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Política

Minoria na política, cenário preocupa mulheres que tentam reeleição

Deputadas estaduais e vice-prefeita apontam desafios e cobram mais espaço para mulheres nas eleições de 2026

Por Jhefferson Gamarra e Fernanda Palheta | 10/03/2026 16:07
Minoria na política, cenário preocupa mulheres que tentam reeleição
Bancada feminina na Alems: Gleice Jane (PT); Mara Caseiro (PSDB) e Lia Nogueira (PSDB) (Foto: Divulgação/Alems)

Com maioria no eleitorado e na população, as mulheres ainda ocupam uma parcela pequena dos espaços de poder na política em todo o Brasil. Em Mato Grosso do Sul, o cenário também se repete e deve marcar as discussões em torno das eleições de 2026. A sub-representação feminina, as dificuldades para consolidar candidaturas e o risco de retrocesso diante de um ambiente majoritariamente masculino foram alguns dos pontos levantados pelas três deputadas estaduais da Assembleia Legislativa e pela vice-prefeita de Dourados, nesta terça-feira (10), durante sessão em homenagem ao Dia Internacional da Mulher.

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A sub-representação feminina na política brasileira continua sendo um desafio significativo, especialmente em Mato Grosso do Sul, onde apenas três mulheres ocupam cadeiras entre os 24 parlamentares da Assembleia Legislativa. Apesar de representarem 52% da população, as mulheres ocupam apenas 14% a 17% dos cargos em câmaras municipais, assembleias legislativas e Congresso Nacional. As parlamentares alertam para os riscos de retrocesso devido ao crescimento de discursos misóginos e violência contra mulheres. Elas defendem mudanças na legislação e na cultura política para garantir maior igualdade na disputa eleitoral, criticando o fato de muitas candidaturas femininas servirem apenas para cumprir a cota obrigatória de 30% exigida pela lei.

Atualmente, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul conta com apenas três mulheres entre os 24 parlamentares: as deputadas Mara Caseiro (PSDB), Lia Nogueira (PSDB) e Gleice Jane (PT). O quadro reflete uma realidade que se repete em diferentes níveis do Legislativo no país.

Minoria na política, cenário preocupa mulheres que tentam reeleição
Deputada estadual Mara Caseiro (Foto: Divulgação/Alems)

Para a deputada estadual Mara Caseiro, a baixa presença feminina contrasta diretamente com a composição da população. “Nós representamos 52% da população. Infelizmente, nós só temos em torno de 14%, 17% quando a gente fala em câmaras municipais, assembleias legislativas, Câmara Federal e Senado Federal”, afirmou.

A parlamentar defende que o fortalecimento da presença feminina precisa começar na base da política, incentivando mulheres que já atuam em seus municípios. “Nós precisamos motivar mais as mulheres que estão lá na ponta, lá na base, como vereadoras e prefeitas, para que elas possam se colocar e também ter esse apoio”, disse.

Para Mara Caseiro, que deve disputar uma vaga no legislativo federal, eleger mais mulheres em diferentes níveis da política cria um efeito de incentivo e fortalecimento para novas lideranças femininas. “Por isso é importante elegermos mais mulheres para que essas mulheres motivem, inspirem e apoiem as mulheres lá na ponta”, afirmou.

Ela também avalia que há um movimento de maior conscientização entre as mulheres sobre o papel político e social que podem desempenhar. “Hoje a mulher tem mais coragem e mais lucidez de entender a importância do papel na sociedade. É muito relevante a mulher mãe, a mulher do lar, mas nós precisamos também estar nas tomadas de decisões importantes para os nossos municípios, para o nosso Estado e para a nossa nação”, afirmou.

Mara ainda aponta que o Legislativo é um espaço ideal para garantir avanços em direitos. “É aqui, nas câmaras municipais, nas assembleias, na Câmara Federal e no Senado, que nós vamos construir leis e políticas públicas que tragam mais justiça social e mais oportunidades às mulheres, sem discriminação e sem preconceito”, disse.

Minoria na política, cenário preocupa mulheres que tentam reeleição
Deputada estadual Lia Nogueira (Foto: Divulgação/Alems)

Apesar dos avanços, a deputada estadual Lia Nogueira avalia que o cenário ainda está distante do ideal e vê com preocupação a baixa representatividade feminina. “Eu vejo isso com tristeza e preocupação, porque nós já avançamos, mas ainda estamos muito aquém daquilo que a gente pode ser”, afirmou.

Ela destacou que sua própria eleição representou um marco ao quebrar barreiras sociais e políticas. “Eu sou a primeira mulher vindo da periferia, de uma família que não tem um político, de baixa renda realmente, das comunidades, a conquistar uma cadeira na Assembleia Legislativa”, disse.

Para Lia, um dos principais problemas está na forma como as mulheres ainda são tratadas dentro do sistema político, muitas vezes vistas apenas como forma de cumprir a legislação eleitoral que exige percentual mínimo de candidaturas femininas. “Nós ainda somos enxergadas somente para cumprir a cota dos 30%”, criticou.

A parlamentar defende mudanças na legislação e também na cultura política para garantir maior igualdade na disputa por cargos eletivos. “Não adianta falar de 30% se a política realmente não está preparada para nos aceitar e nos receber”, afirmou.

Apesar de dizer que se sente respeitada no ambiente do parlamento estadual, ela ressalta que o problema é estrutural e começa antes mesmo da eleição. “Não que aqui a gente sofra machismo. A nossa relação aqui é de respeito e cordialidade. Mas a gente precisa enxergar a política lá na frente”, disse.

Para a deputada, a participação feminina precisa deixar de ser vista como complemento e passar a ser tratada como protagonismo. “O nosso lugar é onde a gente quiser ir, e um desses lugares é a política”, declarou.

Lia também afirma que as mulheres devem disputar espaços de poder em condições de igualdade. “Nós estamos preparadas para ocupar todos os postos, todas as funções, seja no Executivo ou no Parlamento, e não sermos enxergadas apenas como vice ou para cumprir cota”, pontuou.

Minoria na política, cenário preocupa mulheres que tentam reeleição
Deputada estadual Gleice Jane (PT) (Foto: Divulgação/Alems)

A deputada Gleice Jane também alerta para um momento delicado no cenário político e social, que pode afetar diretamente a presença feminina na política. Segundo ela, o aumento da violência contra mulheres e o crescimento de discursos misóginos podem impactar as eleições.

“Esse ano é um ano em que a gente tem que ficar em atenção. Durante muitos anos a gente fez uma luta para avançar e avançou, mas estamos vendo um movimento misógino muito grande, contrário à luta das mulheres”, afirmou.

Para a parlamentar, o crescimento desse tipo de discurso está relacionado justamente às conquistas recentes das mulheres. “Todo esse movimento de ódio às mulheres é resultado dos avanços que nós conquistamos”, disse.

Ela avalia que o período eleitoral pode refletir esse cenário de tensão. “A gente corre o risco de regredir, porque a nossa participação na política não está desatrelada dos enfrentamentos às violências”, destacou.

De acordo com Gleice Jane, o aumento da violência de gênero pode se traduzir também em resistência à presença feminina na política. “Como tem uma violência muito grande contra as mulheres, é muito possível que a gente enfrente uma onda de negativa da nossa existência também nos espaços da política”, afirmou.

Para ela, o resultado das eleições dependerá também da reação da sociedade. “A gente tanto pode ter um movimento de reação às violências e avançar, como também pode regredir, porque vai ter um movimento muito forte contra a nossa participação”, avaliou.

Além das parlamentares estaduais, a vice-prefeita de Dourados, Gianni Nogueira (PL), que esteve na Assembleia Legislativa nesta terça-feira, também falou sobre o cenário político e as articulações em andamento para 2026. Ela é apontada como pré-candidata ao Senado.

Ela contou que iniciou a pré-campanha em março de 2025, após receber incentivo para disputar o cargo. “Comecei minha pré-campanha um ano atrás, exatamente no dia 12 de março de 2025, quando o presidente Bolsonaro entrou por chamada de vídeo em uma reunião com mulheres e disse que gostaria de indicar uma mulher douradense para a vaga ao Senado dentro do partido”, relatou.

Assim como as deputadas estaduais, Gianni também destaca que a política continua sendo um ambiente predominantemente masculino. “O ambiente político é majoritariamente masculino e a gente precisa galgar esses lugares de representação”, afirmou.

Ela também critica a visão de que mulheres devem ocupar apenas papéis secundários nas chapas eleitorais. “A mulher não pode ser tida só como uma boa vice ou para cumprir 30% de cota em uma chapa”, disse.

A vice-prefeita reforça que a ampliação da presença feminina nos espaços de poder também está diretamente ligada à realidade enfrentada pelas mulheres no Estado. “As mulheres representam mais da metade do eleitorado do Mato Grosso do Sul e enfrentam problemas como violência doméstica e feminicídio. Nosso Estado tem índices altos de feminicídio e precisamos avançar nessas discussões”, afirmou.

No cenário das eleições de 2026, a representação feminina em Mato Grosso do Sul também passa pela disputa por vagas no Congresso Nacional. Entre os nomes já consolidados estão a senadora Soraya Thronicke (Podemos), que deve disputar a reeleição ao Senado, e a deputada federal Camila Jara (PT), que também deve buscar um novo mandato na Câmara.