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SETEMBRO, QUARTA  16    CAMPO GRANDE 17º

Na Íntegra

Riedel rejeita intervenção na Santa Casa e cobra profissionalização da gestão

Governador defende administração hospitalar qualificada e transparência no uso do dinheiro público

Por José Cândido | 16/09/2026 05:05

O governador Eduardo Riedel (PP), candidato à reeleição, afirmou que uma nova intervenção na Santa Casa de Campo Grande não resolveria a crise do hospital e defendeu a profissionalização da gestão. Segundo ele, a instituição tem um passivo de aproximadamente R$ 600 milhões e precisa ampliar a transparência e a eficiência no uso dos recursos públicos. Riedel disse que o Estado deve repassar quase R$ 190 milhões ao hospital neste ano, mas voltou a condicionar o aumento dos pagamentos à produtividade.

RESUMO

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O governador Eduardo Riedel (PP), candidato à reeleição, descartou uma nova intervenção na Santa Casa de Campo Grande e defendeu a profissionalização da gestão da instituição, que acumula passivo de R$ 600 milhões. O Estado deve repassar quase R$ 190 milhões ao hospital em 2026, condicionado à produtividade. As declarações foram dadas durante o programa Frente a Frente, promovido por veículos de comunicação de Mato Grosso do Sul.

A declaração foi dada na primeira edição do Frente a Frente, rodada de entrevistas com os candidatos ao Governo de Mato Grosso do Sul promovida por Campo Grande News, SBT/MS, TV Guanandi, A Crítica, JD1 Notícias e Correio do Estado. A sabatina foi mediada por Alexandre Giachetto e reuniu os jornalistas Daniel Pedra, Maristela Brunetto, Marcos Anelo, Nathalia Pelzl, Carlos Guilherme e Edir Viegas.

Durante quase 40 minutos, Riedel defendeu a continuidade dos incentivos fiscais, afirmou que Mato Grosso do Sul gerou mais de 140 mil empregos em 3 anos e meio e disse que o Estado precisa gastar melhor antes de buscar novas receitas. Também falou sobre os impactos da expansão da indústria de celulose, admitiu a possibilidade conceitual de PPPs (Parcerias Público-Privadas) na educação, mas descartou a adoção do modelo neste momento, e apontou Corumbá e Ladário como a região que ainda necessita de maior estrutura de saúde.

Na educação, ao ser questionado sobre metas concretas até 2030, o candidato citou resultados atuais e defendeu a continuidade das políticas em andamento. Na segurança, anunciou que o enfrentamento à violência contra a mulher entrará na grade escolar a partir do próximo ano. Sobre os conflitos entre produtores rurais e povos indígenas, sustentou que a solução não virá apenas do Judiciário e defendeu a compra de áreas como alternativa para encerrar disputas históricas.

Confira a entrevista, editada para dar clareza às perguntas e respostas, sem alterar o conteúdo das declarações.

Continuidade do governo

Alexandre Giachetto, mediador — Por que o senhor quer continuar como governador de Mato Grosso do Sul?

Eduardo Riedel — A gestão é composta por um ciclo. É um ciclo de política pública que se implanta e amadurece. A gente vem construindo isso dentro de uma harmonia institucional que o Estado alcançou e que é extremamente importante para dar sequência a algumas políticas públicas que entendemos como essenciais.

Ao fim deste ano, teremos avançado muito em algumas delas durante esses quatro anos. Agora, nunca é uma obra acabada. A dinâmica da sociedade apresenta uma série de situações que precisam ser implementadas ou ter continuidade. Eu gostaria de continuar esses projetos e fazer outros, para dar sequência à trajetória que Mato Grosso do Sul construiu. Queremos a chance e a oportunidade de continuar esse trabalho.

Incentivos fiscais e arrecadação

Daniel Pedra, Correio do Estado — Quais resultados concretos os incentivos trouxeram em empregos e arrecadação para Mato Grosso do Sul?

Eduardo Riedel — Nesses três anos e meio, foram mais de 140 mil empregos. Esse é o primeiro lado do incentivo: atrair capital para Mato Grosso do Sul. A consequência direta é a geração de emprego e o aumento da renda média. Não à toa, Mato Grosso do Sul conquistou a sexta maior renda média do País e está com o nível de desemprego mais baixo da história.

Há outro lado dos incentivos que muita gente não menciona: a redução do preço de bens e serviços que julgamos importantes para a sociedade. O gás de cozinha, por exemplo, é incentivado. Carne, etanol e combustível também são incentivados. Quando o etanol tem uma alíquota de 11%, enquanto a alíquota modal é de 17%, a mais baixa do País, essa diferença é contabilizada como incentivo.

Portanto, o conjunto de incentivos tem dois vetores: aquele que atrai o capital e aquele que diminui custos essenciais para a população. Pode haver outra linha de governo que queira retirar esses incentivos, mas o preço desses produtos subirá naturalmente para o consumidor. É uma decisão de política pública. Entendemos que manter os incentivos nessas duas linhas é positivo para Mato Grosso do Sul.

Se eu continuar no governo, vou manter essa política para atrair cada vez mais investimentos, capital e novos negócios para o Estado, porque ela é um motor da economia e gera resultados positivos para o crescimento.

Daniel Pedra — Neste ano, foram destinados incentivos de quase R$ 12 bilhões. O senhor considera correto manter esse benefício caso seja reeleito?

Eduardo Riedel — Considero correto. Como falei, existem as duas linhas e há outro conceito importante: o incentivo não é destinado apenas a uma empresa. Ele paga a diferença do subsídio de insumos e serviços. Bares e restaurantes, por exemplo, são incentivados, e isso diminui a conta do cliente final. A carne e todos os itens da cesta básica são incentivados. Considero correto manter essa linha.

Também considero corretos os incentivos para atrair novos negócios, por um motivo muito simples: muitos deles não existiriam. Incentivar algo que não viria não significa abrir mão de uma receita, porque essa receita não existe. Sem o incentivo, não há investimento nem receita. Quando o incentivo é concedido, o Estado continua sem parte da receita, porque o benefício não é total, mas, ao mesmo tempo, gera outras receitas com a ativação da economia, os empregos e as empresas que passam a participar daquele processo.

Maristela Brunetto, Campo Grande News — A queda da oferta do gás boliviano afetou fortemente a arrecadação. A celulose, setor em expansão, é um produto semielaborado que não paga ICMS. Como o Estado pretende arrecadar mais para ampliar os investimentos?

Eduardo Riedel — Antes de pensar em arrecadar mais, precisamos pensar em gastar melhor. Foi o que fizemos e é o que defendo para o Brasil. O Brasil gasta muito e gasta mal. Temos de observar o tempo todo a qualidade do gasto.

Mesmo com a arrecadação patinando, andando de lado e, muitas vezes, crescendo abaixo da reposição inflacionária, mantivemos a capacidade de investimento do Estado entre 12% e 15% da receita corrente líquida. Isso é capacidade de gerir o orçamento sem prejudicar nenhum serviço público e dando sequência às ações que nos propusemos a realizar.

É claro que se chega a um ponto em que é preciso buscar outros mecanismos. Este é um ano de muita atenção em razão da compressão do orçamento. Ainda assim, a prioridade deve ser a qualidade do gasto.

Celulose e impactos sociais e ambientais

Edir Viegas, JD1 Notícias — Mato Grosso do Sul já viveu duas grandes experiências recentes com a implantação da indústria de celulose, em Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo. Ficaram problemas que exigiram medidas mitigadoras, milhões de reais em compensações e reflexos negativos na fauna, na flora e na área social. Agora chega a Arauco, em Inocência. O que o Estado aprendeu e o que será feito de maneira diferente para que o município não repita problemas já conhecidos?

Eduardo Riedel — Primeiro, precisamos separar a questão ambiental da questão social, porque são muito distintas. O aprendizado foi grande, especialmente em Ribas do Rio Pardo. Três Lagoas foi o início desse processo, com unidades menores. Ribas recebeu a maior fábrica do mundo, e a Arauco será ainda maior.

Há também um componente diferente: Inocência tem cerca de 8 mil habitantes e hoje reúne aproximadamente 14 mil trabalhadores. Quando se vai ao município, é possível ver o efeito social, mas não há atualmente o drama que tivemos em Ribas. As contrapartidas exigidas da empresa foram trabalhadas a partir daquele aprendizado, incluindo a distância do alojamento até a unidade de produção, transporte, segurança pública e saúde.

Hoje existe um posto de saúde equipado pela empresa em Inocência, à disposição dos trabalhadores e da própria população. Conseguimos estruturar uma situação para atender ao pico da obra. Há uma curva de trabalhadores que cresce exponencialmente, permanece nesse pico por aproximadamente um ano e meio e depois diminui. Dos 14 mil trabalhadores atuais, ficarão cerca de 2 mil diretamente na unidade e 6 mil profissionais na área florestal.

Parte da mão de obra vem de fora e, depois, migra para outros setores ou retorna à cidade de origem. Mas a estrutura do município muda na saúde, na educação e na habitação. Em Ribas, entregamos uma escola para mil novos alunos em razão do aumento da população. A habitação é outra demanda que exige atenção para o segundo momento. Hoje, a necessidade é de alojamentos; depois, permanecem trabalhadores que precisarão de moradia.

Edir Viegas — E quanto ao meio ambiente? Em Ribas do Rio Pardo, por exemplo, há o problema das macrófitas no Rio Pardo.

Eduardo Riedel — Essa questão precisa ser observada. Houve um desarranjo que tem de ser visto. A questão ambiental tem três eixos: biodiversidade, carbono e água.

Um dos fatores que melhoraram o balanço de carbono do Estado foi o aumento da floresta plantada. Tínhamos 2 milhões de hectares de pastagens degradadas dez anos atrás e hoje temos 2 milhões de hectares de florestas plantadas em lugar dessas áreas degradadas. Esse ciclo de produção é altamente benéfico para o balanço de carbono.

O produto é destinado a fábricas modernas, de ciclo fechado e sustentáveis, que geram a própria energia e exportam energia limpa produzida com biomassa. O resíduo é aproveitado no ciclo de produção da celulose. Qualquer mudança ou intervenção precisa ser observada com cautela e corrigida.

Marcos Anelo, SBT/MS — Quando se fala em meio ambiente, não se fala apenas em natureza, mas também no ambiente em que a população vive. Não falta aprofundar os impactos sobre os moradores durante a construção dessas fábricas, considerando que Mato Grosso do Sul terá outro grande empreendimento, com a fábrica da Bracell em Bataguassu?

Eduardo Riedel — O impacto ocorre principalmente durante a construção e é mais social do que ambiental. No nosso entendimento, esse efeito já está muito mitigado. Também precisamos olhar as consequências positivas, como as oportunidades geradas e as centenas de negócios que gravitam ao redor de um empreendimento desse porte.

São serviços, restaurantes, borracharias, logística, hotéis, medicina, odontologia, saúde, beleza e estética. Há uma mudança completa nas oportunidades de toda uma região, e não apenas do município. Cria-se um ambiente de prosperidade. Existem problemas? Claro que existem, e temos de solucioná-los. Mas o maior desafio ambiental das cidades, e no qual temos trabalhado, é o saneamento.

PPPs e resultados da educação

Carlos Guilherme, A Crítica — A educação é um dos pilares de sua campanha. As PPPs ganharam destaque em Mato Grosso do Sul e o governo de Tarcísio de Freitas, que recebeu elogios do senhor, já adotou esse modelo na rede estadual de ensino. Existe o risco de isso ocorrer em Mato Grosso do Sul?

Eduardo Riedel — Eu não usaria a palavra “risco”. Existe essa possibilidade? Existe. Neste momento, não; conceitualmente, sim.

Por que não neste momento? Porque temos uma rede patrimonial de escolas pronta. A experiência de PPP na educação existente no País está vinculada ao ativo imobiliário. A parte pedagógica permanece com o Estado. Os professores e o conteúdo pedagógico são do Estado. A administração do imóvel fica com o parceiro privado. Dessa forma, o governo se concentra naquilo que interessa, que é o aprendizado dos alunos, e reduz o investimento direto necessário para construir escolas.

Construir uma escola como a de Ribas do Rio Pardo, por exemplo, custou R$ 20 milhões ou R$ 21 milhões retirados do caixa do governo. Seria possível entregar a construção ao setor privado e pagar uma espécie de aluguel. É uma discussão financeira. Se houver viabilidade financeira e a administração puder ser mais bem executada, é um bom caminho.

No nosso caso, não existe essa necessidade, porque o patrimônio está constituído e a rede de escolas é muito boa. Investimos R$ 1,2 bilhão na reforma de 270 escolas. Quando falo em reforma, não me refiro apenas à pintura. É a reestruturação da rede lógica, da parte elétrica, da climatização, dos laboratórios de informática e robótica e das bibliotecas. É uma reestruturação completa do ambiente escolar. Por isso, não temos necessidade de PPP neste momento.

Carlos Guilherme — Os professores enxergam a PPP como um grande risco para a educação. Caso o modelo seja adotado e haja mau desempenho dos alunos, quem será responsabilizado: o Estado ou a empresa?

Eduardo Riedel — O Estado. Ele é responsável pelo pedagógico, pelo aprendizado e pela estrutura. Mesmo que a estrutura seja conduzida por um parceiro privado, o Estado continua responsável pela fiscalização e pela manutenção dos serviços.

No Hospital Regional, por exemplo, o parceiro privado construirá o prédio e será responsável por hotelaria, alimentação, segurança, limpeza e guarda. Ainda assim, o Estado é responsável pelo serviço, porque ele continua público e gratuito. No nosso modelo, os médicos estarão vinculados ao Estado. Existem modelos em que nem os médicos são do Estado, mas a responsabilidade continua sendo do poder público. O Estado é sempre o responsável.

Nathalia Pelzl, TV Guanandi — Caso seja reeleito, quais metas concretas o senhor assume até 2030 para melhorar a alfabetização, a proficiência dos alunos e o Ideb?

Eduardo Riedel — Vamos continuar fazendo o que estamos fazendo. Aumentamos a proficiência. No resultado do Pisa, uma avaliação internacional, Mato Grosso do Sul ficou em nono lugar no País. São avaliadas três dimensões: leitura, matemática e ciências. Ficamos em nono lugar em proficiência, que é, em última instância, o que mais nos interessa: o aprendizado do aluno.

O melhor salário do Brasil, a escola em tempo integral e a estrutura reorganizada têm um objetivo: o aluno. Nunca podemos esquecer isso. Falamos dos professores e da estrutura, mas o objetivo é o aluno.

Outro dado importante é que Mato Grosso do Sul tem 55% dos estudantes do ensino médio em cursos técnicos profissionalizantes, o maior índice do Brasil. A média brasileira é de 16%.

Santa Casa e regionalização da saúde

Nathalia Pelzl — Nas últimas semanas, voltou ao centro do debate a situação da Santa Casa, que vinha cobrando mais recursos da Prefeitura e do Estado e alegando dificuldades para manter os serviços. Como o senhor recebeu as notícias sobre as suspeitas investigadas pela Operação Antivírus e como avalia o contraste entre a alegada falta de dinheiro e as suspeitas de fraude?

Eduardo Riedel — Primeiro, precisamos conceituar a Santa Casa. É uma instituição respeitada e fundamental para o sistema de saúde de Mato Grosso do Sul, com nível e volume de atendimento extremamente importantes para o Estado.

Agora, sempre cobrei transparência e eficiência na aplicação de qualquer recurso público. Quando respondi à Maristela, falei da qualidade do gasto público. A Santa Casa sempre cobrou aumento da transferência de recursos, e eu sempre disse: vamos mudar a contratualização e aumentar os recursos por produtividade, porque eu não sei o que acontece lá dentro. Quero ver o que acontece dentro do hospital e quero aumento de produtividade para elevar os repasses. Essa negociação está em curso.

Quem tem de responder pelas questões da Santa Casa é a própria Santa Casa, porque ela é uma instituição privada. O Estado repassa ao Município, que repassa à Santa Casa. A contratualização é responsabilidade do Município. O sistema de saúde é complexo.

Nunca negaremos apoio à Santa Casa. Em 2024, pagamos R$ 98 milhões. Em 2025, foram R$ 149 milhões. Neste ano, até agosto, foram R$ 106 milhões. Estamos caminhando para quase R$ 190 milhões em 2026, mas cobramos produtividade e abertura. Essa é uma relação de mão dupla, porque o dinheiro pertence à sociedade sul-mato-grossense. Vou cobrar eficiência e transparência sempre.

O que está acontecendo na Santa Casa é uma questão que a instituição terá de resolver. Não é um problema de hoje. Existe um passivo constituído e uma dificuldade financeira estrutural que precisamos compreender para buscar uma solução. O Estado será parceiro, desde que exista um modelo de gestão que conheçamos.

Nathalia Pelzl — Sua gestão avançou na regionalização da saúde, na telemedicina e na saúde digital. Contudo, ainda existem regiões pouco assistidas. Qual delas precisa de maior assistência de média e alta complexidade?

Eduardo Riedel — Há um crescimento do atendimento e da presença da estrutura regional dentro da nova arquitetura da saúde. Isso ocorre não apenas por meio dos hospitais regionais do Estado, mas também pelo financiamento de 45 hospitais de média complexidade, remunerados por produção, em diferentes municípios.

A região que talvez necessite de mais suporte neste momento é Corumbá e Ladário, por ser mais distante. Já demos a ordem de serviço para um hospital regional naquela região. É o último que falta para concluir a rede de hospitais regionais do Estado. Hoje são quatro; falta o quinto. Quero mais um mandato de governador para completar essa reestruturação da saúde.

Daniel Pedra — Depois de todo o escândalo revelado na semana passada, não está na hora de uma nova intervenção na Santa Casa?

Eduardo Riedel — Não. Uma intervenção na Santa Casa exige muito cuidado. Primeiro, seria uma decisão do Município, porque a relação contratual é municipal. Hoje, o Estado não pode intervir sem uma decisão judicial. Existe uma discussão em torno da Santa Casa que envolve Ministério Público, Justiça, Município e o próprio Estado.

Acho que a intervenção não é a solução. A solução é a profissionalização da gestão, e isso deve partir de dentro da Santa Casa. Essa é a minha opinião pessoal. Quem precisa definir é o conselho de administração da instituição, mas a profissionalização seria o caminho que eu adotaria.

Uma intervenção colocaria o Município como interventor, mas será que assim construiríamos a solução? Não é simples. Quem ficaria com o passivo? Quem assumiria os R$ 600 milhões de passivo constituído da Santa Casa? O interventor? Existem decisões jurídicas que precisam ser tomadas.

Feminicídio e proteção às mulheres

Marcos Anelo — O número de feminicídios tem aumentado em Mato Grosso do Sul. Seu plano de governo prevê ampliar o uso de tornozeleiras eletrônicas e do alerta de aproximação pelo celular. Porém, na maioria dos casos, o assassino não tinha sequer medida protetiva. Que outras ações poderiam produzir resultados mais eficazes no combate a esse crime?

Eduardo Riedel — Esse tema é extremamente sensível e caro a todos nós. Quando o assunto chega à segurança pública, é porque já falhamos como sociedade. Quando a vítima chega à delegacia, é porque existe um problema estrutural. Não é uma situação normal.

O primeiro passo é reconhecer e tipificar corretamente os feminicídios. É importante dizer que Mato Grosso do Sul é o Estado que mais classifica homicídios de mulheres como feminicídio: 55%, enquanto a média brasileira é de 43%. Não jogamos o problema para debaixo do tapete. Por isso, a média aparece mais alta. Ainda assim, ela é alta em todo o Brasil.

Também precisamos criar cada vez mais consciência e estabelecer uma rede de proteção para evitar que o caso chegue à segurança pública. Essa rede é responsabilidade de todos. Nossa secretaria capacitou, em 47 municípios, mais de 20 mil servidores públicos para ficarem atentos e participarem dessa proteção.

Quando uma possível vítima chega ao posto de saúde, ela dá sinais. Pode chegar machucada ou vestida de maneira diferente do habitual. Há violência financeira, moral e contra parentes antes da agressão física ou do feminicídio. A rede precisa funcionar.

Na segurança pública, somos intransigentes. Mudamos os processos desde o caso da Vanessa, que foi um marco para mim. Reestruturamos o atendimento e essa rede está funcionando.

Marcos Anelo — Seu plano prevê a inclusão desse tema na grade escolar. A partir de quando?

Eduardo Riedel — A partir do ano que vem. O tema estará na grade escolar porque faz parte de uma mudança estrutural da sociedade. Caso contrário, ficaremos enxugando gelo.

Na segurança pública, temos Salas Lilás em 72 municípios, a Casa da Mulher Brasileira e outras duas unidades em construção. Também há novos procedimentos envolvendo Defensoria Pública, Ministério Público, Governo do Estado, Polícia Civil e Polícia Militar.

Formamos policiais militares para atuar como oficiais de Justiça, com autorização do Tribunal de Justiça, para evitar dois ou três dias de demora na notificação do agressor. Hoje, a vítima não precisa dar dois ou três depoimentos. É feito um único depoimento gravado, distribuído imediatamente ao Ministério Público, à Defensoria, ao Tribunal de Justiça, ao juiz e ao delegado. Estamos inovando para ganhar agilidade e ampliar a proteção. Mas o problema é estrutural.

Conflitos entre produtores e povos indígenas

Carlos Guilherme — Ao falar de segurança pública, também é preciso tratar dos conflitos nas áreas rurais. De um lado, produtores rurais pedem segurança jurídica; de outro, estão os direitos dos povos originários. O que o senhor pretende fazer de diferente, caso seja reeleito, para garantir os dois direitos

Eduardo Riedel — Esse é outro bom motivo para pedir a reeleição, porque já comecei a fazer diferente e quero continuar. Há 30 anos digo que essa solução não virá do Judiciário, porque são dois direitos constitucionais em conflito. Fica-se em um limbo jurídico, e o Congresso e o STF não avançaram para uma solução definitiva.

A compra das áreas é uma solução que pode mitigar o problema. Isso já aconteceu em Mato Grosso do Sul em dois ou três casos, de maneira inédita. Essa alternativa era absolutamente descartada pelo Judiciário e pelos governos, mas ocorreu aqui. Depois de uma discussão judicial de 30 anos, a área foi comprada e entregue à comunidade indígena.

Esse é um lado do conflito. A maior ação, porém, precisa ocorrer dentro das comunidades indígenas, com educação, saúde e infraestrutura. Durante muito tempo, não houve atuação política direta nem interesse. Nós avançamos e queremos avançar mais.

Desenvolvimento econômico e inovação

Maristela Brunetto — Com a reforma tributária, o incentivo fiscal deixará de ser o principal instrumento para atrair empresas. Seu plano de governo apresenta o Estado como articulador e indutor. Em quais setores e regiões o senhor aposta para sustentar o crescimento?

Eduardo Riedel — Elegemos alguns temas prioritários para os investimentos, e eles são globais. As guerras que ocorrem no mundo não acontecem por acaso. Elas envolvem o domínio de ativos como segurança alimentar, energia renovável e tecnologia, que nunca esteve tão ligada à disponibilidade de energia e às terras raras.

Mato Grosso do Sul tem vocação natural, conhecimento, inteligência e capacidade para promover investimentos nessas áreas.

Por isso, recebemos investimentos não apenas em fábricas de celulose, mas também em proteínas animais. Crescemos em suínos, aves e no parque industrial de bovinos. O próximo passo é agregar valor.

Não quero parar na fábrica de celulose. Quero fábricas de papel, papelão, tecido e outros produtos acabados. Quero a distribuição e a logística. Quero a Rota Bioceânica funcionando para levar ao exterior produtos acabados, como já ocorre com as proteínas animais.

Também avançamos em energia renovável. O primeiro data center de Mato Grosso do Sul foi construído em Ivinhema por causa do fornecimento estável de energia limpa. Uma indústria de bioenergia produz energia de biomassa durante o ano inteiro e alimenta um data center ligado a uma empresa de mineração de bitcoin. É o topo da cadeia em investimento tecnológico. As atividades se conectam quando o governo direciona os investimentos para áreas em que o Estado é competitivo.

Maristela Brunetto — E o pequeno produtor, que produz o alimento consumido dentro do Estado? Como ajudá-lo a produzir mais e oferecer produtos melhores por preços mais baixos?

Eduardo Riedel — O pequeno produtor e o agricultor familiar precisam ter acesso à infraestrutura e a uma assistência técnica de qualidade. Eles precisam ser competitivos.

Quando uma indústria de etanol de milho chega ao Estado, por exemplo, a demanda local eleva o preço do milho. O pequeno produtor que planta esse grão encontra um patamar de preço melhor porque o produto é processado aqui.

Diversificação, assistência técnica e infraestrutura são fundamentais. A agroindustrialização é outro eixo importante. Na noite anterior, discutíamos com um grupo de pequenos produtores a implantação de uma fábrica de mandioca no assentamento para produzir farinha e outros produtos voltados ao mercado local. Isso é fundamental.

Edir Viegas — Seu plano de governo prevê atrair pelo menos dois novos centros de pesquisa, desenvolvimento e inovação até 2030. Como será esse projeto?

Eduardo Riedel — O investimento em ciência e tecnologia tem fortalecido muito nossa rede de mestres, doutores e pós-doutores. Temos uma rede de pesquisa sólida. Mato Grosso do Sul ocupa o primeiro lugar no Centro-Oeste em ambiente de inovação e saiu de uma posição acima do 20º lugar para o 12º lugar no País.

Se quisermos aumentar a produtividade e a eficiência da sociedade como um todo, temos de investir nessa base tecnológica e científica. Quando falamos em centros de pesquisa, falamos em atrair instituições públicas ou privadas para estimular áreas específicas. No hidrogênio verde, por exemplo, a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul desenvolve um grande projeto. Cabe uma ação específica nessa linha no Estado.