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Campo Grande, Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

23/01/2017 07:25

Parei no tempo e espaço em relação à vida e acabei empurrado por ela

Na série sobre dependência química, a história de quem fica no "trono de um apartamento esperando a morte chegar"

Richie Beauvais*
Parei no tempo e espaço em relação à vida e acabei empurrado por ela

Estava Newton embaixo de uma macieira quando constatou de forma dolorida a existência da gravidade após uma maçã cair em sua cachola. Depois de aplicar o método científico desenvolvido por Galileu, Newton comprovou que o motivo do “galo” em sua cabeça era resultado de tal “força de atração”que um corpo exerce sobre outro.

O chamado método científico consiste em observar determinado fenômeno, formular hipóteses sobre ele, desenvolver experiências que o repitam e relacionar possíveis variáveis que influenciam neste fenômeno.

Se você ainda estiver lendo este artigo e estiver se perguntando: “porque estamos falando em Física em um artigo sobre ‘Comportamento’?”. Respondo: não sou dado às Exatas, mas observe.
Newton teve um baita trabalho, sem dúvida! Imagine quantas maçãs ele teve que derrubar para que, através do método científico, ele comprovasse uma Lei da Física. E olha que “quem gosta de maçã irá gostar de todas, porque todas são iguais”, já cantava Raul Seixas, o roqueiro baiano. No entanto Newton constatou não apenas uma, mas três Leis Universais, que muito merecidamente - uma vez que a maçã caiu logo na sua cabeça - ficaram conhecidas como Leis de Newton.

Entre essas leis aprovadas sem parlamento, está a da Inércia, que é a lei que trata do equilíbrio das coisas. Não é o equilíbrio da galera que pratica o “slackline”, nem o equilíbrio que se busca ao meditar. Este princípio diz que “quando as forças que atuam sobre um corpo não produzem alteração na sua aceleração, este está inerte”. Podemos confundir, mas algo que está em movimento pode também estar em estado de inércia, desde que o movimento seja retilíneo e uniforme, ou seja, não varie sua velocidade e trajetória.

Findada a revisão no melhor estilo “terceirão”, é hora do exercício: proponho que apliquemos o método científico em um fenômeno maravilhosamente incrível e único: a sua vida!
Vamos lá, não faça essa cara. Vai ser legal!

Antes tenho que testemunhar que eu fiz o mesmo e constatei: eu estava em estado de inércia. É provável que você também esteja. Boa parte das pessoas está! Tudo depende do referencial.

Não importa muito se você está em equilíbrio estático, ou seja, está parado em relação aos outros ou se está em movimento retilíneo uniforme, em outras palavras, está andando de forma passiva e tranquila em direção ao fim comum a todos. Em ambos os casos você encontra-se em estado de Inércia.

Constatei enquanto cantarolava Raulzito: “José Newton já dizia: o que subiu tem que descer...”. Houve uma epifania: “Hey, man! Você está em estado de inércia. Se adiante homi!”, disse Raul com seu sotaque soteropolitano em minha cabeça.

Na verdade não foi bem assim. Foi mais doloroso e mais desconfortável que ter uma visão do “Maluco Beleza” para eu constatar que estava de duplamente inerte: parei no tempo e espaço em relação à vida e estava, ao mesmo tempo, passivamente sendo empurrado por ela.

Digo em relação à vida porque, como disse antes, tudo depende do seu referencial. O meu se deu ao observar que as pessoas que estavam ao meu lado em dado momento haviam percorrido “o caminho” a uma velocidade bem diferente da que eu me encontrava.

Eles haviam construído algo em suas vidas. Eu havia tido todas as oportunidades e, para citar novamente o velho Raul, fiquei “no trono de um apartamento esperando a morte chegar”.

Na Física isso se chama Energia Potencial: um corpo armazena determinada quantidade dela. Se as condições necessárias forem atendidas, essa energia irá se manifestar e, então, haverá a realização de um trabalho.

Na Filosofia cada pensador chama esta energia manifesta de uma maneira: Aristóteles iria chamar esta energia de alegria (!) ou “passagem para um estado mais potente do próprio ser”, Hobbes chamava de Conatus, Espinosa de “Potência de Agir”, Nietzsche de “Vontade de Potência”, Bérgson de “Elã Vital”, Clóvis de Barros de “Tesão Pela Vida”. Eu chamo de “Boa Vontade” (apesar de adorar a definição do professor e jornalista Clóvis de Barros!).

Ou seja, todos os meus referencias pegaram as condições necessárias, ou as oportunidades, empregaram sua energia potencial armazenada, ou boa vontade e realizaram um trabalho, saíram da Inércia, seguiram em frente, amadureceram, bateram asas, construíram pontes, fizeram acontecer, etc.

Enquanto isso eu estava, do ponto de vista do método científico, repetindo experiências das quais eu já sabia o resultado e ele não se alterava, mesmo que eu modificasse as variáveis. Ao contrário, o fim era o mesmo. Descobri então que o que estava fazendo era insanidade: repetir as mesmas atitudes esperando resultados diferentes.

A partir desta constatação - de que eu me encontrava em uma dinâmica bem diferente daquela que eu sonhei e almejei, e que estava cometendo a loucura de não mudar de estratégia - tive de achar em mim uma força que me colocasse em aceleração. Aprendi então a utilizar a ferramenta chamada “Movimento Contrário”.

“Não existe força capaz de agir isoladamente. Para cada força, ou ação, existe uma reação, com mesma intensidade e em sentido oposto”, afirmou Newton. Ou seja, se algo estava me prendendo e eu não conseguia sair de sua atração é porque a força que eu aplicava era correspondente à atração que me prendia. Eu estava corroborando com minha inércia.

Eu tinha que aplicar uma força capaz de mudar minha velocidade em relação à vida. Foi então que eu realizei o tal “Movimento Contrário” com um pouco de Boa Vontade.

Eu já não estava “com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar”, recorrendo novamente a Raul Seixas. Eu havia mudado não só de velocidade, como também de direção. Não que eu tenha achado um jeito de não encarar a morte lá no final. Eu somente me dispus a encarar que a morte – lá na frente – não é um fim em si e o importante é como percorro o caminho até ela.

Quanto ao exercício proposto, acredito que você possa ter chegado as seguintes conclusões: ou o estado de Inércia em sua vida não lhe permitiu realizar os sonhos que um dia foram os seus, ou você realizou seus sonhos e está satisfeito com a sua vida. (Opa, alguém está satisfeito com a vida? Se a resposta for SIM, favor deixar seu testemunho nos comentários!).

Aquelas aceleradas que você deu e que lhe garantiram chegar onde está agora não foram atoa. Então mãos à obra! Há energia potencial em você o bastante para acelerar mais e conquistar mais, não materialmente falando, mas de algo que transcende isso, algo que dê plenitude e sentido à existência. Lembrando sempre que tudo depende do seu referencial e que só você sabe o que está faltando caminhar!

“Não pare na pista, é muito cedo pra você se acostumar”, cantou “aquele que nasceu há 10 mil anos” e que sabia das coisas.

* Richie Beauvais - ou “Ritch Bové” como costuma ser chamado após tentar corrigir a pronúncia do seu sobrenome – é um pseudônimo ou um alterego (!). Tem 30 anos, é jornalista, pai e após “um período sabático de autoconhecimento” em uma Comunidade Terapêutica para tratamento de sua dependência química decidiu escrever sobre o assunto. É “viciado” em música, revistas em quadrinhos, séries, filmes e Carnaval. Escreve semanalmente na coluna “Fim de Carreira” sobre dependência química e assuntos correlatos (ou não).



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