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Na pandemia, luto e ansiedade tem dormido de "conchinha" com o povo

Para alguns, justo na hora de dormir é quando a coisa aperta e o descanso vira um pesadelo acordado

Por Raul Delvizio | 20/03/2021 07:48
Para muitos, vida cotidiana faz ter momentos de sonequinha sempre que possível (Foto: Kevin Yudhistira Alloni/Unsplash)
Para muitos, vida cotidiana faz ter momentos de sonequinha sempre que possível (Foto: Kevin Yudhistira Alloni/Unsplash)

Nada melhor do que uma boa noite de descanso. Mas e quando isso não é possível? Seja pelo luto, depressão, problemas de ordem financeira ou ansiedade, a pandemia do novo coronavírus tem tirado o sono de muita gente.

Há 1 ano desempregada, Elaine Bastos é a jovem que vive isso na pele. "Mesmo dormindo cedo, acordo várias vezes de noite, sempre no mesmo horário. Dependendo do grau da minha ansiedade, fico de 3 a 4 horas 'em pé' quando deveria estar dormindo. Já tive casos que só consegui deitar de fato às 6h da manhã – e acordo novamente em menos de 1 hora", detalha.

Atualmente, suas crises de ansiedade têm sido mais constantes, o que prejudica em vários aspectos de sua vida, principalmente ligado à sua saúde na hora do descanso. "Estou há 1 ano sem trabalho. Isso me atrapalha nos estudos, nas relações familiares, no cuidar da casa… afinal, não vamos pra frente sem emprego, não é? Ando mais estressada, ansiosa, privada de sono", diz.

Segundo Marcílio Delmondes Gomes, 55 anos, neurologista e especialista em medicina do sono, o sono de alguns campo-grandenses vai de mal a pior – especialmente na vida adaptada à pandemia.

"Até mesmo para quem era um 'bom dormidor'. O fato de sermos obrigados a ficar contidos em casa, seja por medo, toque de recolher, lockdown, trabalho home office, bem como perdas financeiras e familiares tem ocasionado uma situação de estresse a mais. Nisso, surgem quadros de insônia, mudanças no ritmo circadiano, má percepção do sono e mais. Com toda certeza posso afirmar que o sono da nossa população não vai bem, tendendo à superficialidade, fragmentação e encurtamento", argumenta.

Na pandemia, não é todo mundo que ficou com o sono pesado e a cabeça "leve" (Foto: Luis Vidal/Unsplash)
Na pandemia, não é todo mundo que ficou com o sono pesado e a cabeça "leve" (Foto: Luis Vidal/Unsplash)

Campo híbrido, a medicina do sono une a ciência da neurologia junto da psicologia e mais: engloba também a atividade respiratória, motora e hormonal do indivíduo. "O sono é uma sucessão cíclica de diferentes fenômenos psicofisiológicos que ocorrem durante a noite, modulados por atividades neuroquímicas no cérebro de uma maneira organizada e contínua, diferente das observadas durante a vigília, isto é, quando estamos 'de pé'. Isso quer dizer que o sono é um processo ativo, não é como um interruptor de uma lâmpada que ao ser desligada acaba a luz", explica o médico.

Voltando ao caso de Elaine. "Desde criança, sempre tive ansiedade por causa de vários fatores. É um pouco por causa do meio jeito, de quem sou. Ao meu ver, minhas noites de sono seriam bem melhores se eu estivesse empregada, mas no momento é assim que tenho vivido", relata.

Marcílio esclarece: "o dia é fruto da noite e, ao mesmo tempo, dias ruins e caóticos tendem a minar a qualidade e quantidade de sono. Diante disso , devemos fazer uma boa higiene do sono (manter o mesmo horário de se deitar levantar; evitar estimulantes no final do dia e à noite, principalmente os cafeinados; evitar atividades físicas extenuantes próximas ao horário de dormir, bem como aparelhos eletrônicos no quarto)".

Uma boa dica, conforme orienta o neurologista, é antes do “boa noite” praticar momentos mais relaxantes, como um banho morno, ouvir músicas calmas, ler um livro, meditar. "Pensamentos parasitas ficam nos ruminando, perseverando na mente. Então, deixe sempre uma agenda ou caderno na mesinha de cabeceira para anotá-los. Isso dá um chance do cérebro da gente 'sossegar', uma forma no subconsciente de introduzi-los, e não produzi-los", garante.

Marcílio alerta: vício no celular justo na hora de dormir é muito prejudial à saúde do sono (Foto: Paulo Francis)
Marcílio alerta: vício no celular justo na hora de dormir é muito prejudial à saúde do sono (Foto: Paulo Francis)

Como trancados em casa estamos, cada vez mais as "telinhas" nos acompanham. Seja do celular, televisão ou computador, o médico do sono ressalta que o melhor melhor é entrar no quarto com eles desligados. "Esses aparelhos emitem a chamada luz azul, que são capazes de manipular a curiosidade e a nossa vontade, seja de forma explícita ou subliminar. Esse espectro de luz é o que tem maior poder de inibir a produção de melatonina pela glândula epífise", explica.

São muitos os prejuízos: de sonolência diurna, mau humor, fadiga física e mental, distúrbios de memória, bem como sujeito a acidentes no trabalho e baixo rendimento nos estudos só por causa do "vício".

Mas o neurologista deixa a sugestão: "para se desprender do celular à noite seria interessante estipular um horário para que seja desligado, pelo menos 1 hora e meia a 2 horas antes de ir se deitar. Não arrume ou invente desculpas para dormir pregado na telinha. Lembrando que alguns anos atrás nem celular existia, e muita gente sobreviveu à sua inexistência".

Confira abaixo algumas respostas de Marcílio sobre perguntas que geralmente nos causam dúvida com relação ao sono:

Andam com dificildade para dormir também? Confira as dicas abaixo do neurologista (Foto: Krista Mangulsone/Unsplash)
Andam com dificildade para dormir também? Confira as dicas abaixo do neurologista (Foto: Krista Mangulsone/Unsplash)

A vida que se leva influencia muito no sono? – "Sim. Se o ritmo de vida do indivíduo é um constante  estressor, multiplicador de ansiedade, fator predisponente para depressão, sedentarismo associado a ganho de peso, gerador de dores crônicas, vai atrapalhar – e muito – o sono também", diz.

Alimentação também? – "Sim. Alimentos de difícil metabolização próximo ao horário de se deitar aumenta  o relaxamento da musculatura faríngea propiciando o surgimento de roncos e apneia do sono, assim como de insônia e pesadelos, daí a  importância de uma alimentação leve a noite  pelo menos  de 2 a 3 horas antes de dormir", sugere Marcílio.

"Sobreviver" no dia a dia para descansar só aos finais de semana é saudável? – "Não. O sono 'perdido' em sucessivas noites não tem como ser recuperado num 'intensivão' de sono. A perda de 1 hora de sono por noite já é prejudicial ao organismo. Devemos lembrar que é durante o sono que recuperamos as funções mentais do desgaste do dia anterior e conservamos energia para o dia seguinte (sono de ondas lentas) , assim como consolidamos a memória (sono de sonhos  = sono REM)", esclarece.

Dificuldade para dormir pode ser atribuída a alguma doença? – "Sim, porém são várias e precisam de um correto diagnóstico por meio do quadro todo do paciente. Doenças clínicas (hipertireoidismo, hiperfunção da supra-renal, artrite, artrose e fibromialgia e mais), além de doenças psiquiátricas (depressão, ansiedade e distúrbios psicóticos) e neurológicas (Parkinson, Alzheimer, esclerose múltipla, distúrbios de movimentos, cefaleias, entre outras) podem levar à ciclos de insônia", alerta.

É possível curar a insônia? – "Com toda certeza. A insônia independente da causa e do tipo tem tratamento sim e é passível de cura. Geralmente, uma má higiene do sono pode ser causa de insônia, bem como uso de medicamentos ou substâncias excitatórias no final do dia e à noite, além de indisciplina nos horários de se deitar e levantar, trabalhos em turno, mudanças frequentes de fuso horário", finaliza o médico do sono.

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