Do 1º prêmio às dívidas, jogadores relatam como o vício tomou conta da vida
Problema começa na primeira aposta, quando a plataforma faz o usuário pensar que é fácil ganhar dinheiro

Perder o salário em poucas horas, esconder dívidas da família, pedir dinheiro emprestado para continuar apostando e, quando todas as portas se fecham, recorrer à agiotagem. Esse é o caminho percorrido por parte dos jogadores compulsivos em Mato Grosso do Sul, segundo especialistas ouvidos pelo Campo Grande News. Embora a polícia ainda não consiga mensurar quantos empréstimos ilegais têm origem nas apostas online, os registros de agiotagem cresceram 68% no Estado em um ano.
RESUMO
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Registros de agiotagem cresceram 68% em Mato Grosso do Sul em um ano, com 42 ocorrências entre janeiro e julho de 2025, contra 25 no mesmo período anterior. Especialistas apontam relação com apostas online e ludopatia, transtorno que leva jogadores a esconder dívidas e recorrer a empréstimos ilegais. O tratamento inclui terapia cognitivo-comportamental e grupos de apoio, como o Jogadores Anônimos, que se reúne às terças e quintas em Campo Grande.
Dados da Polícia Civil mostram que, entre janeiro e julho de 2025, foram registradas 25 ocorrências relacionadas à prática. No mesmo período deste ano, esse número subiu para 42. Segundo o delegado Felipe Rossato, a polícia ainda não identificou, nos boletins de ocorrência, casos em que as vítimas relataram expressamente ter buscado dinheiro com agiotas para apostar. No entanto, ele afirma que essa relação é considerada plausível.
"As pessoas que estão relacionadas aos jogos de azar acabam ficando mais vulneráveis aos empréstimos com agiotas. Elas perdem o controle financeiro, comprometem toda a renda e, muitas vezes, precisam de dinheiro para pagar dívidas ou até suprir necessidades básicas", explica.
O delegado lembra que a agiotagem, formalmente chamada de "usura", consiste na cobrança abusiva de juros. Em muitos casos, segundo ele, quem empresta R$ 1 mil exige a devolução de até R$ 5 mil.
A psicóloga Isabella Scher, especialista no tratamento da ludopatia, explica que recorrer a empréstimos é uma consequência comum do transtorno. Antes disso, porém, o problema costuma se instalar de forma silenciosa. "O prejuízo financeiro começa cedo, mas fica geralmente escondido. Primeiro é uma conta atrasada, depois um cartão estourado, um empréstimo para resolver 'só dessa vez'. Quando a pessoa entra no ciclo de tentar recuperar o que perdeu, os valores aumentam rapidamente", afirma.
Ela explica que um dos principais sinais da dependência é justamente a chamada "perseguição da perda": o jogador perde dinheiro e sente uma necessidade imediata de apostar novamente para tentar recuperar o prejuízo.
"O cérebro cria uma falsa sensação de que está devendo uma vitória. A pessoa acredita que tem controle sobre o jogo e continua apostando, mesmo sabendo das consequências", detalhou.
Conforme a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), a rede municipal tem registrado aumento na procura por atendimento de pessoas com sofrimento relacionado ao uso problemático de jogos e apostas. Dados da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) mostram que os atendimentos médicos nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) por diagnóstico de jogo patológico passaram de 50 em 2024 para 162 em 2025. Apenas entre janeiro e junho deste ano, já foram contabilizados 105 atendimentos.
A secretaria informou que o atendimento segue o fluxo estabelecido pelo Ministério da Saúde. O acolhimento inicial é realizado nas Unidades de Saúde da Família e, conforme a gravidade do caso, o paciente pode ser encaminhado aos Centros de Atenção Psicossocial.
Casos considerados leves são acompanhados na Atenção Primária, enquanto situações de maior complexidade recebem assistência especializada, com equipe multiprofissional, atendimentos individuais e em grupo, além de suporte aos familiares.
Segredo, vergonha e empréstimos
Nos relatos obtidos pela reportagem, um padrão se repete: o vício é mantido em segredo por meses ou até anos. Uma trabalhadora, hoje em recuperação, contou que começou a apostar quando passou a ganhar o primeiro salário fixo. No início, acumulou vitórias e chegou a acreditar que havia descoberto uma estratégia para vencer. Depois vieram as perdas.
Outro jogador em recuperação contou que sempre que enfrentava situações emocionalmente difíceis, recorria às apostas para aliviar a ansiedade. Quando perdia dinheiro, escondia a situação da família e mentia sobre a própria condição financeira.
Uma ex-jogadora relata que está há alguns meses tentando recuperar a confiança da família. "O jogo tirou tudo de mim. Eu perdi a minha família. A primeira aposta é muito perigosa, todos que passaram por isso sabem como é complicado. Se recaímos, podemos colocar tudo a perder novamente", detalhou.
Há ainda quem tenha acumulado dívidas com empréstimos informais antes de reconhecer que precisava de ajuda.
Segundo a psicóloga Isabella, esconder o problema também faz parte da doença. “Há muita vergonha e medo do julgamento. Quando acabam as fontes tradicionais de crédito, muitas pessoas recorrem a amigos, familiares e até agiotas, aprofundando ainda mais o problema financeiro e emocional”, disse.
Embora o senso comum ainda associe o vício em apostas à irresponsabilidade, a ludopatia é reconhecida como um transtorno mental. Além dos prejuízos financeiros, o quadro pode provocar ansiedade, depressão, insônia e, nos casos mais graves, pensamentos suicidas.
"O jogo passa a ocupar praticamente todo o pensamento da pessoa. Ela planeja a próxima aposta, revive as anteriores, precisa apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma emoção e perde a capacidade de controlar esse comportamento", explica Isabella.
A facilidade de acesso também contribui para o aumento dos casos. "Antes era preciso ir até um cassino ou casa de apostas. Hoje basta abrir um aplicativo. As plataformas funcionam 24 horas por dia, enviam notificações constantes e tornam o pagamento praticamente instantâneo, via Pix", detalhou.

Como buscar ajuda - O tratamento da ludopatia envolve acompanhamento psicológico, principalmente por meio da TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental), além de grupos de apoio e, quando necessário, atendimento psiquiátrico.
A psicóloga explica que o trabalho consiste em identificar os gatilhos, combater as distorções cognitivas que mantêm o ciclo das apostas e criar mecanismos para impedir novos episódios.
"O primeiro passo é reconhecer que perdeu o controle, conversar com alguém de confiança e procurar ajuda. Quanto mais cedo isso acontece, maiores são as chances de interromper o ciclo antes que ele evolua para dívidas impagáveis e consequências ainda mais graves", disse a psicóloga.
Em Campo Grande, o grupo Jogadores Anônimos realiza encontros todas as terças e quintas-feiras, a partir das 19h, na Rua Maracaju, 249, no Centro.
Na rede municipal de saúde, a orientação é para que pessoas que percebam sinais de dependência procurem uma USF (Unidade de Saúde da Família) ou um CAPS para avaliação e definição do tratamento adequado.
(*) Para preservar a identidade dos jogadores em recuperação, nomes, gêneros e outras características foram alterados ou ocultados.
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