Tem gente que atravessa cidade pelo hot-dog de R$ 9 e a amizade de Célia
No Trevo Imbirussu, vendedora de 64 anos cria laços com quem passa pelo local

Quem passa pelo Trevo Imbirussu no fim do dia talvez já conheça o cachorro-quente da Dona Célia. Ela está há sete anos no mesmo ponto, onde prepara o lanche por R$9 e coleciona histórias com os clientes. O que muita gente não sabe é que o carrinho nasceu de uma ideia despretensiosa.
RESUMO
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Há sete anos no Trevo Imbirussu, em Campo Grande, Célia Maria, de 64 anos, vende cachorro-quente por R$ 9 e conquistou clientes de vários bairros. O negócio surgiu após ela ficar desempregada e hoje funciona de segunda a sábado, a partir das 18h. Com atendimento simples e molho tradicional, ela vende cerca de 50 pães por noite e planeja construir um trailer para melhorar a estrutura do ponto.
Célia Maria tem 64 anos e se encontrou nas vendas. Em um local simples e de fácil acesso, ela conquistou o paladar dos moradores do bairro, e também há aqueles que vêm de longe só para comerem o cachorro-quente.
Ela conta que trabalhava com uma amiga que confeccionava uniformes. Quando a amiga se casou e deixou a cidade, ela ficou sem trabalho. Desempregada, decidiu apostar justamente em uma comida que sempre gostou.
“Eu estava parada, não fazendo nada, e não fazer nada é ruim. Aí foi quando eu vi os carrinhos de cachorro-quente e falei: ‘Vou fazer isso’”, conta.
Foi assim que nasceu o ponto que funciona de segunda a sábado, a partir das 18h. Ao lado da Drogafic, Dona Célia prepara os lanches de maneira simples com um molho tradicional. O principal diferencial está no purê e no preço acessível, custando apenas R$9 com uma salsicha e R$10 com duas.
Tudo foi uma tentativa de voltar ao mercado de trabalho e virou uma rotina que ela diz amar. “Eu amo fazer cachorro-quente, amo conversar com os clientes, amo fazer bem feito, gostoso, para eles falarem que está uma delícia. Isso para mim é muito gratificante.”
A simplicidade é uma das marcas registradas do lanche. Alguns clientes até sugerem novos ingredientes, como muçarela, mas a maioria prefere que continue como está e dona Célia respeita a maioria.
Sete anos depois, a clientela cresceu muito além da vizinhança. “Tem gente de lá do São Dimas, do São Conrado, que vem de lá até aqui só para buscar o cachorro-quente.”
O vínculo com alguns clientes também ultrapassou a relação de compra e venda. Muitos passaram a chamá-la de “tia” e mantêm contato pelo WhatsApp. Quando precisa faltar, costuma avisar os clientes, mas nem sempre consegue falar com todos. Alguns chegam até procurar informações na farmácia ao lado para saber o que aconteceu.
“Se eu não venho, eles ligam. Quando eu volto, eles falam: ‘Ei, tia, o que aconteceu com você?’”, lembra, rindo.
Para ela, essa relação é uma das partes mais importantes do trabalho. Entre tantas pessoas que passaram pelo carrinho, uma história em especial ficou guardada na memória. Um casal chegou contando, cheio de alegria, que tinha acabado de descobrir uma gravidez. Célia entrou na brincadeira e arriscou um palpite sobre o sexo.
“Eu falei: ‘Tenho certeza que vem um guri de olho azul’, meses depois eles voltaram para dizer que eu estava certa”, relembra.
A rotina de Célia começa cedo. Ela faz questão de comprar verduras novas todos os dias e passa diariamente na padaria para buscar os pães. Por volta das 10h, já está em casa preparando os ingredientes e organizando tudo o que será levado para o ponto.
Às 18h, o carrinho já está funcionando. O horário de encerramento depende do movimento,ela vende cerca de 50 pães por noite, e costuma ir embora por volta das 22h, mas se ainda houver clientes ela estende o horário.
“Já fiquei até as 00:00, 1h da manhã. Mas como sou sozinha, tento evitar. Se não tiver ninguém, ninguém mesmo, vou embora!”.
Mesmo em noites frias, os clientes continuam aparecendo. Célia diz que, antes da reforma da farmácia, a cobertura ajudava a proteger o carrinho da chuva e do frio. Depois da obra, o ponto ficou mais exposto e ela decidiu buscar uma solução definitiva, já que não pretende sair de lá.
“Estou construindo um trailer para poder continuar aqui, mas com mais proteção. O previsto é que ele fique pronto até o final do ano.”
Um cliente, que não quis se identificar, conta que come ali desde o início. Ele estava com a filha, que cresceu frequentando o local.
“Eu venho desde quando ela era bebê. Agora, ela vem comigo e come junto, não trocamos o cachorro-quente por nada”, diz.
Hoje, Dona Célia não se vê fazendo outra coisa. Segundo a vendedora, por mais que exista o cansaço de organizar tudo sozinha, o carinho e as amizades são o que fazem o esforço valer a pena.
“Se eu falar para você que às vezes eu não canso de trabalhar à noite, é mentira. Eu canso, mas eu amo e não sei viver longe disso”, finaliza.
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