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Lado Rural

Produção cresce, preço cai e setor leiteiro entra em fase de ajuste no Brasil

Planejamento e eficiência serão decisivos em 2026

Por José Cândido | 19/02/2026 11:00


RESUMO

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A produção de leite no Brasil atingiu níveis históricos em 2025, com crescimento de 7,2% em relação ao ano anterior, impulsionada por investimentos, clima favorável e maior tecnificação rural. No entanto, o aumento da produção gerou excesso de oferta, pressionando os preços pagos aos produtores. O cenário é marcado por desafios significativos, com importações elevadas e balança comercial negativa em 2 bilhões de litros equivalentes. O valor médio recebido pelo produtor caiu 22,6%, chegando a R$ 1,99 por litro em dezembro de 2025, enquanto a redução para o consumidor foi de apenas 3,62%, evidenciando um descompasso entre campo e varejo.

O ano

Produção cresce, preço cai e setor leiteiro entra em fase de ajuste no Brasil
O clima favorável, a profissionalização e a maior tecnificação no campo também contribuíram para o aumento da produção no ano passado - Foto: Juliana Sussai

O ano de 2025 ficará marcado como um dos mais emblemáticos para a cadeia do leite no Brasil. A produção atingiu patamar histórico, com crescimento estimado em 7,2% em relação ao ano anterior, impulsionada por investimentos, clima favorável e maior tecnificação nas propriedades rurais. O avanço, porém, trouxe um efeito colateral imediato: excesso de oferta e pressão sobre a renda do produtor.

Mesmo com redução de 4,2% nas compras externas, o país manteve elevado volume de importações, sobretudo de leite em pó, o que manteve a balança comercial negativa em cerca de 2 bilhões de litros equivalentes. O resultado foi um mercado abastecido além da capacidade de absorção do consumo interno, provocando quedas sucessivas no preço pago ao produtor ao longo do ano.

Dados do Centro de Inteligência do Leite (Cileite/Embrapa) mostram que, em dezembro de 2025, o valor médio recebido pelo produtor chegou a R$ 1,99 por litro — retração de 22,6% em comparação aos 12 meses anteriores. Para o consumidor, a redução foi bem mais tímida: a cesta de lácteos caiu apenas 3,62%, refletindo o descompasso entre o campo e o varejo.

Mercado global pressiona e 2026 começa com cautela

O cenário internacional também contribui para o ambiente desafiador. A oferta mundial segue elevada, após crescimento expressivo da produção em países tradicionais exportadores, como Argentina e Uruguai. Apesar disso, a expectativa é de desaceleração produtiva global em 2026, influenciada por margens apertadas e incertezas geopolíticas.

Segundo o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Samuel Oliveira, os preços internacionais permanecem baixos. “Movimentos recentes de alta observados nos leilões globais devem ser interpretados como correções pontuais, não como mudança estrutural”, avalia.

No Brasil, o contexto macroeconômico adiciona cautela. A projeção de crescimento do PIB de 1,8% em 2026, aliada a juros elevados e às incertezas típicas de ano eleitoral, tende a limitar o avanço do consumo, principal motor da cadeia leiteira nacional.

Margens apertadas, mas ainda positivas

Apesar da queda nos preços ao longo do segundo semestre de 2025, o produtor conseguiu manter alguma rentabilidade na média anual. Isso ocorreu porque os custos subiram menos que a inflação: o Índice de Custo de Produção de Leite (ICPLeite/Embrapa) avançou 3%, abaixo dos 4,3% registrados pelo IPCA.

A estabilidade nos preços de insumos essenciais, como milho e soja, ajudou a amortecer perdas. “Criou-se um cenário de margens apertadas, mas não negativas para quem tinha eficiência produtiva”, explica o pesquisador Glauco Carvalho, da Embrapa.

Outro alívio veio da valorização de ativos pecuários. A recuperação do preço de bezerras e da arroba do boi gerou renda adicional com a venda de animais e descarte de vacas, enquanto a aproximação da entressafra começa a sinalizar possível reação nos preços do leite.

Produção avança mais rápido que o consumo

O desempenho do fim de 2025 evidenciou uma fragilidade estrutural da cadeia: o Brasil produz mais leite do que consegue consumir internamente, mas ainda enfrenta dificuldades para competir de forma consistente no mercado externo.

Enquanto a produção cresceu 7,2%, o consumo doméstico avançou menos de 2%. Para especialistas, essa dependência do mercado interno cria ciclos recorrentes de expansão e queda de preços.

“Se o consumo não acompanha, o excesso derruba o valor pago ao produtor. O caminho passa por reduzir custos, aumentar eficiência e conquistar mercados externos”, afirma Carvalho.

Hoje, o país reúne cerca de 513 mil produtores, com níveis muito distintos de tecnologia e gestão. A redução dessa desigualdade produtiva é vista como passo essencial para ampliar a competitividade internacional.

Tecnificação muda o perfil da atividade

A expansão recente também revela uma transformação estrutural na pecuária leiteira brasileira. Fazendas mais profissionalizadas e tecnificadas vêm concentrando parte crescente da produção, respondendo melhor às oscilações de mercado.

Segundo pesquisadores da Embrapa, sistemas mais eficientes mostram que o Brasil já possui regiões com produtividade comparável à de grandes produtores globais — sinal de que o país pode avançar na exportação, desde que consolide padrões sanitários, logísticos e de qualidade.

Acordo com a Europa abre expectativa estratégica

O recém-aprovado acordo entre Mercosul e União Europeia adiciona um novo elemento ao horizonte do setor. Embora ainda dependa de etapas jurídicas e ratificação, o pacto prevê redução gradual de tarifas e pode ampliar oportunidades comerciais.

No curto prazo, o impacto sobre os lácteos deve ser limitado, já que cotas para leite em pó e queijos são pequenas e produtos como a muçarela permanecem protegidos. A principal mudança tende a ocorrer em nichos de maior valor agregado, especialmente queijos premium.

Para especialistas, o maior ganho pode ser indireto. “Atender aos padrões europeus funciona como um selo global de qualidade e abre portas para outros mercados”, avalia Carvalho.

Planejamento será decisivo

Diante de um mercado mais competitivo e volátil, a recomendação para 2026 é clara: cautela e estratégia. O setor entra em um momento de ajuste, em que produtividade, redução de custos e agregação de valor passam a definir quem permanece competitivo.

“As transformações são rápidas. Quem não acompanhar ficará para trás”, resume Samuel Oliveira.

Depois de um ano recorde, o leite brasileiro inicia um novo ciclo — menos baseado em volume e cada vez mais dependente de eficiência e posicionamento no mercado global.