ACOMPANHE-NOS    
MARÇO, DOMINGO  29    CAMPO GRANDE 23º

Comportamento

Universitárias dispensam cantadas de pedreiros e criam polêmica na UFMS

Por Elverson Cardozo | 30/04/2014 06:50
Cartaz está em um dos corredores da UFMS. (Foto: Pedro Peralta)
Cartaz está em um dos corredores da UFMS. (Foto: Pedro Peralta)

Um cartaz elaborado por acadêmicas do curso de Letras, para a 1º Semana de Combate à Cultura do Estupro, na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), em Campo Grande, gerou desconforto e polêmica e serviu para mostrar, também que, como diz o ditado popular, “o feitiço às vezes vira contra o feiticeiro”.

Fixado em um mural, que fica em um dos corredores da universidade, no bloco do CCHS (Centro de Ciências Humanas e Sociais), o aviso, escrito em letras vermelhas, em cima de uma cartolina amarela, traz o seguinte texto: “Caro pedreiro, não precisamos das suas cantadas para nos sentirmos gostosas”.

A mensagem, diante das outras, não chamaria tanto a atenção se o recado não tivesse um destinatário específico: os pedreiros.

Pedreiros que trabalham no canteiro de obras da universidade não gostaram do "aviso". (Foto: Pedro Peralta)
Pedreiros que trabalham no canteiro de obras da universidade não gostaram do "aviso". (Foto: Pedro Peralta)

Em uma obra ao lado da Biblioteca da UFMS, perto do monumento “Paliteiro”, trabalhadores dizem que não gostaram do aviso exibido no corredor.

Na profissão há aproximadamente 20 anos, Leandro Gonçalves, de 35, diz, na simplicidade do discurso, que “quem vê cara não vê coração”: “Tem umas que gostam e outras que não. Umas se sentem poderosas e outras não se sentem bem ‘adequadas’”.

Ele não esconde que, entre os colegas de profissão, há os mais “equivocados”, que mexem mesmo, chamam as mulheres de gostosa e “um monte de coisa”. “Mas aqui, na nossa equipe, não fazemos isso. A gente só olha, admira, diz bom dia, boa tarde. É o nosso modo de tratar as pessoas com um pouco mais de educação”, garante. O cartaz fixado no mural avalia, “é um modo de dizer que elas não querem saber dos pedreiros”.

Sem papas na língua, o colega, Jânio Antonio Ribeiro, de 37 anos, pedreiro há duas décadas, é mais incisivo. “Isso é preconceito. Se fosse um cara de carrão e dinheiro mexendo elas iriam se achar as gostosonas”, afirma.

Na função há 3 anos, Marcos Pereira de Jesus, 31, gosta da observação de Jânio e, no calor da discussão, acrescenta: “Se eu voltar para casa, tomar um banho e passar aqui com meu carro, passar aqui e dizer ‘oi’, ‘boa tarde’, elas vão me cumprimentar de um jeito diferente. Garanto que se fizer isso e oferecer carona, alguma vai aceitar. Mas estamos sujos, trabalhando e elas pensam que a gente é Zé Ninguém”.

Para ele, muitas acadêmicas, inclusive aquelas que levantam bandeiras como essa, “são uma coisa dentro e outra fora” da universidade. Leandro Gonçalves concorda. “A maioria que está na faculdade quer se mostrar importante, mas, às vezes, são inferiores a nós e que dependem de um padrinho para se manter”, alfineta.

Victória Scheinson achou o recado preconceituoso. (Foto: Pedro Peralta)
Victória Scheinson achou o recado preconceituoso. (Foto: Pedro Peralta)

Na visão de alguns estudantes, os responsáveis pela ação agiram com preconceito de classe. Por outro lado, há quem diga que não existe motivo para polêmicas, já que esses profissionais sempre foram alvos de “brincadeiras” e o texto, de alguma forma, cita a classe apenas para falar de todos os homens que agem de forma desrespeitosa com as mulheres.

É o que pensa o acadêmico de Letras Wederson Matoso, de 23 anos: “Eu acho que está certo porque não concordo com a visão sexualizada da mulher, que não anda por aí para ser cantada”.

O pedreiro, prossegue o jovem, foi só um estereótipo usado de maneira jocosa e que, talvez, não tenha sido bem interpretado pelo “lado mais moralista e politicamente correto” da sociedade. Apesar do discurso, Wanderson comenta que “se o cara for bonito é claro que a mulher vai dar moral”.

É essa contradição que incomoda as estudantes Victória Scheinson, de 19 anos, e Izabeli Carvalho, 21, ambas do curso de Economia. Elas acham que o cartaz tem, sim, tom preconceituoso porque, do jeito que está, dá a entender que só os pedreiros passam cantadas. “É uma coisa que eu não faria”, diz Victória. “É invasivo para os dois lados”, completa a amiga.

Acadêmica de Ciências da Computação, Kelly Sandim, 19, também critica a atitude dos estudantes: “Não vejo a necessidade de escrever um cartaz como esse, porque as mulheres não precisam ficar se abrindo assim para se sentirem bem. Elas são fortes por natureza. O que precisa, mesmo, é uma remodelagem dentro das famílias para que haja igualdade entre os sexos”, argumenta, ao dizer que frases do tipo ‘eu não mereço ser estuprada’ não lhe representam.

Wesley disse que interpretação depende do ponto de vista de cada um. (Foto: Pedro Peralta)
Wesley disse que interpretação depende do ponto de vista de cada um. (Foto: Pedro Peralta)

Mestre em Educação Matemática, Wesley da Silva, de 24 anos, comenta que a interpretação depende do ponto de vista. A palavra pedreiro, no julgamento dele, não soa tão forte. O problema é que, quem lê, logo relaciona o recado à classe social. “Eu mesmo já falei tantas vezes e não sou um pedreiro”, disse, referindo-se ao hábito da cantada. “Isso deve ter sido escrito por uma mulher, porque relaciona o homem a um ser ignorante e burro”, critica.

Wesley acertou. Uma mulher, acadêmica de letras, é a responsável pelo “recado” que acabou dividindo opiniões. Bruna Camargo, 20, do mesmo curso, está do lado daqueles que acreditam que não há motivos para polêmicas. A estudante foi enfática ao dizer que não achou a mensagem preconceituosa porque, nas palavras dela, o pedreiro da frase representa todos os outros homens que agem de maneira nada agradável.

“Essa referência foi um estereótipo, porque, geralmente, quem fala de cantada lembra das cantadas de pedreiros que, geralmente, são de baixo nível. Foi uma forma de dizer que nós não precisamos disso para nos sentirmos mulher e bem. Que não precisamos de um rapaz assoviando para nos acharmos bonitas e nem de um cara me parando na rua, me assediando na esquina. Eu acho isso muito injusto porque não acontece com os homens”, declara.

Erro de comunicação - A amiga, Raíssa Brittes, de 20 anos, pensa de maneira semelhante, mas faz questão de dizer que o texto, para ela, revela, sim, o preconceito de classe, embora a intenção da autora não tenha sido essa.

“Na verdade ocorreu todo um problema de comunicação. O próprio grupo reclamou na hora que foi feito. A gente tinha decidido que nem iria colocar só que na hora de pregar acabamos pregando, mas decidimos, ontem (28) mesmo, que vamos tirar”, garante, mesmo com o cartaz ainda no corredor no fim da tarde de terça-feira.