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Comportamento

Chega de romantizar amamentação em fotos de "Agosto Dourado"

Leite materno é o melhor alimento para o bebê e a amamentação é fundamental, mas precisamos falar que é difícil e dói

Por Paula Maciulevicius Brasil | 02/08/2020 08:45
"Amamentar: um ato de amor?" Com esta foto, a doula Pâmela Castro deixa seu relato real sobre a amamentação: a cena linda da mãe plena é restrita a uma pequena parcela das mães. E é preciso falar disso. (Foto: Paula Cayres)
"Amamentar: um ato de amor?" Com esta foto, a doula Pâmela Castro deixa seu relato real sobre a amamentação: a cena linda da mãe plena é restrita a uma pequena parcela das mães. E é preciso falar disso. (Foto: Paula Cayres)

Se tem uma coisa que se sobressai na romantização da maternidade é a amamentação. O mês que acaba de começar é destinado à campanha em prol do aleitamento materno, o chamado "Agosto Dourado".

O leite materno é o melhor alimento para o seu bebê e a amamentação é fundamental. Mas só quem já passou pela experiência sabe que pode ser que não seja tão natural assim se sentar e colocar o bebê no peito. Não é regra, mas pode doer. A pega pode não ser a correta, o leite pode empedrar, o bico ficar em carne viva, a mãe não conseguir aumentar a produção, a balança pesar contra e os milhares de palpites também.

Tão importante quanto o parto, deve ser a amamentação, e ela inclui muito mais do que a mãe e o bebê. É preciso que a mulher que acabou de parir tenha apoio, encontre uma rede que possa dar a ela o suporte para poder amamentar.

Nas postagens em alusão ao Agosto Dourado, encontrei uma tão sincera que merecia ser compartilhada, da doula e educadora perinatal Pâmela Castro, de 37 anos, mãe de uma menininha de 3, que descreve o que viu profissionalmente e também sua própria experiência. Pâmela faz justamente esse contraste: junto de uma bela foto, igual a que ilustra a matéria, está o relato que traz verdades.

Pâmela e Flor. (Foto: Paula Cayres)
Pâmela e Flor. (Foto: Paula Cayres)

"Amamentar é um ato de amor, é amor que flui, é amor líquido. Ouvimos isso o tempo todo, na televisão, no face, no insta, em outdoors espalhados pelas ruas. Mas será mesmo que amamentar é isso? Quanto frases como essa nos motivam e quanto elas no aprisionam em idealizações?

Depois de ter passado por uma experiência pessoal difícil com a amamentação e de acompanhar outras mulheres nesse processo, acho que essas frases romantizam bastante algo que é complexo e que envolve saúde e bem estar não só do bebê, mas também da mãe. Para amamentar é preciso muito mais que amor. É preciso disponibilidade física e emocional, doação do seu tempo e do seu corpo. É preciso estar informada para não ser engolida pela cultura do desmame e para se manter segura e confiante diante de tantos mitos e palpites alheios (na maior parte das vezes equivocados, ou no mínimo desatualizados). É preciso muita paciência, porque amamentar é aprendizado mútuo da mãe e do bebê. E preciso de apoio do parceiro(a), da família, ou mesmo de ajuda profissional.

Eu diria que aquela cena linda de amamentação das fotos (tipo essa minha do post), onde tudo é doce, indolor, suave e instintivo fica - pelo menos nas primeiras semanas de pós-parto - reservada para uma pequena parcela das mães e bebês. Ter dificuldade é normal, querer desistir também. Não se culpe por isso. Aceite e busque ajuda. Existem redes de apoio à amamentação tanto no SUS quanto na rede privada, bancos de leite e consultoras de amamentação, não exite em procurá-los. Se nesse processo você precisar recorrer ao aleitamento misto ou mesmo optar exclusivamente pela fórmula, não se sinta menos mãe por isso. 

Falo com a propriedade de quem viveu na pele. A amamentação não deu certo pra mim de cara, precisamos recorrer ao aleitamento misto e tentei todas as técnicas possíveis antes de inserir uma mamadeira. Relutei porque sabia que podia resultar em confusão de bicos e desmame precoce. Recebi muito apoio do meu parceiro, da minha mãe, do meu pai e de profissionais. Tomamos a decisão consciente de oferecer complemento na mamadeira e mesmo sabendo que era preciso eu chorei quando dei pela primeira vez, senti que estava falhando como mãe.

Eu acreditei que só com amor e instinto fluiria naturalmente. Quando minha vivência foi outra, doeu muito. Era amor que faltava? Porque só eu, mãe, não era suficiente para nutrir minha filha? Me questionei muito, sofri, chorei (inclusive há alguns dias quando consegui falar sobre isso em terapia), na verdade essa é uma ferida em cicatrização. E escrever e compartilhar com vocês faz parte desse processo.

"É preciso muita paciência, porque amamentar é aprendizado mútuo da mãe e do bebê. E preciso de apoio do parceiro(a), da família, ou mesmo de ajuda profissional", diz Pâmela. (Foto: Paula Cayres)
"É preciso muita paciência, porque amamentar é aprendizado mútuo da mãe e do bebê. E preciso de apoio do parceiro(a), da família, ou mesmo de ajuda profissional", diz Pâmela. (Foto: Paula Cayres)

Eu e Flor levamos 1 mês para aprender a mamar, foram mais 2 meses pra isso deixar de ser fonte de preocupação. Nós lutamos muito e diariamente escolhemos continuar. Amamentei até ela completar 1 ano e 11 meses. Não foi aleitamento materno exclusivo, não foi uma livre demanda absoluta, mas foi absolutamente o melhor que eu pude dar. Hoje, eu aceito e me orgulho disso.

Tenho certeza que muitas outras mulheres sentiram dores parecidas com as minhas, e talvez você mesma esteja se reconhecendo em parte do que escrevo. Mas não precisa ser assim. Parem de romantizar a maternidade. Parem de atrelar a amamentação a um amor idealizado. Amamentar exige entrega e doação extremas, exige informação, é aprendizado mútuo, é um ato de responsabilidade. Claro que tudo isso pode ser visto como o amor se manifestando de diferentes formas, sim. Mas percebe a diferença de complexidade e de carga mental? E para além disso, percebe que não conseguir amamentar ou escolher não fazê-lo pode ter raiz em muitos outros motivos não necessariamente relacionados à falta de amor?

Você que já amamentou passou por algo parecido? Pra você que ainda está gestando, qual é sua expectativa em relação a amamentação?"

O Instagram da Pâmela é o @pamelacastrodoula.

Em Campo Grande, as famílias podem encontrar informações e amparo nos bancos de leite dos hospitais. Veja abaixo os telefones, por conta da pandemia, entre em contato e evite sair de casa. 

Banco de Leite Humano da Maternidade Cândido Mariano: 3041-4735
Banco de Leite Humano da Santa Casa: 3322-4174
Banco de Leite Humano do Hospital Universitário: 3345-3027
Banco de Leite Humano do Hospital Regional: 3378-2715.

Tem uma sugestão bacana para o Mãe também reclama? Manda para o meu e-mail: paulamaciulevicius@gmail.com.