ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
OUTUBRO, SEXTA  02    CAMPO GRANDE 21º

Cidades

“Não fui eu”: ex-major de MS diz que traficante é homônimo dele

Na reta final de julgamento na Bélgica, Sérgio Roberto de Carvalho, o "Escobar brasileiro", nega crimes

Por Anahi Zurutuza | 02/10/2026 18:33
“Não fui eu”: ex-major de MS diz que traficante é homônimo dele
Sérgio Roberto de Carvalho, o "Escobar brasileiro", e suas várias faces para despistar a Interpol (Foto: Reprodução)

O ex-major da PM (Polícia Militar) de Mato Grosso do Sul, Sérgio Roberto de Carvalho, conhecido como “Pablo Escobar brasileiro”, negou a participação dele em esquema de tráfico internacional de cocaína pelo qual é julgado na Bélgica. Segundo reportagem publicada nesta sexta-feira (2) pelo jornal belga De Morgen, o sul-mato-grossense atribuiu os crimes pelos quais é acusado a outra pessoa com o mesmo nome. O processo se aproxima da fase final.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O ex-major da PM de Mato Grosso do Sul Sérgio Roberto de Carvalho, de 68 anos, apontado como "Pablo Escobar brasileiro", negou em julgamento na Bélgica a participação em esquema de tráfico internacional de cocaína e atribuiu os crimes a um homônimo, segundo o jornal De Morgen. Ele é acusado de fornecer ao menos 16 toneladas da droga à rede de Flor Bressers e pode receber 15 anos de prisão. Preso na Hungria em 2022, foi extraditado em 2023. O processo, marcado por troca de juízes e disputas com a defesa, se aproxima da fase final.

Foi um homônimo que cometeu esses crimes, não eu”, declarou Carvalho, conforme o jornal.

Aos 68 anos, ele deve receber 15 anos de prisão por supostamente ter fornecido pelo menos 16 toneladas de cocaína à organização de Flor Bressers, apontado pela acusação como líder de uma rede de tráfico para a Europa.

O julgamento do processo, marcado por troca de juízes, reclamações sobre as condições dos réus e conflitos entre os advogados e o Ministério Público belga, ocorre no complexo Justitia, instalado na antiga sede da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), em Evere, na região de Bruxelas. O local tem segurança reforçada.

Na reportagem assinada por Joris van der Aa, o De Morgen, informa que Carvalho vinha faltando às sessões por enfrentar graves problemas de saúde e não ter condições de permanecer durante longos períodos no tribunal. Na quarta-feira (30), porém, compareceu para apresentar pessoalmente sua versão aos juízes do caso.

Preso na Hungria em junho de 2022, após uma longa busca internacional, Carvalho foi extraditado para a Bélgica em junho de 2023. Ainda conforme a reportagem do De Morgen, o brasileiro também era procurado pelas autoridades dos Estados Unidos, Itália e Espanha.

Acusação e prazo – O processo é derivado de investigação de uma organização que teria usado uma empresa de tratamento de água da Antuérpia como cobertura para importar cocaína da América do Sul.

Segundo o De Morgen, o Ministério Público responsabiliza Bressers pela entrada de 16,9 toneladas de cocaína pelo porto de Roterdã, na Holanda. Dez carregamentos atribuídos à organização, entre agosto de 2019 e abril de 2020, teriam gerado lucro de 200 milhões de euros, o equivalente a 1,7 bilhão de reais. A procuradora federal Marianne Cappelle pediu a pena máxima de 20 anos de prisão para Bressers, além de multas e confisco de bens contra integrantes da rede.

As audiências foram retomadas em 7 de setembro, com uma nova composição de juízes. Conforme o Campo Grande News informou naquele dia, a previsão da Justiça belga era de ao menos quatro semanas de sessões, dependendo do tempo necessário para a apresentação das alegações.

O De Morgen noticiou hoje que o processo se aproxima da fase final e que a acusação e os advogados já apresentaram argumentos. Os materiais consultados pela reportagem, contudo, não indicam uma data para o encerramento das audiências ou para o anúncio da sentença.

“Não fui eu”: ex-major de MS diz que traficante é homônimo dele
Notícia do jornal belga sobre o caso; na foto, Flor Bressers, o comprador da cocaína enviada por Carvalho, segundo a investigação (Foto: DeMorgen/Reprodução)

Conversas sigilosas – Na quinta-feira (1º), um novo conflito envolveu a defesa de Bressers. Segundo a página Dutch Crime News, o Ministério Público pediu que o advogado Hans Rieder fosse punido por uma suposta infração cometida durante a audiência.

A acusação sustenta que Rieder abusou do direito de acesso aos autos ao levar para o processo documentos de outra investigação criminal contra Bressers, conduzida na Antuérpia. O material contém transcrições de conversas confidenciais entre advogados e clientes.

Rieder e o advogado Yehudi Moszkowicz utilizaram os documentos para sustentar a suspeita de que as autoridades também teriam interceptado e transcrito comunicações entre Bressers e seus defensores. Para a defesa, isso comprometeria o sigilo profissional e o direito do acusado de conversar reservadamente com seus advogados.

Moszkowicz argumenta que os documentos foram apresentados exclusivamente ao tribunal, sem vazamento a jornalistas, para questionar uma possível irregularidade na investigação. A defesa também afirma que punir Rieder poderia intimidar outros advogados que buscam expor falhas na atuação das autoridades.

Conforme o Dutch Crime News, o tribunal suspendeu a audiência e rejeitou, por enquanto, a punição imediata. A questão será decidida definitivamente na sentença.

Juízes afastados – Os conflitos já haviam provocado mudanças na condução do processo. O Dutch Crime News relata que, no início de 2026, foram acolhidos 21 pedidos de afastamento por suspeição contra os três juízes responsáveis pelo julgamento, o que exigiu a formação de uma nova composição do tribunal.

O site também informa que a acusação pediu cinco anos de prisão para o advogado criminalista neerlandês Cem Polat, acusado, entre outras condutas, de integrar organização criminosa e compartilhar ilegalmente informações confidenciais. Ele contesta as acusações.

Moszkowicz, por sua vez, já havia sido alvo de um pedido de punição por utilizar documentos internos da Europol.

Cabine de vidro e fiança – Na retomada do julgamento, agora em setembro, as medidas de segurança também foram questionadas. Em reportagem publicada no dia 7, o De Morgen informou que advogados protestaram contra a cabine de vidro em que os principais acusados permaneciam e contra a proximidade de agentes armados e mascarados, que, segundo eles, dificultava a comunicação reservada com os clientes.

A situação de Caio Marchesani, acusado de lavar dinheiro do tráfico ligado a Bressers e Carvalho, gerou outra disputa. Segundo o jornal, uma decisão judicial permitia sua saída da prisão mediante fiança de 250 mil euros. Embora a defesa afirmasse que o valor havia sido depositado, ele continuava preso.

A Procuradoria Federal atribuiu o bloqueio da soltura ao Departamento de Imigração, devido a dúvidas sobre sua situação migratória. A reportagem apontou ainda um possível impasse: uma ordem para deixar o país poderia entrar em conflito com a obrigação judicial de comparecer às audiências.

Dono das rotas para a Europa – Em análise sobre o caso, a organização especializada em crime organizado InSight Crime apresenta Carvalho como exemplo de intermediário que atua discretamente na logística internacional das drogas. Esses operadores conectam fornecedores e compradores de diferentes países, sem necessariamente controlar territórios ou grupos armados.

Segundo a publicação, os promotores acusam o brasileiro de organizar voos com drogas do Peru e da Bolívia para o Brasil e, posteriormente, remessas de cocaína para a Europa por portos brasileiros, em operações iniciadas por volta de 2017.

Quando ele foi preso, em 2022, as autoridades acreditavam que havia coordenado o envio de pelo menos 45 toneladas de cocaína à Europa.

A InSight Crime também destaca o uso de documentos falsos. Em 2020, Carvalho foi preso na Espanha sob uma identidade do Suriname, sem que as autoridades soubessem quem ele era. Depois de pagar fiança, teria encaminhado uma certidão que declarava a morte por covid-19 de “Paul Wouter”, o nome utilizado por ele.

Ainda conforme a publicação, Carvalho teria vivido em Portugal, na Ucrânia e em Dubai antes da prisão na Hungria, quando usava um passaporte mexicano falso. A análise recorda que ele foi condenado a 15 anos de prisão por tráfico de drogas em 1998, mas só foi expulso da Polícia Militar em 2010.