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Consumo

Com a concorrência, delivery não minimiza estrago para feirantes

Para alguns feirantes delivery é só um paliativo, e eles temem que as décadas de história com a feira acabem na pandemia

Por Thailla Torres | 31/07/2020 06:47
Entregador buscando encomenda em uma das bancas da Feira Central. (Foto: Paulo Francis)
Entregador buscando encomenda em uma das bancas da Feira Central. (Foto: Paulo Francis)

Em Campo Grande, na Feira Central, o empresário Sidney Yoza, 49 anos, já tinha recorrido ao empréstimo bancário para quitar dívidas e ficado distante dos seus 11 funcionários desde o início da pandemia quando viu que investir na entrega de sobás, yakissobas e espetinhos na porta dos clientes era a única solução para continuar respirando em meio a feira vazia.

A pandemia do novo coronavírus fez ele e muitos outros empresários aderirem ao delivery para driblar as restrições impostas com o isolamento social, mesmo que isso signifique vender só 20% ou no máximo 30% do que costumava vender antes de toda essa crise.

Mas o que dói nele e nos colegas de profissão das barracas é a falsa ideia de que o delivery é que fará todo mundo ali atravessar a crise e continuar a empreender como antes. Na visão deles, o método de entrega é só um paliativo e a Feira Central pede socorro para que uma história de décadas não vá para o ralo.

“Não é o que nos salva, só dá um respiro mesmo e não chega a 30% da nossa produção”, explica Sidney, que logo no começo da pandemia passou a fazer o cadastro de seus clientes presenciais para poder divulgar a entrega via WhatsApp e redes sociais. “Mesmo assim não é todo mundo que aceita, tem gente que gosta mesmo é de vir sentar na mesa”.

Sidney aposta no delivery, mas só consegue produzir 30% do que costumava fazer. (Foto: Paulo Francis)
Sidney aposta no delivery, mas só consegue produzir 30% do que costumava fazer. (Foto: Paulo Francis)

Do outro lado, o desabafo vem de um empresário que é a segunda geração da família a trabalhar na feira. “Se eu vender 100 deliveries, são 100 famílias que deixam de vir a feira. E sabe que a feira significa? Feira é gente, é contato com o público, gente procurando lugar pra sentar. Isso é feira”, desabafa Marcos Shinzato, de 56 anos.

Ele é um dos poucos que ainda não investiu no delivery e tem atendido a clientela de forma reduzida, seguindo todas as recomendações. “Pra gente ainda não compensa. Mas está difícil, cada dia menos clientes e a gente não sabem onde tudo isso vai parar”, explica.

Ele não discorda das meditas restritivas e de cuidados para evitar o contágio da doença, mas lamenta o horário imposto para o toque de recolher mesmo no setor de alimentação. “Meu cliente costumava vir aqui até o último minuto de trabalho para comer, hoje, com esse horário reduzido, ninguém vem. Mesmo que seja para pedir e levar para a casa”.

Há 25 anos na feira, Maura Shiroma, 52, também se vê perdida com o novo cenário. Antes ela produzia cerca 80 kg de macarrão por dia, hoje não passa de 15 kg. “O delivery é só um paliativo pra gente não fechar mesmo, mas a maior dificuldade é que nem todo mundo pede da feira quando o assunto é delivery, eles acabam pedindo de outros restaurantes, poucos se lembram da feira.”

Maura viu a produção cair consideravelmente e olha delivery como paliativo. (Foto: Paulo Francis)
Maura viu a produção cair consideravelmente e olha delivery como paliativo. (Foto: Paulo Francis)

A voz emocionada revela o medo de ver a história da família ter um fim. “Não sei até quando vamos aguentar. A gente só ouve das pessoas que a feira está acabando, e não tem ninguém mesmo, mas as dificuldades já existiam antes da pandemia e agora tudo piorou.”

Na visão dela é preciso um novo projeto para que a feira esteja no desejo de consumo do campo-grandense. “Já estava difícil antes, o movimento caiu bastante, mas agora a gente teme que todo mundo esqueça de uma vez da feira.”

Marcos teme que a feira seja esquecida. (Foto: Paulo Francis)
Marcos teme que a feira seja esquecida. (Foto: Paulo Francis)

Para a presente da Associação da Feira Central, Alvira Melo, está difícil competir sem uma reformulação. “A feira pede por socorro há anos. São 15 anos sem mudar nada aqui dentro. E nos últimos quatro anos perdemos clientes, os brinquedos que tinham nas barracas hoje estão em qualquer loja de bairro, houve um envelhecimento das operações e a própria estrutura merece ser reformada, senão não tem como competir. E a Feira Central não é qualquer feira, é parte da história de Campo Grande, não pode ser esquecido”, avalia.

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Feira vazia na última quarta-feira. (Foto: Paulo Francis)
Feira vazia na última quarta-feira. (Foto: Paulo Francis)