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Trânsito violento também deixa sequelas no coração de órfãos de pais jovens

Daniel, de 34 anos, deixou Otávia, de 1 ano, e o pai Gabriel, com apenas 24, nem poderá conhecer o caçula

Por Lucia Morel | 17/05/2022 17:24
Daniel Ferreira Miranda, 34 anos, faleceu no dia em que a primeira filha, Otávia, completou um ano de idade. (Foto: Arquivo pessoal)
Daniel Ferreira Miranda, 34 anos, faleceu no dia em que a primeira filha, Otávia, completou um ano de idade. (Foto: Arquivo pessoal)

No dia em que a primeira filha completou um ano de idade, em 5 de maio, Daniel Ferreira Miranda, 34 anos, deu adeus a ela. Motociclista e dono de conveniência na cidade de São Gabriel do Oeste, ele não resistiu ao ser atingido por caminhão da coleta de lixo da cidade, no Bairro Jardim dos Pássaros, na região norte do município.

“Ele estava fazendo entrega da conveniência e era aniversário de 1 ano da nossa filha. Pelo que me contaram, ele tentou resistir, ele olhava a foto dela e falava “amo, amo, amo”, difícil. Ela não entende, mas quando vê uma moto, corre o olhar pra ver se é o pai dela, mas eu não falo tanto, ela fica procurando, eu vou esperar ela crescer para falar mais”, ressalta a esposa, Manuela de Almeida, de 38 anos, florista.

Foram 13 anos juntos e a primeira filha biológica dele no relacionamento. Manuela já tinha um menino de 14 anos de idade, que Daniel cuidava como filho. “Ele anda quieto”, diz Manuela sobre o filho adolescente.

Ela lembra que no dia do acidente, que ocorreu por volta das 22h30 da noite, o marido chegou a ser socorrido e levado ao hospital. Quando ela chegou ao local, estavam tentando reanimá-lo. “Ele teve três paradas cardíacas. Não resistiu”, lamentou, lembrando que assim que ela engravidou da pequena Otávia, ele abriu mão de ser caminhoneiro e montou a conveniência.

Daniel ao lado da esposa e do enteado. (Foto: Arquivo pessoal)
Daniel ao lado da esposa e do enteado. (Foto: Arquivo pessoal)

Ele era trabalhador, uma ótima pessoa, cuidava de todos, uma pessoa muito feliz. É isso que vou passar pra ela, que foi uma pessoa que sonhou e deu certo. Ele quis tanto a conveniência e conseguiu. Ele morreu trabalhando, ele trabalhava, como ele dizia, pra dar um futuro pros filhos. Ele parou de ser caminhoneiro pra ficar mais junto da família”, enumera Manuela. Daniel fazia entrega no bairro onde se acidentou.

Segundo a esposa, muitos erros ocorreram e o marido dela acabou sendo uma vítima. Há suspeita de que o motorista do caminhão de lixo estivesse embriagado, o veículo estivesse com as lanternas quebradas e o bairro também sem iluminação pública suficiente. Tudo ainda está sendo apurado. “Era um caminho que ele fazia sempre, andava toda cidade fazendo entrega, não era desconhecido”, lamenta.

Três filhos - Gabriel da Silva Nunes tinha 24 anos, quando no último dia 12 de maio, acabou morrendo depois de ser atingido por caminhão na Vila Nasser, em Campo Grande. O acidente foi pela manhã, ele não resistiu e faleceu no mesmo dia, à noite, na Santa Casa. Além de mãe, irmãs e esposa, ele deixou três filhos, dois do primeiro casamento, de 2 e 4 anos de idade, e um que ainda nem nasceu.

“Vou lembrar de você para nosso filho Isaac Gabriel e as crianças (...) e (...) que você tanto amava, o pai incrível que você foi, falarei de boca cheia”, sustenta a esposa Carla Layrranne de Oliveira Machado, 21 anos, em homenagem prestada nas redes sociais. Aos prantos e sem condições de conversar por telefone, ela encaminhou a mensagem que escreveu para ele em tom de saudade e tristeza.

Gabriel com o casal de filhos de 2 e 4 anos de idade. (Foto: Arquivo pessoal)
Gabriel com o casal de filhos de 2 e 4 anos de idade. (Foto: Arquivo pessoal)

“No ano passado a gente perdeu nosso primeiro filhinho e com ele foi toda minha fé, mas você veio e devolveu ela pra mim, segurou minha mão tão forte e disse que a gente ia conseguir ter outro quando quisesse. Eu nem podia engravidar de novo, estava com o corpo frágil, mas Deus calculou tudo certinho pra deixar uma parte de você pra mim, pra eu ficar sempre ligada a você, pra eu não ficar sozinha nesse mundo.”

Para a mãe dele, Márcia Aparecida Damazio, de 44 anos, o filho apenas voltou para Deus. “Eu o devolvi pra Deus, de onde ele veio”, e comenta que os últimos dias têm sido muito difíceis. “Ele sempre morou comigo e há um ano, se mudou, mas a gente se falava todos os dias pelo telefone”, relembra.

Gabriel se acidentou próximo ao seu local de trabalho, em empresa de internet, onde atuava há apenas dois dias. “Estava recém-contratado”, lembra Márcia. “Ele era muito apaixonado pelos filhos e estava muito feliz com a chegada do terceiro. Já estava arrumando o quarto para ele chegar.”

Ainda no útero da mamãe, o pequeno Isaac Gabriel deve nascer dentro de três meses e não vai conhecer o pai. Já a Otávia, filha de Daniel, provavelmente não terá lembranças fortes do próprio pai. Dois órfãos da violência do trânsito, acidentes que poderiam ter sido evitados.

Gabriel no colo da esposa, "acarinhando" o filhinho que ainda nem nasceu. (Foto: Arquivo pessoal)
Gabriel no colo da esposa, "acarinhando" o filhinho que ainda nem nasceu. (Foto: Arquivo pessoal)

(*) Matéria alterada às 18h39 para correção de informação.

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