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Campo Grande, Domingo, 18 de Novembro de 2018

29/10/2017 07:05

Alfabetização e Letramento: alinhavo necessário

Ana Paula Alberto Lopes (*)

Quando falamos em alfabetização, logo pensamos em leitura e escrita, ou seja, aquilo que insere e capacita as pessoas no mundo, tendo em vista que nas sociedades letradas, como a nossa, as práticas sociais estão, de certo modo, atreladas às práticas de leitura e escrita, por exemplo, desde a leitura de uma conta de energia, a escrita de um contrato de locação, até à leitura ou produção de um artigo científico. Nessa perspectiva, outro processo já se articula, o de letramento. Conceito este que circula para além dos muros da escola. Ao propormos a palavra Letramento, estamos sugerindo o conceito de sujeito letrado, envolto em práticas sociais.

Durante muito tempo, e ainda hoje, a Alfabetização carrega consigo sentidos ligados ao sucesso ou fracasso escolar. Mas será que quando associamos esses sentidos às nossas crianças estamos buscando compreender se elas sabem ler e escrever, ou se conseguem ler, escrever, compreender e se colocar no mundo?

Pois bem, aí está o fio condutor de nosso texto. Para nós, a Alfabetização vai muito além do ato de codificação e decodificação das letras/palavras, ela carrega em si sentidos outros, que extrapolam o mecanicismo do ensino. E ao pensarmos dessa forma, é impossível não alinhavar o conceito de Letramento junto ao de Alfabetização.

Por Letramento compreendemos se tratar de um conjunto de práticas sociais da escrita, que implicam em graus de Letramento. Isto é, quando falamos em sujeitos letrados, referimo - nos a sujeitos, que estão inseridos em uma cultura letrada, em uma determinada sociedade e que são atravessados e afetados de diversas maneiras pela escrita. Assim podemos dizer que, em nossa atual sociedade, muitos são sujeitos letrados independente de seu grau de escolaridade, ou seja, independente de saber ler e escrever.

Seguindo essa linha de raciocínio, ao articularmos Alfabetização e Letramento, estamos propondo uma educação transformadora, capaz de formar sujeitos críticos, que possam se colocar no mundo, atuar, e assim, transformar a realidade. E para tanto, é preciso que este seja formado compreendendo o real funcionamento da leitura e escrita, o porquê de precisarmos escrever, registrar e ler e interpretar.

Ao passar dos séculos, a humanidade foi sentindo cada vez mais a necessidade de registrar fatos, memórias que se perdiam com o tempo. Somente a palavra já não bastava. Então assim, nasceu a escrita, com o objetivo de registrar e marcar o que a humanidade foi produzindo sócio historicamente. Primeiro com desenhos, sinais, ilustrações, depois símbolos, até chegarmos em um sistema simbólico de representações como nosso alfabeto. Vale ressaltar, que tal sistema simbólico vem carregado de significações que foram sendo construídas ao longo da história. Portanto, não há como pensar a escrita sem pensar o social, o político.

Dessa maneira, ao sugerirmos o alinhavo Alfabetização/ Letramento, defendemos a ideia de que o cidadão precisa sim aprender o código da escrita, mas não ficar preso somente a ele. É necessário propiciar ao estudante compreender o porquê escrevemos, para quem escrevemos, e que tais sentidos de escrita serão interpretados de diversas maneiras, por diversos sujeitos. Sujeitos estes que vivem em uma sociedade letrada e que são afetados pela escrita de diversas maneiras. E que a leitura não fique somente na decodificação do código linguístico, mas que ela avance no sentido de romper com sentidos únicos, já estabelecidos. Que nossos estudantes possam interpretar a partir daquilo que já está lá posto, e ir além, transformando seu saber em novos saberes, podendo assim, dessa maneira, atuar de maneira significativa em nossa sociedade.

Nessa perspectiva, quando falamos em Letramento, um novo alinhavo faz-se necessário. Nessa tessitura um novo fio surge, o das Múltiplas Linguagens. Por meio delas é que poderemos alcançar uma educação voltada para o Letramento. O homem é atravessado e constituído a todo momento por várias linguagens, sejam elas artísticas, musicais, matemáticas, enfim, elas são múltiplas. Dessa forma, contemplando as Múltiplas Linguagens, formaremos cidadãos letrados e conhecedores do código da escrita, críticos e atuantes, que deixarão marcas profundas na história. E como a história está sempre em constante movimento, fica inviável um ponto final nesse bordado!

(*) Ana Paula Alberto Lopes é professora regente da Educação Infantil, no Colégio Marista Champagnat em Ribeirão Preto (SP), do Grupo Marista.

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