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Política

Aliado de prefeita diz que comprou eleitor em disputa decidida por 20 votos

“Uma nota de cem era enrolada em um santinho e preso com elástico”, diz ex-candidato a vereador

Aline dos Santos | 30/09/2021 12:28
Dra. Clediane venceu eleições em Jardim por diferença de apenas 20 votos. (Foto: Reprodução/Facebook)
Dra. Clediane venceu eleições em Jardim por diferença de apenas 20 votos. (Foto: Reprodução/Facebook)

Decidida por diferença de apenas 20 votos, a eleição para a Prefeitura de Jardim, a 233 km de Campo Grande, segue repercutindo, mesmo passados dez meses, na Polícia Civil e na Justiça Eleitoral.

A coligação derrotada nas urnas, liderada pelo ex-prefeito Guilherme Monteiro (PSDB), move recurso no TRE (Tribunal Regional Eleitoral) com pedido de cassação do mandato da prefeita Clediane Areco Matzenbacher (DEM), a Dra. Clediane, por compra de voto e abuso do poder econômico.

E, na semana passada, a disputa teve o adicional de uma reviravolta: ex-aliado, que chegou a ser preso antes da eleição, mudou depoimento e disse que saiu às ruas com notas de cem reais enroladas em santinhos para garantir a vitória da agora prefeita. Todas as denúncias só vieram à tona após 15 de novembro, data das eleições municipais. A então candidata declarou que arrecadou R$ 165.680,98 e gastou R$ 162.380,98 na campanha.

Na última quarta-feira (dia 22), Edson Vargas Benites, 47 anos, foi à delegacia de Jardim para prestar depoimento na investigação do crime eleitoral e passou a acusar a prefeita. Até então, negava a suspeita de compra de voto.

Candidato a vereador pelo MDB, Edson foi preso em 13 de novembro do ano passado, dois dias antes da eleição, com lista de eleitores (contendo nome, telefone e seção eleitoral), uma conta de água e R$ 1.077. O dinheiro estava distribuído pelo carro do candidato, um Polo.

Na ocasião, foram presos Edson e Wilmar Antônio Gonçalves Perez, também candidato a vereador pelo MDB. No depoimento mais recente, Edson Benites disse que, antes do flagrante da PM (Polícia Militar), conseguiu descartar os santinhos com as cédulas de cem reais num terreno baldio.

A estratégia de compra de votos teria sido traçada a 15 dias das eleições, numa reunião política que resultou na criação de grupo no WhatsApp, para organizar a cooptação de eleitores na reta final da campanha e eleger a prefeita.

Candidato a vereador, Edson Benites chegou a ser preso dias antes da eleição. (Foto: Reprodução)
Candidato a vereador, Edson Benites chegou a ser preso dias antes da eleição. (Foto: Reprodução)

“O depoente relata que após a reunião, com cerca de 8 pessoas, saiu para realizar o solicitado, sendo que a compra de voto era feita da seguinte forma: uma nota de cem era enrolada   em um santinho e preso com elástico de dinheiro, sendo entregue para os populares que já estavam a espera nas calçadas das residências”, informa Edson, no  Boletim de Ocorrência.

Ainda de acordo com o novo depoimento, ele confirma que a lista de eleitores foi entregue por Acileia Sorrilha Echeverria.

Material de campanha e dinhieiro apreendido com candidato a vereador. 
Material de campanha e dinhieiro apreendido com candidato a vereador.

A lista Cinco dias depois da eleição, Acileia registrou documento no Cartório do 2º Serviço Notarial da comarca de Jardim. Ela declarou que foi contratada por Edson para ser cabo eleitoral, mas na prática, a orientação era comprar votos. Em audiência na Justiça Eleitoral, Acileia afirmou que pedia voto e oferecia dinheiro.

A dois dias da eleição, ela conta que recebeu R$ 1.400 da cunhada de Edson para repassar aos eleitores mencionados na lista apreendida.

A fiança – As fianças de Edson Vargas Benites e das outras duas pessoas presas no flagrante foram pagas por Luiz Miguel Faria do Nascimento, genro da Dra. Clediane. Num total de R$ 12 mil.

Em março deste ano, a juíza Penélope Mota Calarge Regasso julgou improcedente a ação por falta de provas. A coligação de Guilherme Monteiro recorreu ao TRE e aguarda julgamento do recurso.

A reportagem entrou em contato com a advogada Letícia Arraes, do escritório Ávalo e Rizkallah Advogados Associados, que move a ação contra a prefeita. A advogada diz que não vai se manifestar, porque a ação de impugnação de mandato eletivo tramita em sigilo.

“Vamos nos manifestar nos autos, através dos nossos advogados e todas as medidas cabíveis serão tomadas”, afirma a prefeita Dra. Clediane sobre o novo depoimento. O Campo Grande News não conseguiu contato com os demais citados.

Genro de prefeita pagou fiança de candidato, que agora, acusa Clediane. (Foto: Reprodução)
Genro de prefeita pagou fiança de candidato, que agora, acusa Clediane. (Foto: Reprodução)

 Os citados - Edson afirma que na época da eleição se sentiu pressionado . "Infelizmente essa mentira me causou muitos danos porque de lá pra cá eu vinha só pensando nisso, todo dia era um peso imenso carregar isso aí e hoje mesmo ainda tenho muito receio do que pode vir a acontecer comigo ou minha família, mas eu tomei a decisão de largar esse fardo e esclarecer a verdade. Apenas isso, porque eu me senti muito envergonhado e carregar isso pra mim estava fazendo muito mal, mas agora decidi falar toda a verdade".

A declaração é similar a de Wilmar. "Por que eu decidi falar a verdade somente agora pra Policia Civil? Foi que na época nós nos sentimos acuados. A Dra. Clediane falava que a gente tava falando, mentindo aquilo por um grupo, que o grupo dependia de nós. E aí como ela tinha um grande poder no Executivo, nos sentimos acuados. Ela arrumou um coach que foi na nossa cabeça. Aí como nós estávamos fazendo aquilo por um grupo, que era o melhor pra Jardim, nós decidimos abraçar a versão. Quando nós vimos que não era nada daquilo que ela falou, que era só ameaça e pressão psicológica que a gente estava sofrendo, essas coisas, eu mesmo fui me sentindo culpado pelo que tava acontecendo, decidi falar a verdade, o Edson também decidiu falar a verdade, aí foi que procuramos a Policia Civil, o Edson também procurou e desmentimos tudo".

Matéria alterada para acréscimo do posicionamento de Edson e Wilmar***

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