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Meio Ambiente

Tecnologia sobrevoa florestas de MS e encontra grupos inéditos de primatas

Monitoramento também registrou jaguatiricas, antas, araras e outras espécies de interesse ecológico

Por José Cândido | 19/05/2026 09:44
Tecnologia sobrevoa florestas de MS e encontra grupos inéditos de primatas
Imagens captadas pelos drones ajudam a entender comportamento e deslocamento de primatas no dossel florestal. (Crédito Arauco)

No alto das árvores, onde a mata fecha a visão e o silêncio costuma esconder a vida selvagem, a tecnologia começou a enxergar o que antes passava despercebido. Em meio às florestas do Projeto Sucuriú, em Inocência, drones equipados com sensores termais estão ajudando pesquisadores a localizar e acompanhar primatas ameaçados de extinção em Mato Grosso do Sul.

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Drones equipados com sensores termais estão sendo usados no Projeto Sucuriú, em Inocência, para monitorar primatas ameaçados de extinção em Mato Grosso do Sul. A tecnologia identificou sete grupos de bugios-pretos e um grupo de macaco-prego-do-papo-amarelo, superando levantamentos anteriores. Os dados orientarão estratégias de conservação, incluindo passagens aéreas de fauna que podem ser as maiores do mundo.

A iniciativa ganha ainda mais simbolismo às vésperas do Dia Internacional da Biodiversidade, celebrado em 22 de maio. Com voos realizados ao amanhecer, os equipamentos percorrem o dossel florestal — a camada formada pelas copas das árvores — e detectam o calor emitido pelos animais, permitindo identificar espécies em áreas de difícil acesso.

A tecnologia passou a ser utilizada no monitoramento do bugio-preto (Alouatta caraya) e do macaco-prego-do-papo-amarelo (Sapajus cay), ambos classificados como vulneráveis ao risco de extinção. O avanço no monitoramento surpreendeu até os pesquisadores envolvidos.

Em levantamentos anteriores, feitos apenas por observação terrestre, havia confirmação de um único grupo de bugios-pretos e indícios de outros dois. Agora, após poucos dias de operação dos drones e mais de 120 quilômetros percorridos em áreas florestais próximas às estruturas do empreendimento, foram identificados pelo menos sete grupos da espécie, além de um grupo de macaco-prego-do-papo-amarelo.

Segundo o biólogo Gonzalo Flores, da Arauco, o uso de drones termais para acompanhamento de primatas ainda é algo inédito no Estado. Ele explica que a tecnologia amplia significativamente a capacidade de monitoramento, especialmente em regiões de difícil acesso, como áreas alagadas, veredas e trechos próximos a cursos d’água.

Além de localizar os animais, o monitoramento busca entender hábitos, deslocamentos e comportamento das espécies nas áreas influenciadas pelo empreendimento. As informações coletadas servirão de base para estratégias de conservação e mitigação de impactos ambientais.

Tecnologia sobrevoa florestas de MS e encontra grupos inéditos de primatas
Drone com sensor termal sobrevoa área florestal em Inocência durante monitoramento de primatas ameaçados. (Imagem: Arauco)

Entre as medidas estudadas está a implantação de duas passagens superiores de fauna para conectar copas de árvores fragmentadas. As estruturas permitiriam o deslocamento seguro de primatas e outras espécies arborícolas sem necessidade de descer ao solo. A proposta pode resultar nas maiores passagens aéreas de fauna do mundo.

A gerente de Meio Ambiente da Arauco Celulose Brasil, Camila Paschoal, afirma que os dados obtidos devem orientar futuros planos de conservação de áreas naturais e proteção de espécies ameaçadas.

Parceira técnica da iniciativa, a Sauá Consultoria Ambiental integra o grupo de assessoramento do PAN CERPAM, plano nacional voltado à conservação de espécies ameaçadas do Cerrado, Pantanal e Amazônia. A responsável técnica da consultoria, bióloga Carolina Garcia, explica que os sensores conseguem identificar os animais pela assinatura térmica emitida pelo corpo, criando contraste com a vegetação ainda fria nas primeiras horas da manhã.

Os voos geralmente começam por volta das 5h, logo após a dissipação da neblina. Durante as campanhas, além dos primatas, também foram registradas espécies como jaguatirica, anta, queixada, araras e urubu-rei, reforçando a riqueza da fauna presente na região.

Para evitar perturbações, os monitoramentos seguem protocolos específicos, mantendo distância segura dos animais e ocorrendo apenas de forma periódica, em média a cada três meses.

Mais do que revelar imagens escondidas nas copas das árvores, os drones começam a desenhar um novo mapa da biodiversidade sul-mato-grossense — um cenário em que tecnologia e conservação passam a caminhar juntas.