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Comportamento

Suportei a morte da minha filha aos 7 anos, mesmo achando que não seria capaz

Por Lado B | 11/06/2015 06:45
Adriana e Isabella.
Adriana e Isabella.

A primeira neta, a primeira sobrinha, a primeira filha. Isabella nasceu com um par de olhos negros, lindos, para encher de brilho e lições a vida da família. Logo cedo, virou guerreira contra uma doença degenerativa, que aos 7 anos e 6 dias de vida a levou daqui. Hoje, os olhos negros da menina permanecem vivos na mãe, que conseguiu vencer talvez a maior dor imaginada por uma mulher, ver o filho morrer aos poucos. Na série "A Voz da Experiência", a advogada Adriana Ratier mostra que a vida segue com outros desafios, apesar de um rombo enorme no coração, dando a chance de cada um se transformar em alguém melhor.

 

A morte é sempre doída. Mas a morte de um filho é além, é anti-natural. É a vida que para, ou pior, regride. Da condição de mãe, passa-se a uma condição de orfandade que nada completa. Quem era mãe, passa a ser órfã de filho. Seu futuro é estagnado, suas esperanças morrem com o filho amado.

A dor é lancinante, irascível, e de tão grande, é anestésico poderoso até para o choro. A primeira pergunta é: “Por que eu?”. E depois outra pergunta menos egoísta e presunçosa: "Por que não eu?” Se tantas mães perdem seus filhos a cada dia, por que deveria ter sido poupada de tal dor?

No começo, não sabemos quem te escolheu, se foi o acaso, se foi o destino, se foi Deus, se foi o Universo. Mas isso não importa, o que importa é que você foi a escolhida da vez.

Nunca acreditei em chavões, mas que o tempo cura, ah isso é verdade, ele cura. Não apaga a saudade nem a vontade de dar um abraço de boa noite, um beijo ao sair de casa para trabalhar.

Seu filho não está mais lá para seu abraço e seus beijos. No meu caso, desde que me entendo por gente, vinha tendo um relacionamento com Deus, mas sem nunca ter confiado 100%. Depois que Isabella se foi, só encontrei um caminho: confiar e confiar cegamente!

Entreguei minha dor, por mim tantas noites vivenciadas no silêncio do quarto onde dormíamos lado a lado, mãe e filha. Sabia que quando esse momento chegasse, eu talvez enlouquecesse de vez, e não suportaria mais viver nem conviver…

Mas no momento decisivo, soube me ajoelhar e entregar a vida dela com a mesma gratidão que a recebi. Ali eu soube que tinha alguém muito maior, mais poderoso, que me segurava no colo. Assim, no meio de tanta dor e desespero, estabeleci a relação que sempre almejei ter com Deus, a de confiança total.

Exerci minha fé, mesmo não me achando capaz e nem preparada para isso.

A dor passa incólume na maior parte do tempo, mas sempre tem aquele dia, aquele momento em que ela se faz mais presente e forte.

Meus piores dias hoje são os mais festivos para a maioria das pessoas: Dia das Mães, Natal e o dia 14 de novembro. Este último, a data em que recebi o melhor presente, mas que tive que devolvê-lo cedo demais.

Apesar da experiência ter sido amarga, dolorida, foi ela que me fez crescer, amadurecer e me tornar um “tiquinho” melhor do que era antes.

Não cultivei a amargura nem o ressentimento, não permiti que a depressão fizesse parte da minha rotina, pelo contrário, passei a dar mais valor as relações pessoais.

Refiz minha vida, hoje sou muito feliz ao lado de meu marido, minha família, meus amigos e com minhas filhas de 4 patas, Lolla e Puppa. Mas sempre estará faltando o pedaço maior de minha alma, que Isabella levou com ela para sua nova morada.

Adriana e a nova família.
Adriana e a nova família.
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