Mulheres recuperam áreas degradadas com alimentos e fazem água voltar no Cerrado
Projeto une agroecologia, conservação e protagonismo feminino
Dez famílias do Assentamento Andalucia, em Nioaque, a 185 km de Campo Grande, dedicaram o último ano a recuperar nascentes, produzir alimentos e passaram a conviver diariamente com a fauna silvestre. As ações fazem parte do projeto “Mãos Manejando Vida em Seus Quintais”, que inclui quintais agroecológicos implantados, 5.700 mudas nativas plantadas em áreas de nascente e o registro de mais de 20 espécies de fauna silvestre circulando nas áreas restauradas.
RESUMO
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Dez famílias do Assentamento Andalucia, em Nioaque a 185 km de Campo Grande, recuperaram nascentes com 5.700 mudas nativas e implantaram quintais agroecológicos no projeto "Mãos Manejando Vida em Seus Quintais", executado pela Ecoa e CEPPEC. Liderada por 15 mulheres, a iniciativa surgiu para proteger plantações da fauna silvestre, que aumentou com o desmatamento no Cerrado, registrando mais de 20 espécies como anta e tamanduá. Produzem alface, mandioca, feijões e frutas, gerando renda e segurança alimentar.
A Ecoa - Ecologia e Ação, em parceria com o CEPPEC (Centro de Produção, Pesquisa e Capacitação do Cerrado), executou o projeto, que surgiu a partir de uma demanda das próprias mulheres assentadas, que já não conseguiam produzir alimentos nem para o consumo das famílias devido ao avanço da fauna sobre as plantações.
Segundo a presidenta da Ecoa e coordenadora da iniciativa, Nathalia Ziolkowski, o projeto, que começou em abril de 2025, alia conservação ambiental, segurança alimentar, geração de renda e protagonismo feminino em um dos biomas mais ameaçados do país, que é o Cerrado. Conforme Nathalia, 15 mulheres estão envolvidas diretamente e, de forma indireta, cerca de 50 participantes da comunidade.
“Elas estavam com problemas para produzir alimento para a própria família, porque a pressão e o desmatamento estão muito grandes no Cerrado do Estado”, afirmou.
O projeto foi aprovado pelo Fundo ECOS/ISPN com a ideia inicial de desenvolver uma proposta ligada à cadeia produtiva do baru, mas as mulheres do assentamento apresentaram a urgência de criar quintais cercados para garantir alguma proteção às plantações e assegurar alimento para as famílias.
Quintais produtivos - Com a aprovação da proposta, cada família recebeu estrutura para implantação de quintais agroecológicos de até um hectare, incluindo cercamento, sistemas de irrigação, caixas d’água, calcário, adubo e mudas de hortaliças, plantas medicinais e espécies nativas do Cerrado.
Hoje, os quintais produzem alface, couve, rúcula, cebolinha, salsa, quiabo, jiló, abóbora, maxixe, batata-doce, milho, mandioca, feijões de diferentes variedades, gergelim, amendoim, mamão, banana e melancia.
A assistência técnica foi conduzida pela engenheira florestal e indígena Terena Nélida Tainá Rodrigues dos Santos. Segundo ela, o trabalho foi desenvolvido a partir dos conhecimentos das próprias famílias. “Tudo vem da nossa ancestralidade”, afirma.
Durante visitas técnicas, a equipe percebeu que muitas sementes circulavam espontaneamente entre as famílias. Feijões, ramas de mandioca e espécies medicinais eram compartilhados entre vizinhas sem qualquer previsão formal no projeto.
“A gente não esperava isso. Elas começaram a trocar sementes entre si, compartilhar variedades e pensar coletivamente”, conta Nélida.
Uma das agricultoras participantes, Maria José, decidiu distribuir parte da primeira produção de feijão catador entre moradores da comunidade.
“A terra deu pra gente. A gente divide com a comunidade”, disse.
Mudas nativas - Além dos quintais, o projeto também investiu na recuperação ambiental das áreas de nascente. Foram plantadas 5.700 mudas nativas em regiões que drenam para o Ribeirão Taquaruçu.
Ao todo, duas nascentes foram restauradas nas áreas recuperadas, que incluem os córregos Lima e Madalena, que deságuam no Taquaruçu, afluente que segue em direção à bacia do Rio Paraguai e ao Pantanal.
“Foi uma iniciativa delas, porque estão observando a falta de água tanto no Cerrado quanto no Pantanal”, disse Nathalia.
O trabalho recebeu apoio do Global Nature Fund e do Ministério Federal para Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha, que também contribuíram para a criação do Viveiro Plantando Águas, instalado no CEPPEC, com capacidade para produzir até seis mil mudas nativas. Outra parceria, com a organização dinamarquesa Bosques del Mundo, permitiu instalar câmeras-trap nas áreas restauradas para monitoramento da fauna.

Produção - Parte dos alimentos produzidos passou a ser comercializada informalmente em Nioaque, enquanto as famílias agora buscam acesso a mercados institucionais, como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar).
Para Rosana Claudina, a experiência evidencia a necessidade de políticas públicas voltadas às famílias que vivem em territórios que hoje funcionam como refúgio da fauna silvestre.
Animais silvestres -De acordo com Nathalia, a degradação ambiental também tem aumentado a pressão da fauna silvestre sobre os assentamentos, já que os animais buscam alimento em áreas onde ainda há diversidade produtiva.
A agroextrativista Rosana Claudina, conhecida como Preta, liderança do CEPPEC, explica que animais como tamanduá, tatu, seriema, gambá e diversas aves passaram a ocupar permanentemente áreas dos assentamentos depois da perda de habitat provocada pelo avanço do agronegócio no entorno.
“Não é mais como antes. Você plantava o milho e sabia que ia colher se chegasse a chuva no tempo certo. Agora, mesmo com a chuva no tempo certo, você tem o ataque das aves”, relata.
Em apenas dois meses, as câmeras trap registraram ao menos 20 espécies silvestres, entre elas anta, tamanduá, tatu, gambá-de-orelha-branca e diferentes aves.
“Os mesmos bichos que comem verde porque estão com fome aparecem nas imagens das câmeras como prova de que, onde se restaura, a vida responde”, afirma Preta.
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