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Meio Ambiente

Desigualdade define capacidade de enfrentar incêndios no Pantanal

Por Inara Silva | 24/08/2026 14:32
Desigualdade define capacidade de enfrentar incêndios no Pantanal
Brigadistas durante treinamento na Baía Negra, no Pantanal (Foto: Henrique Arakaki/Arquivo)

No Pantanal, o acesso a máquinas, trabalhadores e recursos financeiros cria condições muito diferentes para enfrentar os incêndios. Pecuaristas conseguem responder ao fogo com maior autonomia, enquanto comunidades tradicionais dependem mais do apoio de instituições públicas e de redes de colaboração, segundo estudo publicado em julho deste ano no Journal of Pyrogeography.

RESUMO

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Pesquisa publicada no Journal of Pyrogeography revela que pecuaristas do Pantanal têm 67% menos probabilidade de recorrer a instituições formais durante incêndios do que moradores de comunidades tradicionais. O estudo, que entrevistou 115 pessoas em 16 municípios, aponta que o acesso desigual a máquinas, trabalhadores e recursos financeiros determina a capacidade de resposta ao fogo na região.

A pesquisa constatou que pecuaristas tiveram probabilidade 67% menor de recorrer a instituições formais durante o enfrentamento dos incêndios, em comparação com integrantes de comunidades tradicionais. Os resultados indicam que as desigualdades no acesso a recursos ajudam a moldar a capacidade de resposta ao fogo no Pantanal.

Intitulado Institutional dependence and social inequalities as drivers of collaborative wildfire response networks in the Pantanal wetland, em tradução livre, “Dependência institucional e desigualdades sociais como fatores das redes colaborativas de resposta aos incêndios no Pantanal”, o trabalho tem como primeiro autor André Valle Nunes, diretor de Programas e Projetos da Ecoa (Ecologia e Ação), e reúne 18 pesquisadores ligados a instituições brasileiras e estrangeiras.

Entre elas estão UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Embrapa Pantanal, Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), USP (Universidade de São Paulo), UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), ICAS (Instituto de Conservação de Animais Silvestres), University College London e Universidade do Porto.

Pessoas ouvidas - Para entender como diferentes grupos se organizam diante dos incêndios, os pesquisadores entrevistaram 115 pessoas, 67 pecuaristas e 48 moradores de comunidades tradicionais, nos 16 municípios que compõem o Pantanal.

O estudo analisou a organização das redes de resposta ao fogo a partir, principalmente, das experiências com os incêndios de 2019 e 2020, considerados entre os eventos mais severos das últimas décadas na região. As entrevistas semiestruturadas foram realizadas entre outubro de 2021 e fevereiro de 2022, em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Foram levantadas informações sobre características das propriedades e comunidades, quantidade e tipo de máquinas disponíveis, número de trabalhadores, distância da cidade mais próxima, frequência de incêndios e comportamento diante das chamas. Os entrevistados também foram questionados sobre quem procurariam em caso de incêndio nas proximidades, como vizinhos ou instituições formais.

A hipótese era de que os pecuaristas, por terem maior acesso a recursos, segurança sobre a posse da terra e vantagens socioeconômicas, apresentariam maior capacidade própria de resposta e menor dependência institucional. Para as comunidades tradicionais, os pesquisadores esperavam encontrar maior necessidade de redes de cooperação e apoio institucional. Os resultados, segundo os autores, confirmaram essa diferença.

Desigualdade define capacidade de enfrentar incêndios no Pantanal
Brigadistas indígenas e comunitários durante treinamento no Pantanal (Foto: Henrique Arakaki/Divulgação)

Trator, caminhão-pipa e mão de obra - A desigualdade aparece de forma concreta nos recursos disponíveis. Pecuaristas relataram com maior frequência acesso a tratores e caminhões-pipa. Nas comunidades tradicionais, eram mais comuns equipamentos compartilhados ou improvisados, como pequenas bombas e veículos comunitários. Considerando todos os entrevistados, havia acesso médio a seis trabalhadores e quatro máquinas para enfrentar incêndios, embora os números variassem bastante entre os participantes.

Ao analisar separadamente os fatores que poderiam influenciar a procura por instituições formais, os pesquisadores verificaram que uma maior disponibilidade de máquinas esteve associada a uma redução de 37% nessa probabilidade. Entre os entrevistados que contavam com mais de três trabalhadores, a probabilidade foi 73% menor em relação àqueles com menos mão de obra.

Esses percentuais, porém, não significam que a quantidade de máquinas ou de trabalhadores, isoladamente, determine a dependência do Estado. No modelo estatístico final, que avaliou os fatores conjuntamente, essas duas variáveis deixaram de apresentar associação estatisticamente significativa. A diferença entre os grupos sociais, por outro lado, permaneceu: pecuaristas continuaram menos propensos a procurar instituições formais do que moradores de comunidades tradicionais.

As diferenças - A distância até a cidade mais próxima não apresentou associação significativa com a procura por instituições formais. A frequência com que os entrevistados haviam convivido com incêndios também não explicou essa dependência.

A expectativa inicial era de que a localização pudesse interferir na capacidade de conseguir ajuda e que a experiência repetida com o fogo produzisse aprendizado suficiente para permitir respostas mais autônomas. Os dados, porém, não confirmaram essas hipóteses.

Os resultados apontam, portanto, para uma diferença estrutural. As condições socioeconômicas e o acesso desigual aos meios necessários para responder rapidamente a uma emergência ajudam a explicar por que alguns grupos conseguem agir com maior autonomia, enquanto outros precisam recorrer mais às redes institucionais.

Fogo como ameaça - A desigualdade identificada pelo estudo vai além da quantidade de máquinas ou de pessoas disponíveis. Os autores chamam a atenção também para aquilo que está sob ameaça quando as chamas chegam.

Em grandes propriedades, um incêndio pode atingir parte da área sem necessariamente comprometer bens considerados essenciais pelo proprietário. Dependendo das circunstâncias, observam os pesquisadores, o fogo pode até ser percebido como vantajoso para a limpeza de áreas ou a renovação de pastagens.

Nas comunidades tradicionais, as consequências podem atingir diretamente as condições de sobrevivência. O avanço das chamas ameaça fontes de água, moradias, infraestrutura e recursos utilizados para subsistência. A natureza do que está em risco, portanto, também influencia a necessidade de buscar ajuda institucional.

As comunidades analisadas eram formadas principalmente por populações ribeirinhas ligadas à pesca. Segundo o estudo, elas dispõem de menos recursos financeiros e têm acesso mais limitado a serviços. Embora possuam conhecimentos e práticas próprias de manejo do território, incêndios extremos podem alcançar dimensões que ultrapassam sua capacidade local de resposta.

Ao mesmo tempo, a maior aproximação com instituições públicas pode fortalecer a capacidade de reação. O artigo destaca treinamentos e a criação e manutenção de brigadas comunitárias como iniciativas que ampliam a preparação para o primeiro combate e fortalecem as relações de cooperação.

Desigualdade define capacidade de enfrentar incêndios no Pantanal
Treinamento de brigadistas no Pantanal (Foto: Ecoa/Divulgação)

Autonomia tem limite - A menor dependência institucional dos pecuaristas não significa que consigam enfrentar grandes incêndios sozinhos. Os autores lembram que eventos extremos, como os de 2019 e 2020, podem comprometer até mesmo a capacidade de quem dispõe de mais recursos e ressaltam a importância da prevenção e da atuação conjunta.

Naqueles incêndios, brigadas privadas receberam treinamento do Prevfogo/Ibama e do Corpo de Bombeiros. Pecuaristas forneceram equipamentos e pessoal, enquanto ONGs contribuíram com barcos, combustível e alimentos.

O estudo aponta ainda que a redução do número de trabalhadores nas áreas rurais, associada à dificuldade de permanência dos jovens no campo, pode diminuir a capacidade local de manejo do fogo. Por isso, os pesquisadores defendem políticas que conciliem manejo integrado, desenvolvimento sustentável e permanência das populações rurais.

Resposta depende de cooperação - A principal conclusão é que incêndios extremos exigem articulação entre poder público, comunidades tradicionais, povos indígenas, proprietários rurais e organizações. Essa lógica está presente na Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, instituída pela Lei 14.944/2024, que estabelece responsabilidades compartilhadas e prevê ações de prevenção, monitoramento e integração de estruturas.

Para os autores, fortalecer essas redes de cooperação pode ser tão importante quanto investir em infraestrutura de combate. Eles ressaltam, porém, que o estudo analisou apenas pecuaristas e comunidades tradicionais, principalmente ribeirinhas, e que possuir máquinas e trabalhadores não significa necessariamente ter treinamento ou capacidade técnica para enfrentar grandes incêndios.

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