Por que um bode foi parar em uma oferenda no Jardim Veraneio?
Mãe de santo explica simbologia do ritual, critica descarte e diz que elementos não indicam intenção de matar
Depois que um bode morto foi encontrado em uma encruzilhada no Jardim Veraneio, comentários nas redes sociais passaram a associar a oferenda à morte e à possibilidade de alguém ser vítima de um “trabalho”. Entre as mensagens, houve quem dissesse que logo uma pessoa estaria dentro do caixão e que o ritual teria sido feito para prejudicar alguém.
Mas, para a mãe de santo Thainá Pedrita, a interpretação não é essa. Ao analisar os elementos que aparecem nas imagens, ela afirma que, apesar de alguns itens parecerem desconectados, nada indica que a oferenda tenha sido preparada com a intenção de fazer mal a uma pessoa.
“Nem tudo é feitiço para matar os outros. Até porque nenhum tipo de feitiço mata alguém. Pelo que eu vi, não demonstra ser algo direcionado para maldade”, afirma.

Segundo Thainá, a presença do animal e do padê, uma mistura preparada com farinha e outros ingredientes, como dendê, água ou pinga, indica que a oferenda pode estar relacionada a Exu. A finalidade, no entanto, varia conforme a entidade e o pedido feito.
O ritual pode representar um agradecimento, um pedido de proteção, uma abertura de caminhos ou uma busca por prosperidade. “Você está dando algo para aquela entidade caminhar com você, para ajudar naquilo que você precisa naquele momento”, explica.
Os ovos também chamaram a atenção da religiosa. Na interpretação dela, podem estar ligados a uma limpeza espiritual, conhecida como ebó. Por isso, o conjunto não aponta, necessariamente, para uma ameaça ou para uma ação contra alguém, como muita gente apontou. “Pela imagem, parece uma limpeza e um agradecimento. Não demonstra ser algo para fazer maldade para ninguém”, reforça.
Apesar disso, Thainá diz que alguns elementos da oferenda, como bolo e a vela rosa, por exemplo, pareceram desconectados, mas poderiam estar relacionados a Erê, uma entidade ligada à pureza das crianças e não a Exu.
“Essa mistura dos elementos pode indicar uma confusão de quem realizou o ritual, mas pelo o que vi, não há direcionamento para o mal”, avalia.
Descarte do bode não é prática recomendada
A mãe de santo também faz uma distinção entre a intenção religiosa da oferenda e a forma como o bode foi deixado na encruzilhada.
Ela afirma que entende a reclamação dos moradores, já que um animal de grande porte em decomposição provoca mau cheiro e pode causar transtornos para quem vive ou passa pela região.
Segundo Thainá, o descarte do bode inteiro não é uma prática que ela considera correta nem algo que já tenha visto em Campo Grande.

Em sua casa, que segue a tradição da Umbanda, há rituais que utilizam animais. No entanto, a carne é limpa e consumida normalmente pelas pessoas do terreiro.
“No caso do cabrito, do bode, a gente nunca nem envia a carcaça, até porque é muita carne. Os animais usados nos rituais são limpos para consumo das pessoas da casa”, explica.
Ela conta que, em determinadas situações, um animal menor, como um frango, pode ser usado em trabalhos de limpeza e depois descartado. Quando a oferenda precisa permanecer no local por um período, uma das possibilidades é esperar a vela terminar e, depois, recolher os materiais. “Terminou, você recolhe tudo e descarta normalmente”, afirma.
Para Thainá, o fato de o bode ter sido deixado em uma área urbana e movimentada não deve ser usado para generalizar ou condenar as religiões de matriz africana. A forma do descarte pode ser questionada, mas isso não significa que o ritual tenha sido feito com maldade.
“A maldade não está na religião”
A repercussão do caso também reacendeu discussões sobre preconceito e intolerância religiosa. Para a mãe de santo, a associação imediata entre oferendas, morte e ações malignas reforça uma visão histórica que tenta demonizar as religiões de matriz africana.
“A maldade não está na religião, ela está no ser humano. As pessoas querem criticar aquilo que é diferente do que elas seguem. Isso é intolerância e preconceito religioso”, diz.

Thainá ressalta que os terreiros também desenvolvem trabalhos voltados à caridade e ao acolhimento, com atendimentos espirituais e ajuda a pessoas que enfrentam dificuldades emocionais, familiares e de saúde.
“O mal está em todo quanto é lugar: nas igrejas católicas, evangélicas e nos terreiros. A gente não pode colocar isso em uma religião e dizer que tudo é ruim”, afirma.
A recomendação da religiosa para quem encontra uma oferenda é agir com respeito. Se o material não causa transtornos, a orientação é seguir o caminho sem mexer. Caso esteja bloqueando a passagem ou provocando problemas, como ocorreu com o bode deixado no Jardim Veraneio, ela recomenda procurar os órgãos responsáveis para que façam a retirada.
“Passou, olhou e não gostou? Tudo bem, segue seu caminho. Se está atrapalhando ou causando algum problema, procure as autoridades competentes”, orienta.
Para ela, é possível reconhecer o incômodo causado pelo descarte do animal sem transformar o episódio em uma prova de que as religiões de matriz africana são ligadas à morte ou à maldade.
“Nem toda casa e nem toda religião existem para fazer o mal. A maldade está no ser humano”, finaliza.
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