Óleo que iria para o ralo vira combustível após reciclagem
Descarte incorreto pode entupir redes de esgoto, contaminar o solo e reduzir oxigênio dos rios

O que poderia acabar no ralo, no solo ou até nos rios causando danos ambientais pode ganhar novo destino, virando matéria-prima até para biodiesel. Há 16 anos, Thiago Ismael Pereira, de 44 anos, trabalha com a coleta de óleo vegetal e gordura animal e já reúne mais de 23 toneladas do material, recolhido em 550 pontos de cinco municípios. Após dois dias de tratamento, o resíduo é encaminhado para ser transformado em combustível.
RESUMO
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Thiago Ismael Pereira, de 44 anos, coleta óleo vegetal e gordura animal há 16 anos em cinco municípios de Mato Grosso do Sul e já reúne mais de 23 toneladas do material, que é transformado em biodiesel. O descarte incorreto desse resíduo causa entupimentos em redes de esgoto e contamina rios e lençóis freáticos, segundo especialistas.
Antes de empreender, Thiago passou por outros ramos, como o bancário e os cartórios. Mas foi em 2010, após um primo se mudar do Rio de Janeiro para Campo Grande, que começou a trabalhar com reciclagem, inicialmente como sócio. Hoje, é proprietário da Santec Reciclagem.
O empreendedor explica que a coleta do óleo é realizada sem custo para quem entrega o material. Em contrapartida, ele fornece aos clientes produtos de limpeza, como detergente e água sanitária, como forma de compensação e incentivo.
“A gente deixa um recipiente para ele poder estar armazenando esse óleo corretamente, que é um tambor de 50 litros, e conforme eles vão usando o óleo, ele descarta nesse tambor. Quando está perto de encher, a gente passa e faz a coleta com o cliente”, explica.
As coletas são realizadas em comércios, restaurantes, lanchonetes e residências de Campo Grande, Aquidauana, Bonito, Anastácio e São Gabriel do Oeste. No entanto, é na Capital que ele encontra o maior número de interessados em entregar o material.
Para realizar a coleta, Thiago conta com uma equipe formada por quatro trabalhadores. Em apenas uma semana, o grupo recebe, em média, 7,5 mil litros de óleo, o equivalente a aproximadamente 7 toneladas.
Depois de recolhidos, os galões são levados para o depósito da empresa, que fica na Vila Nasser. No local, o material passa por três processos para a retirada de impurezas, como restos de alimentos.
A primeira etapa é a pré-peneira, que consiste em passar o óleo por uma peneira para retirar o material mais espesso. Todo o líquido que passa pelo processo é armazenado em um tanque de 7 mil litros, antes de ser transferido para outro recipiente.
Após juntar a quantidade necessária, o óleo é passado para o tanque de decantação, que é aquecido e pode chegar a 60ºC. “Ali tem um misturador. Então a gente esquenta ele, liga o misturador e depois deixa decantar. Decantou, a gente retira a impureza e a água por baixo”, explica.
Todas essas etapas são realizadas em dois dias. Após o tratamento, o óleo é transferido para dois reservatórios. O líquido fica armazenado até atingir 23 toneladas, quantidade mínima para ser entregue à Delta Biodiesel, que transforma o material em biodiesel em Rio Brilhante.


Mesmo o material que não é aproveitado pela empresa de Thiago é reciclado, mas por meio da Organoeste, que realiza a gestão de resíduos orgânicos através da compostagem. Entre as possibilidades estão a produção de fertilizantes orgânicos e bioinsumos.
Apesar de reconhecer o lucro que a reciclagem desse material traz, para Thiago o maior benefício de todo o processo é a conscientização ambiental. “É um trabalho de conscientização, de ter um local para essa pessoa fazer o descarte corretamente. Porque a poluição é imensa, se jogar na pia da casa, com o tempo, o encanamento entope. Então, além da parte comercial, levamos conscientização também.”
O empreendedor ainda conta que o primeiro a ser conscientizado foi ele mesmo. “Foi depois de ter esse conhecimento que tomei essa consciência. Não só do óleo, mas também com outros materiais recicláveis, como plástico, papelão e vidro, tem que ter um descarte correto.”
Em Campo Grande, moradores podem descartar óleo de cozinha usado nos pontos de coleta do projeto “De Olho no Óleo”, da Águas Guariroba, instalados nos estacionamentos das lojas Comper e Fort Atacadista. O material deve ser armazenado em garrafa PET e, após os recipientes atingirem a capacidade de 200 litros, é recolhido pela Katu Oil e encaminhado para indústrias que produzem ração animal.
Em abril, o Fort Atacadista da Avenida Três Barras também passou a contar com um projeto de logística reversa, desenvolvido pela ADM, Óleo Ponto e Grupo Pereira, com apoio da Câmara Municipal. Uma máquina recebe o óleo e converte a quantidade entregue em pontos vinculados ao celular do usuário. A cada 40 pontos, equivalentes a 4 litros, é possível trocar a pontuação por uma embalagem de óleo de cozinha das marcas Vitaliv ou Concórdia.

Risco do descarte incorreto — Ao Campo Grande News, o coordenador de serviços da Águas Guariroba, Hugo Faleiro, explica que o óleo e a gordura estão entre os principais resíduos que causam problemas nas redes de esgoto. Mensalmente, a empresa precisa realizar 700 serviços de desobstrução. A orientação é não despejar óleo usado em pias, ralos, vasos sanitários ou diretamente no solo.
“O óleo e a gordura podem se acumular nas paredes das tubulações e, com o tempo, formar bloqueios que dificultam ou impedem a passagem do esgoto. Quando isso acontece, surgem extravasamentos e a necessidade de intervenções de manutenção no sistema”, detalha.
Como qualquer outro grande resíduo, o óleo pode prejudicar desde a etapa de coleta até o tratamento do esgoto sanitário. “Por isso, o principal cuidado é evitar que o óleo usado entre na rede de esgoto. A destinação correta reduz a carga de resíduos que chega ao sistema e contribui para o funcionamento adequado de toda a infraestrutura de coleta e tratamento. Além dos impactos no saneamento, o descarte inadequado pode atingir o solo e os recursos hídricos, causando contaminação ambiental.”
O engenheiro civil e ambiental Antônio Sampaio detalha que, ao chegar aos rios, o primeiro impacto que o óleo causa é retirar o oxigênio da água. “Por ser óleo, para ser neutralizado ele vai precisar do oxigênio que tem na água. Assim, diminui a disponibilidade de oxigênio para o meio ambiente, que é o rio, para as bactérias, para outros elementos desse recurso natural.”

Outro problema causado pelo óleo é a criação de uma película sobre a superfície da água. “Isso impede a troca gasosa entre o ar e a água do próprio rio. Essa troca é constante, a todo o instante o ar em contato com a água está introduzindo oxigênio no rio e essa película que forma com o óleo sobre a superfície impede que ocorra essa troca.”
Quando atinge o lençol freático, os danos são ainda maiores. Segundo o engenheiro, ao ser descartado diretamente no solo, a contaminação ocorre gradualmente, mas pode gerar os mesmos riscos de quando o óleo é descartado nos rios e afluentes.
Ao entregar esse resíduo em um ponto que realiza a reciclagem do óleo, Antônio diz que o consumidor contribui diretamente para reduzir os impactos ao meio ambiente.
“Você não permitiu que ele possa parar no meio ambiente, você deu um uso para ele, você transforma ele pela reciclagem ou quem receber esse material coletado vai encaminhar para uma indústria que certamente vai fazer a reciclagem desse material.”
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