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Política

Continuidade ou alternância: a oposição desafia projeto que Reinaldo põe à prova

Para Fábio Trad, o longo domínio de um mesmo grupo enfraquece a democracia

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 06/08/2026 16:54
Continuidade ou alternância: a oposição desafia projeto que Reinaldo põe à prova
Fábio Trad defende alternância no poder e afirma que a democracia se fortalece com a renovação dos grupos políticos. (Foto Campo Grande News)

Nem todos, no entanto, enxergam esse modelo como uma demonstração de eficiência política. A longevidade do grupo político comandado por Reinaldo Azambuja (PL), apontada por aliados como demonstração de estabilidade, é apresentada pela oposição como um risco à alternância democrática por concentrar excessiva influência sobre as instituições estaduais.

RESUMO

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Reinaldo Azambuja lidera uma coalizão política em Mato Grosso do Sul desde 2015, apontada por aliados como estável, mas criticada pela oposição por concentrar poder. O ex-deputado Fábio Trad, candidato do PT ao governo em 2026, contesta esse modelo, citando renúncias fiscais no Vale da Celulose e riscos à democracia. Azambuja, no PL, incorporou o bolsonarismo sem conversão ideológica e elegeu Eduardo Riedel, mantendo o comando político da coalizão.

Foi nesse terreno que o ex-deputado federal Fábio Trad, candidato ao governo pelo PT, passou a confrontar publicamente Reinaldo neste início da campanha, dando os contornos do que deve ser a disputa eleitoral de 2026.

A disputa será travada justamente em torno de duas narrativas opostas sobre esse modelo e seu legado. Enquanto Reinaldo Azambuja sustenta que a coalizão governista reúne as condições para ampliar a hegemonia iniciada em 2015, Fábio Trad transforma justamente essa longevidade em seu principal alvo.

Poder sob contestação

Na entrevista ao Campo Grande News, Reinaldo afirmou que Trad "ainda não apresentou um projeto consistente" e que tem concentrado sua estratégia apenas em atacar o governo. Como contraponto, citou os elogios feitos pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, "à gestão fiscal de Mato Grosso do Sul, ao equilíbrio das contas públicas e às políticas implementadas pelo Estado". Para o ex-governador, o reconhecimento do próprio governo petista reforça a tese de que o modelo adotado pelo grupo governista estadual produz resultados e justifica sua continuidade.

Fábio Trad rebate a crítica e, em entrevista ao Campo Grande News, afirma que suas manifestações nunca tiveram caráter pessoal contra Riedel. Segundo ele, apontar falhas da administração faz parte do papel da oposição e suas críticas se baseiam em indicadores e resultados da gestão. "Nenhuma palavra minha tem na imprensa contra a honra do Riedel. Eu desafio alguém a encontrar", afirmou. Para o candidato, questionar o governo não significa fazer uma campanha agressiva, mas exercer o dever de fiscalizar e apresentar uma alternativa administrativa.

O eixo central da crítica de Trad, porém, vai além da gestão. Para ele, o principal risco está na concentração de poder construída em torno de Reinaldo Azambuja. O oposicionista considera que o governo Riedel é a continuidade direta da administração iniciada em 2015 e afirma que uma eventual reeleição consolidaria um projeto de permanência excessivamente longo no comando do Estado, reduzindo a alternância política e enfraquecendo os mecanismos de controle democrático. Na sua avaliação, a ausência de uma oposição competitiva favorece a concentração de influência sobre diferentes instituições e cria um ambiente que classifica como "nocivo", "asfixiante" e incompatível com o funcionamento saudável da democracia.

Custo da continuidade

Trad também identifica no chamado Vale da Celulose reflexos desse modelo de poder. Segundo ele, a política de amplas renúncias fiscais concedidas para atrair grandes empreendimentos ocorreu sem transparência suficiente sobre as contrapartidas econômicas, sociais e ambientais.

O candidato afirma que os incentivos fiscais não produziram os resultados esperados na geração de empregos qualificados, enquanto municípios impactados pela expansão da indústria enfrentam sobrecarga nos serviços públicos e problemas ambientais. Para o oposicionista, o Vale da Celulose representa a face mais visível de um modelo em que o poder político e o poder econômico caminham lado a lado, formando um "consórcio" cuja influência extrapola as decisões de governo e alcança a própria estrutura política do Estado.

Bolsonarismo incorporado

O estilo do líder ajuda a explicar sua relação com um novo ingrediente do grupo dominante: o bolsonarismo. Embora tenha escolhido o PL como abrigo partidário e assumido o comando da legenda no Estado, aliados lembram que ele nunca pertenceu à ala ideológica da direita. "Ele está no bolsonarismo, mas o bolsonarismo não está nele", resume um interlocutor. Sua migração para o PL não implica conversão ideológica. Trata-se de uma adaptação estratégica às mudanças do eleitorado conservador do Centro-Oeste. Ou seja: o partido mudou, mas a coalizão permaneceu.

Continuidade ou alternância: a oposição desafia projeto que Reinaldo põe à prova
Reinaldo Azambuja atribui a ampla aliança construída em Mato Grosso do Sul à confiança entre os partidos e ao cumprimento dos acordos políticos. (Foto Campo Grande News)

O rearranjo de Reinaldo revelou o choque entre duas direitas sul-mato-grossenses. De um lado, a militância ideológica representada por figuras como o deputado Marcos Pollon, preferido de Jair Bolsonaro para o Senado, mas que aceitou disputar a reeleição. De outro, a direita pragmática moldada pelo agronegócio, pelo municipalismo e pela ocupação gradual dos espaços de poder. Ao final, prevaleceu o modelo do ex-governador. Não foi ele quem se adaptou ao bolsonarismo regional; foi o bolsonarismo local que acabou sendo absorvido pela engrenagem política construída ao longo de décadas e que tratora adversários externos e internos.

O principal símbolo dessa força continua sendo Eduardo Riedel. Em 2022, o então governador transformou um técnico respeitado, mas sem trajetória eleitoral consolidada, em candidato competitivo e o conduziu à vitória. Agora, a mesma estrutura mobilizada para elegê-lo trabalha para garantir sua permanência no governo. A reeleição de Riedel deixou de ser apenas um projeto administrativo para se tornar o principal instrumento de continuidade da coalizão construída por Reinaldo.

A escolha de Riedel também revela outra característica do método Reinaldo: fabricar um sucessor e assegurar a continuidade do projeto sem abrir mão do comando político da coalizão. Ao apostar em um gestor de perfil técnico, e não em um líder partidário tradicional, reduziu o risco de formar um herdeiro capaz de disputar sua própria liderança. A estratégia permitiu que Riedel assumisse a administração do Estado enquanto o protagonismo político permanecia concentrado no ex-governador.

Diálogo como ativo

É um estilo que marca diferença em relação aos antecessores e funciona como alavanca de transformação da própria elite dirigente de Mato Grosso do Sul. Se governos anteriores foram conduzidos principalmente por políticos tradicionais, o ciclo inaugurado por Reinaldo coincidiu com a ascensão de lideranças oriundas do agronegócio e do setor produtivo aos principais espaços de poder.

Ele e Riedel emergiram de Maracaju, uma das vitrines da agricultura empresarial brasileira e símbolo da força econômica do interior entrelaçada à política de longa duração. Reinaldo emerge como o primeiro grande líder produzido diretamente pelo Mato Grosso do Sul do agronegócio globalizado.

Para Paulo Catanante, essa talvez seja uma das principais marcas de seu ciclo político. Na avaliação do pesquisador, Reinaldo não apenas herdou a estrutura tradicional de poder do Estado, mas remodelou a elite dirigente ao incorporar lideranças do agronegócio, da indústria e do setor produtivo aos principais espaços políticos de decisão. Em vez de reproduzir o modelo dos antigos grupos políticos, transformou a força econômica do interior em base de sustentação de um novo ciclo de poder.

Talvez ainda seja cedo para colocá-lo na mesma galeria histórica de Pedro Pedrossian. Mas, desde o velho líder desenvolvimentista, nenhum político sul-mato-grossense permaneceu tão próximo do centro do poder depois de deixar o governo. Sua influência não se apoia na grandiosidade, no confronto ou no carisma explosivo, mas na capacidade de organizar alianças duradouras entre interior, agronegócio, partidos e máquina pública.

Em um Estado acostumado a líderes intensos e passageiros, encontrou um método mais discreto de permanência e, justamente por isso, potencialmente mais duradouro. Questionado sobre como gostaria de ser lembrado no futuro, Reinaldo diz esperar reconhecimento pelas reformas estruturais implantadas durante seus governos e pela disposição ao diálogo. "Conversei com aliados e adversários porque acredito que boas políticas públicas se constroem com diálogo. No fim, o reconhecimento vem pelos resultados entregues à população."