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Comportamento

“Cunhadas” e mães vivem de espera, jumbos e reencontros no presídio

Com regras, filas e viagens longas, mulheres transformam o entorno do presídio em extensão do dia a dia

Por Amanda Ferreira e Sofia Lupaes | 14/09/2026 06:28


“Cunhadas” e mães vivem de espera, jumbos e reencontros no presídio
Visitantes aguardam nas primeiras horas da manhã em frente à Máxima (Foto: Amanda Ferreira)

RESUMO

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Visitantes do Presídio de Segurança Máxima de Campo Grande chegam horas antes da abertura dos portões, que ocorre às 8h30 aos domingos. Mulheres acordam de madrugada para preparar alimentos, escolher roupas adequadas e enfrentar longas viagens. Nos arredores, um comércio voltado às exigências da unidade oferece roupas, alimentos e itens permitidos na revista, que hoje utiliza scanner corporal.

Antes mesmo de os portões abrirem para as visitas, o entorno do Presídio de Segurança Máxima de Campo Grande já muda de cenário. Nas primeiras horas da manhã do dia 13 de setembro, domingo, mulheres com roupas claras, maquiagens, sacolas transparentes e recipientes cheios de comida começam a ocupar a rua, formar grupos e organizar a espera pela entrada. O movimento antecede o início oficial da visitação, marcado para as 8h30.

A rotina se repete 4 vezes por mês, mas com públicos diferentes. O primeiro domingo é reservado às crianças. Nos outros 3, familiares, amigos e companheiras entram para encontros que podem incluir visita íntima e duram cerca de duas horas e meia. Nos dias destinados aos pequenos, brinquedos e roupas coloridas quebram, ainda que por algumas horas, a aparência rígida das grades e cercas que cercam a unidade.

Do lado de fora, porém, a visita começa bem antes da revista. O Lado B acompanhou durante três horas a movimentação nas ruas próximas ao presídio e encontrou um pequeno comércio moldado pelas exigências da cadeia. Lojas vendem peças adequadas às regras de entrada, enquanto conveniências oferecem alimentos, sacolas transparentes e outros itens preparados justamente para passar pelo controle da unidade.

“Cunhadas” e mães vivem de espera, jumbos e reencontros no presídio
Comércio nos arredores funciona de olho nas regras para entrada no presídio. (Foto: Amanda Ferreira)

Quanto mais se avança pela rua, mais evidente fica a influência do presídio sobre o comércio local. Há barracas com lanches, refeições, roupas, produtos de higiene, cosméticos, potes, material de limpeza e até cigarros, usados como moeda de troca dentro da prisão.

Em frente à unidade, uma placa detalha o que é permitido e o que fica barrado. Ali, das vitrines às sacolas, quase tudo é organizado em função de uma pergunta simples: o que consegue atravessar o portão?

Cunhadas – Entre quem espera para entrar na Máxima, as mulheres formam a maior parte do movimento. Muitas são chamadas nas redes sociais de “cunhadas”, apelido que surgiu porque os presos costumam se tratar como “irmãos”.

Companheiras e namoradas acabaram incorporadas ao termo. Na manhã acompanhada pelo Lado B, algumas evitaram entrevistas e fotografias, receosas de exposição. Um grupo de 3 amigas aceitou contar um pouco da rotina, desde que não fosse identificado.

“Cunhadas” e mães vivem de espera, jumbos e reencontros no presídio
Do lado de fora das grades, a visita começa horas antes da abertura dos portões. (Foto: Amanda Ferreira))

Frequentadoras assíduas, elas já conhecem as exigências impostas para atravessar os portões. A preparação envolve escolher a roupa adequada, separar o que será levado e deixar do lado de fora peças que não são permitidas durante a entrada. Casacos, por exemplo, podem ficar guardados antes da revista. Cada visita dura cerca de duas horas e meia e, segundo elas, os encontros entre adultos podem incluir visita íntima.

A relação com os agentes, segundo uma das visitantes, varia conforme a equipe que está de plantão. Ela conta que nunca teve problema durante as revistas, mas reconhece que o atendimento pode mudar de um dia para outro. “Depende do plantão. Eu nunca peguei uma agente chata, mas tem dias que eles estão horríveis”, afirma.

A revista, porém, deixou de exigir que as mulheres tirem a roupa. Hoje, segundo elas, a entrada é feita com passagem pelo scanner corporal, o que tornou o procedimento menos invasivo.

Aos 22 anos, Darrys Mendes, de São Gabriel do Oeste, encarou pela primeira vez a rotina de visita ao marido na Máxima. Depois de esperar cerca de um mês e meio pela carteirinha, ela recebeu a autorização na semana passada e saiu de madrugada para Campo Grande. Na bagagem, levou comidas preparadas em casa, entre as quais bife, carne e estrogonofe.

“Cunhadas” e mães vivem de espera, jumbos e reencontros no presídio
Darrys Mendes enfrentou duas horas de estrada para a primeira visita ao marido. (Foto: Amanda Ferreira)

“Eu saí do serviço meia-noite e meia, cheguei em casa e fui fazer tudo. Uma amiga me ajudou porque eu já estava cansada. Fui terminar mais de três da manhã, só deu tempo de tomar banho, lavar o cabelo e sair. A gente pegou a estrada por volta das 4h30 e chegou aqui umas 7h”.

A viagem leva cerca de duas horas, dependendo do movimento na rodovia. Mesmo depois de uma noite praticamente sem dormir, Darrys chegou ansiosa para o reencontro. Eram dois meses sem ver o marido e, diante da primeira entrada no presídio, nervosismo e expectativa caminhavam juntos.

“Pretendo fazer esse mesmo percurso nos próximos domingos e vou continuar vindo com uma amiga. A gente é da mesma família, porque eu sou casada com o irmão do marido dela. Entre o cansaço, a comida preparada na correria e as horas de estrada, uma acaba ajudando a outra a enfrentar essa rotina que, para mim, ainda está só começando”.

Fabiana Aparecida já conhece bem a preparação que antecede os domingos de visita. Aposentada e morando atualmente em Campo Grande, ela vai à Máxima para encontrar o esposo. Nos dias de entrada, acorda entre 3h e 4h, prepara a comida e ainda recebe em casa mulheres que chegam de outras cidades para cumprir a mesma rotina.

“Cunhadas” e mães vivem de espera, jumbos e reencontros no presídio
Fabiana Aparecida acorda ainda de madrugada para preparar a visita ao esposo. (Foto: Amanda Ferreira)

“Eu acordo umas 3h, 4h, porque recebo as minhas filhas em casa, as meninas de fora. A gente vai preparando as coisas, comida normal, tudo no dia a dia mesmo para trazer no domingo”.

Além da comida, Fabiana também se preocupa com a roupa escolhida para passar pela fiscalização. Ela conta que prefere jeans e peças mais discretas, dentro das exigências da unidade. Ao longo do tempo, a convivência com outras visitantes também acabou criando laços que ultrapassam a fila e o horário de entrada.

“Quando eu vinha de outra cidade, de Três Lagoas saía à noite e chegava aqui de madrugada. É cansativo, principalmente para quem vem de longe. A amizade você faz aqui porque o sofrimento lá dentro não é bom. O sofrimento de cada um aqui faz a gente se unir”.

“Cunhadas” e mães vivem de espera, jumbos e reencontros no presídio
Mulheres aguardam o horário de entrada para mais um domingo de visita (Foto: Amanda Ferreira)

Mães que não abandonam - Outras presenças constantes são as mães que, sob chuva ou sol, seguem até o presídio para cuidar dos filhos mesmo à distância, separados pelas grades.

Moradora de Três Lagoas, uma mãe que foi visitar o Penal consegue visitar o filho apenas uma vez por mês por causa da distância. Para facilitar a viagem, não prepara a comida em casa: compra o almoço nas proximidades da Máxima e leva dinheiro para que ele possa adquirir itens pessoais dentro da unidade.

“Prisão não é boa, mas eu me sinto bem com ele aqui. Meu filho fala que está tudo bem lá dentro e, comigo, os agentes sempre me trataram bem e deram atenção aos visitantes, nunca me maltrataram, mas espero em breve ele volte para casa”.

“Cunhadas” e mães vivem de espera, jumbos e reencontros no presídio
Há seis anos, Mariela Ana Amorim repete aos domingos a rotina de visitar o filho (Foto: Amanda Ferreira)

 Há seis anos, Mariela Ana Amorim, de 47 anos, repete a mesma rotina para visitar o filho. O domingo começa ainda de madrugada, por volta das 4h, quando ela prepara a comida, separa tudo em pequenas embalagens e organiza o que poderá atravessar a fiscalização. Depois, chama um carro por aplicativo e segue para o presídio, onde costuma chegar entre 9h e 10h.

“Eu acordo de madrugada. Começo a fazer a comida dele, depois ensaco e coloco tudo em pacotinho para poder trazer. É o horário que eu estou sempre aqui. Já estou nessa luta com ele desde a infância. Não é muito fácil, não. Mas a gente não desiste. Mãe nunca desiste”, finaliza enquanto segurava a carteirinha de visitante nas mãos.

“Cunhadas” e mães vivem de espera, jumbos e reencontros no presídio
Todos itens permitidos e não autorizados ficam expostos na frente do presídio (Foto: Amanda Ferreira)


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