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Campo Grande, Sábado, 19 de Outubro de 2019

20/09/2019 09:55

Na Marinha, Ramão sobreviveu a maremoto e também conquistou clássico

Volkswagen 1600, quatro portas, Sedan, foi comprado por 24.500,00 Cruzeiros, mas hoje não tem preço.

Danielle Valentim
Volkswagen 1600, quatro portas, Sedan, ao fundo da imagem. (Foto: Danielle Valentim)Volkswagen 1600, quatro portas, Sedan, ao fundo da imagem. (Foto: Danielle Valentim)

Aos 81 anos, o ex-fuzileiro naval da Marinha Ramão Benedito da Silva carrega na mente um baú de histórias. Como um verdadeiro “lobo do mar”, o militar reformado viu a morte de perto em 1974 e se considera um sobrevivente. Em meio as vivências, “Zé”, um Volkswagen 1600, quatro portas, Sedan, foi uma de suas conquistas. O carro foi comprado por 24.500,00 Cruzeiros, mas hoje não tem preço

Nascido em Corumbá, Ramão se alistou de forma voluntária na Marinha aos 17 anos, na cidade de Ladário e, em seguida, foi transferido para o Rio de Janeiro, pela 1ª Companhia Regional de Fuzileiros Navais. “Fui transferido em um grupo de 13 soldados para Ilha das Cobras. A primeira viagem ao Rio aconteceu em uma Maria Fumaça”, conta.

Logo na primeira vez que voltou do Rio de Janeiro para Corumbá, Ramão se casou com Josefa Nascimento do Silva, que prefere ser chamada de Marizete e comprou uma casa ao lado da companheira. Ramão e Marizete têm 54 anos de casamento, um casal de filhos e quatro netos.

"O problema é que o país era governado por Sarney e a inflação era de quase 100%. Eu escolhi a casa bem pequenininha, com a intenção de reforma-la e aumentar a cozinha depois que saísse da Marinha e conclui. Viemos para Campo Grande em 1990”, conta.

Depois de 22 anos seguidos no Rio de Janeiro, Ramão pediu transferência para Ladário onde ficou três anos e retornou à cidade carioca para aguardar a promoção e a reserva pela Marinha. Ramão voltou a Corumbá aos 48 anos e em seguida se mudou com a esposa para Campo Grande.

O xodó ainda tem os frisos, rodas e calotas originais. (Foto: Danielle Valentim)O xodó ainda tem os frisos, rodas e calotas originais. (Foto: Danielle Valentim)
Painel e volante também são originais. (Foto: Danielle Valentim)Painel e volante também são originais. (Foto: Danielle Valentim)

O Zé - Ao lado do Fusca e da Kombi, a linha Volkswagen 1600 era base da presença da Volkswagen no mercado brasileiro até a chegada do Passat, em 1974. Entre idas e vindas à Cidade Branca, conseguiu comprar “Zé” depois de 22 anos de trabalho.

O carro foi comprado de Dom Ladislau que foi Bispo em Corumbá até o ano de 1978. “O carro tinha a cor preta, mas fiz a transferência da pintura para o bege Ipanema, porque na época os fuscas eram lançados nessa cor, era moda. O veículo custou 24,500,00 Cruzeiros e a mudança de cor custou 7 mil cruzeiros. Hoje ele não tem preço, faz parte do coração”, conta.

“Eu sou o segundo dono. Ele é de 1970, mas eu o comprei em 1977. Na época foi o primeiro carro quatro portas. Ele explodiu na mesma época que o jogador Pelé. O nome “Zé” foi inspirado no famoso personagem “Zé do Caixão”, que também tinha um Volks 1600”, conta.

Ramão se lembra de que o veículo foi lançado, especialmente, para a função de táxi, por causa das quatro portas. O xodó ainda tem os frisos, rodas, painéis, volante e calotas originais. “Mas antes de compra-lo cheguei trabalhar de taxista no Rio. Logo que cheguei fazia bicos como taxista. Era ilegal, mas fiz isso por 10 anos para comprar minha casa em Corumbá. Eu pagava 30 cruzeiros por dia e já pegava o carro com o tanque cheio”, lembra.

O Volks de Ramão não participa de encontro de relíquias e nem de exposições por pura burocracia. “Ele não tem placa preta que identifica antiguidades. Tem que pagar mais de 2 mil reais. Larga a mão”, sorriu Ramão.

O veículo que hoje é parte da família atravessou divisas no trajeto Corumbá/Rio de Janeiro inúmeras vezes, ao lado de mais quatro fuscas. Nessas idas e voltas, o ex-fuzileiro naval lembra muito bem da festança entre a família e amigos.

“A marinha nos dava 35 dias de férias, dois dias e meio para ir e dois dias e meio para voltar. Chegávamos a Corumbá pela manga que tinha no braço do Rio Paraguai, pelo Buraco das Piranhas, onde tem a pantaneira, atualmente a Estrada Parque, só passava uma balsa e o Zé atravessa de balsa. Subíamos o Morro do Manganês e quando descia no Lampião Acesso, já se avistava Corumbá e Ladário. Era um mês de festa, com peixada, churrasco e muito sarravulho”, conta.

Ramão sente muito orgulhoso dos filhos e até hoje se lembra do desespero de enfrentar um maremoto. (Foto: Danielle Valentim)Ramão sente muito orgulhoso dos filhos e até hoje se lembra do desespero de enfrentar um maremoto. (Foto: Danielle Valentim)

O maremoto - Ramão sente muito orgulho dos filhos e até hoje se lembra do desespero de enfrentar um maremoto, com a filha mais velha recém-nascida em casa.

A operação chamada de Delta 7 durou seis meses em Porto Rico. Até 1974, a pequena ilha caribenha era o terceiro país no mundo em valor de investimento estrangeiro direto dos Estados Unidos, superado apenas pela Alemanha e pelo Canadá.

Em um navio-patrulha oceânico, os militares visitaram a base da Guarda Costeira dos Estados Unidos, no intuito de ampliarem os conhecimentos sobre as tarefas executadas por aquela Força, já que suas atividades se assemelham às desempenhadas pelos navios distritais da Marinha do Brasil.

Ramão descreve que o navio era tão grande que a torre de comando ficava no meio do navio e que ainda sobrava espaço para jogos de futsal. O navio levou 500 militares, mas o grupo de Ramão, que na época era 2º sargento, era formado por 13 pessoas.

Ele lembra que até o banho era cronometrado. “Entravam de 10 em 10. Apitava para se molhar, depois para se ensaboar, o terceiro apito era para se enxaguar. Nos fim dos apitos o camarada já estava seco e era só entrar na farda”, lembra.

A viagem saiu do Rio de Janeiro e foi parando de porto em porto. “Passamos em salvador, depois no Rio Grande do Norte passamos por recife até chegar ao Pará. Em todo esse trajeto também fomos pegando carga”, conta.

Os militares recebiam os pagamentos em cheques e a orientação era de que metade desse dinheiro já ficasse no banco do navio para ser enviado à família. Porém, em cada parada era uma surpresa e os militares saíam com o intuito de “tirar a barriga da miséria” e outros para beber tudo que tinham direito.

Alguns bem jovens na época desobedeciam a regra de deixar metade no banco e torravam tudo. Desobediências no navio também deixou militar sem dinheiro e até sem saco para dormir.
Mas antes do navio atracar na base americana, a experiência em alto mar rendeu um livro na cabeça de Ramão. “Assim como as músicas saem da minha cabeça, irei escrever esse livro”, conta.

O ano era 1974, quando navio partiu do Pará para Porto Rico. Uma tempestade começou e de repente as ondas já passavam por cima do navio. A força do mar jogava uma empilhadeira de um lado para outro da embarcação.

“Em alto mar, víamos golfinhos, baleias e até os tubarões que seguiam atrás. Eu só pensava na minha filha que havia acabado de nascer e de repente tocou o alerta: era um maremoto. Tinha uma empilhadeira gigante presa a um cabo de aço, da croa a torre de comando, quando as primeiras ondas subiam, a empilhadeira ia de uma ponta a outra presa a esse cabo de aço. Nós cobertos abaixo. De repente tudo se apagou e ficamos sob a tempestade e o maremoto por cerca de uma hora”, relata.

Como num passo de mágica, Ramão conta que o mar ficou espelhado. “Eu nunca tinha visto aquilo, mas ninguém explica a natureza. A água ficou espelhada. Parece que nada tinha acontecido. O burro do navio ficou a deriva, como uma caixa de fósforo. Mas durante o maremoto eu só pensava “dessa vez vou para o infinito”. Isso são histórias, mas essa fato foi o que mais marcou minha carreira”, conta.

O ex-fuzileiro relata que desembarcaram na base em Porto Rico, em uma área chamada de Praia Vermelha, sem nada, somente com a mochila e farda no corpo. “Estávamos preparados para a guerra, mas desembarcamos para aprender com eles (americanos). Dormíamos próximo ao mar, de boot e o capacete como travesseiro”, finaliza.

Antes do ponto na Avenida Presidente Vargas, Ramão tinha um lava jato na Avenida Júlio de Castilho. O militar reformado já está no ramo há 15 anos. Para se manter na atividade nos auge dos 81 anos, Ramão é quem busca os carros de clientes e os entrega depois da lavagem.

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