que já conquistou dentro da comunidade religiosa.
Em conversa com a reportagem Júlia contou que nasceu cercada por profecias. Segundo ela, a mãe foi diagnosticada com um problema que a impedia de engravidar, mas após anos de oração e uma revelação feita por um pastor, conseguiu a gestação.
“Minha família é pastoral. Meus avós são pastores, meus pais são pastores, então é algo hereditário. Muitos pastores profetizaram sobre minha vida e Deus tem cumprido”, afirmou.
Sobre o episódio no avião, a menina conta que viajava para Navegantes (SC), onde tinha compromissos religiosos, quando sentiu que deveria agir. “Deus falou para mim: ‘Júlia, fala para o meu povo que eu estou voltando’. Foi na hora certa. O avião estava estável, as pessoas estavam levantando normalmente. Quando Deus mandou, eu fui”, relata.
Ela garante que não houve impulso desordenado ou interferência em momento crítico do voo. “Falaram que eu estava atrapalhando, mas não. Eu fui quando estava tudo normal. Deus falou comigo e eu obedeci”, pontua.
A menina também relembrou o momento de tensão quando foi contida por tripulantes. “O homem começou a me empurrar, a mulher puxou meu braço, eu me assustei muito. Foi algo que eu não imaginei. Mas também teve gente dizendo: ‘Deixa ela pregar’. Muitas pessoas queriam ouvir”, relata.
Mesmo com a repercussão negativa nas redes, Júlia afirma não se abalar. “Eu não ligo. Estou fazendo uma grande obra e não vou descer ao nível dos meus inimigos. Jesus mandou pregar em tempo e fora de tempo. Quando Ele falou ‘vai’, eu fui”, destaca.
Ela conta ainda que desde os 7 anos sentiu o “chamado” e que pregar faz parte da rotina. “Eu comecei a pregar com 7 anos. A primeira vez que Deus me tocou foi nessa idade”, lembra.
O pai, pastor Mauro Ortiz, conta que não foi avisado previamente sobre a decisão da filha e confirmou que a repercussão levou a uma conversa entre os dois. Embora defenda a motivação espiritual da filha, reconheceu que o ambiente do avião exigia reflexão.
“Depois nós conversamos e ela entendeu que aquele lugar não era apropriado. Serviu para orientar. Ela entregou a mensagem, mas compreendeu a situação”, explica.
Ainda assim, ele reforça que a filha seguirá pregando. “A Júlia prega na rua, em ônibus, praças, onde Deus tocar. Isso não vai parar”, diz.
Na igreja, a postura é de apoio quase unânime. Fiéis ouvidos pela reportagem defenderam a menina, tratando o episódio como expressão de fé e ousadia espiritual. “Ela é corajosa, valente. O que muitos adultos não têm coragem de fazer”, resumiu a missionária Maria José.
Maria reconhece que o episódio pode gerar opiniões divergentes, mas pessoalmente acredita que Júlia agiu corretamente. “Talvez ela tenha feito por ímpeto, mas eu concordo com ela. Quando Deus manda, tem coisas que a pessoa não consegue parar. Independente do lugar, ela foi cumprir o que acreditava. Essa é minha opinião”, avalia.
Já Everton de Souza, membro da congregação há cinco anos, admitiu que a discussão sobre incomodar outras pessoas existe, mas afirmou que a fé da igreja enxerga a situação sob outra ótica.
“Eu não posso dizer que é errado e também não posso dizer que é totalmente correto. Mas quem vive o espiritual entende que muitas vezes existe esse impulso. Por mais controverso que pareça, alguém recebeu aquela palavra”, relata.
Raimundo Barbosa, frequentador mais recente da igreja, acredita que a missão espiritual se sobrepõe às críticas sociais. “A palavra é para ser pregada em tempo e fora de tempo. Nem sempre vai ser confortável para todos, mas é o que a Bíblia ensina”, pontua.
Com milhões de visualizações, convites para eventos religiosos dentro e fora de Mato Grosso do Sul e uma rotina de vídeos pregando em ônibus e espaços públicos, Júlia transforma a repercussão em plataforma para ampliar sua presença ministerial.
“Enquanto Jesus mandar, eu vou continuar pregando. Não vou parar porque estou fazendo a obra de Deus e obedecendo ao chamado que Ele me deu”, finaliza Júlia.
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