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Comportamento

Papai Noel dos Correios lutou na 2ª Guerra e realiza sonhos há 20 anos

Agostinho foi funcionário por 23 anos e mantém a ligação com a empresa em projeto que leva a fantasia do Natal para crianças carentes

Por Aliny Mary Dias | 30/11/2013 10:10
Papai Noel dos Correios há 20 anos, Agostinho já ganhou até selo em sua homenagem (Foto: Marcos Ermínio)
Papai Noel dos Correios há 20 anos, Agostinho já ganhou até selo em sua homenagem (Foto: Marcos Ermínio)

Aos 88 anos, Agostinho Gonçalves da Silva teve dois empregos na vida: combatente da 2ª Guerra Mundial e funcionário da primeira agência dos Correios de Campo Grande. Mas foi depois da aposentadoria que ele encontrou a ocupação que lhe deu sentido à vida. Há 20 anos, o ex-funcionário é o Papai Noel que leva a esperança para crianças que escrevem cartas pedindo que os sonhos sejam realizados pelo bom velhinho.

Com uma infância de privações e pobrezas em Três Lagoas, a 338 quilômetros da Capital, Agostinho cresceu e aos 17 anos se alistou para servir ao Exército. Em 1942, o jovem soldado seguiu para o Rio de Janeiro, de onde iria, dois anos depois, para a Itália combater o exército de Mussolini comandando as trincheiras da linha de frente.

As dificuldades, tristezas, perdas e dores dos combates acabaram em 1945 com a vitória dos aliados. A volta do ex-militar, que recebeu a dispensa do Exército ainda na Itália, para o Brasil aconteceu um ano depois.

Apesar de ter sido herói por enfrentar as batalhas e voltar são e salvo para casa, Agostinho se viu sem reconhecimento e diante de novas dificuldades. “Os que mandavam no país naquela época não valorizaram a gente, eu passei muitas dificuldades e só consegui me reerguer quando encontrei um emprego nos Correios de Campo Grande”, conta.

E não foi qualquer emprego, Agostinho foi um dos primeiros funcionários da primeira agência da EBCT (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos) em Campo Grande, localizada na esquina da Avenida Calógeras com a Rua Dom Aquino, coração da Capital, ainda sem os prédios e o comércio movimentado dos dias atuais.

Registro antigo mostra Agostinho (terceiro da esquerda para direita) em frente à agência mais antiga da Capital (Foto: Marcos Ermínio)
Registro antigo mostra Agostinho (terceiro da esquerda para direita) em frente à agência mais antiga da Capital (Foto: Marcos Ermínio)

Foram 23 anos de comprometimento com o trabalho. Agostinho diz nunca ter chegado atrasado e ficava à disposição para fazer hora extra, caso precisasse. A aposentadoria veio em 1971, mas o amor pela profissão continuou na família. Tanto que uma das filhas do ex-militar e então ex-funcionário seguiu a mesma carreira do pai, também atuando nos Correios.

E foi por intermédio da filha que o aposentado encontrou a nova ocupação que lhe trouxe alegria, satisfação e sentido à vida. “Eu já tinha sido um Papai Noel uma vez, há uns 25 anos, eu ainda tinha cabelo preto. Um dia minha filha estava no trabalho, precisavam de um Papai Noel para o projeto das cartinhas de Natal dos Correios e ela me indicou. Foi aí que eu comecei, há 20 anos, e nunca mais parei”, conta o aposentado.

Todos os anos Agostinho espera com ansiedade pelo mês de dezembro para vestir a roupa vermelha, calçar as botas pretas e colocar os brinquedos dentro do saco, que é visto como mágico pelas crianças. A história dele com o trabalho é tão intensa que este ano Agostinho foi homenageado com um selo feito especialmente com a foto dele vestido com a fantasia do Papai Noel.

“É uma emoção sem igual, eu tenho uma gratidão muito grande por poder entregar os presentes que as pessoas doam para crianças que têm muito pouco. Eu sempre fico emocionado e tenho certeza que vou continuar fazendo isso até uns 100 anos pelo menos”, conta o "bom velhinho", da vida real e da imaginação das crianças.

Mais de 8,9 mil cartas foram enviadas para o
Papai Noel este ano em MS (Foto: Marcos Ermínio)
Mais de 8,9 mil cartas foram enviadas para o Papai Noel este ano em MS (Foto: Marcos Ermínio)

Cartas para o Noel - O projeto das cartinhas de Natal existe há pelo menos 20 anos e a cada ano ganha novos adeptos no Brasil inteiro. Em outubro, os Correios começam a campanha de divulgação do projeto e selecionam escolas carentes que trabalham os pedidos com crianças de até 10 anos de idade.

Olga Martinez é funcionária dos Correios em Campo Grande e há 10 anos coordena o projeto que realiza o sonho de crianças carentes. Ela explica que os pedidos são separados por uma equipe composta por 50 funcionários, e depois as cartas são colocadas à disposição dos padrinhos e madrinhas.

“Nós recebemos cartas desde outubro, selecionamos aquelas que forem manuscritas e feitas por crianças de até 10 anos. Alguns pedidos nós acabamos descartando porque não se encaixam com o que o projeto oferece”, explica.

Em 2013, o projeto recebeu 4.773 cartas enviadas por crianças da Capital. Em todo o Estado, foram mais de 8,9 mil pedidos à espera de padrinhos e madrinhas. Cinco escolas públicas de regiões pobres de Campo Grande foram selecionadas, e o trabalho é feito em conjunto com os docentes.

“Os professores acabam usando o momento de escrever a cartinha como uma forma de ajudar nas aulas de português. Além disso, também recebemos muitas cartas enviadas por crianças de várias partes da cidade”, diz Olga.

Olga coordena projeto há 10 anos em Campo Grande (Foto: Marcos Ermínio)
Olga coordena projeto há 10 anos em Campo Grande (Foto: Marcos Ermínio)

Depois de selecionadas, as cartas começam a passar pelas mãos daqueles que querem fazer uma boa ação. Na Capital, a adoção das cartas é feita de duas maneiras. Empresas parceiras do projeto e já cadastradas pelos Correios recebem a equipe e fazem uma força-tarefa para adotar o maior número possível de cartas.

Outra leva de pedidos fica disponível para todos os campo-grandenses na Agência Central, aquela mesma em que Agostinho teve seu primeiro emprego. Escritas a lápis, com canetas coloridas, em papel branco, amarelo, com ou sem desenhos, há de tudo entre o amontoado de pedidos.

Ivone Rojas, 49, é funcionária dos Correios e há 15 anos trabalha no projeto nos meses de novembro e dezembro. Ela conta que mais de 50 pessoas passam pela agência todos os dias em busca da adoção de cartinhas.

“É muito bonito, algumas pessoas ficam horas lendo as cartinhas e até se emocionam com as histórias das crianças. Os pequenos pedem de tudo, bicicletas, bonecas, carrinhos, emprego para os pais, tratamento de saúde para a mãe e por aí vai”, relata Ivone.

Tamiris adotou duas cartas este ano e vai realizar sonho de crianças (Foto: Marcos Ermínio)
Tamiris adotou duas cartas este ano e vai realizar sonho de crianças (Foto: Marcos Ermínio)

Tamiris Budib, 22, foi uma das madrinhas deste ano. Ela selecionou duas cartinhas e vai realizar o sonho de uma menina e um menino. “Eu sempre quis participar, mas ano passado não tive tempo. Dessa vez tirei a manhã para vir ler e selecionei duas cartas que me tocaram”, frisa.

A jovem vai doar uma boneca, uma piscina de plástico, um carrinho de controle remoto e um par de patins. “Eu sempre me reúno com meu pai para a gente comprar juntos e fazer a alegria das crianças, temos a maior satisfação em fazer isso”, conta Tamiris.

O dia da entrega – E depois de todo o longo processo de divulgação do projeto, escrita das cartas, seleção e triagem dos pedidos, contato com as empresas parceiras e com os padrinhos espontâneos é que entra o Papai Noel Agostinho na história.

A maioria dos presentes é enviada pelos Correios para as crianças, mas alguns meninos e meninas são selecionados para receberem os brinquedos em mãos, do Papai Noel. A entrega é feita geralmente em meados de dezembro e o envolvimento dos funcionários e da comunidade é grande.

Para o primeiro, único e eterno, com ele mesmo diz, Papai Noel dos Correios de Campo Grande, o sentimento ao entregar os presentes para os pequenos é único.

“Mesmo tendo vivido na pobreza e lutado em uma guerra, foi com a roupa de Papai Noel e entregando as doações para as crianças que eu encontrei a felicidade. Quero viver ainda muito tempo para ser o bom velhinho deles”, diz o Papai Noel, que mantém a disposição para trabalhar com quase 90 anos de vida.

Serviço - Interessados em adotar uma cartinha podem procurar a Agência Central localizada na Avenida Calógeras esquina com a Rua Dom Aquino das 8 horas da manhã até às 18 horas. Este ano, a adoção das correspondências pode ser feita até o dia 7 de dezembro. Mais informações podem ser obtidas no telefone 3389-5251.

Agostinho já ganhou até placa em homenagem aos anos de dedicação aos Correios (Foto: Marcos Ermínio)
Agostinho já ganhou até placa em homenagem aos anos de dedicação aos Correios (Foto: Marcos Ermínio)
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