Cães comunitários, cidades e violências: o que realmente está em debate
Os recentes casos de agressão a cães comunitários tiveram grande repercussão nas redes sociais e também na vida cotidiana. O tema passou a circular como se fosse um episódio específico, fora da curva da crueldade humana. No entanto, é fundamental reconhecer que esses acontecimentos não são eventos isolados, nem podem ser compreendido apenas como atos individuais. Esses episódios expõem tensões mais profundas sobre como entendemos quem pode, afinal, habitar os espaços que compartilhamos e sob quais condições certas vidas (inclusive humanas, mas não apenas) são reconhecidas como legítimas e dignas de respeito e proteção.
Cães comunitários existem porque a vida urbana já é feita de convivência entre nossa espécie e outras. A presença desses animais torna visíveis formas silenciosas de cooperação e cuidado que sustentam a vida urbana para além das normas formais. Ainda assim, nossas cidades, em geral, não estão preparadas para reconhecer e acolher esse tipo de convívio: elas produzem vulnerabilidades para esses animais, que ficam expostos ao frio, à fome, ao risco de atropelamento e a múltiplas formas de violência.
Ao mesmo tempo, é fundamental reconhecer que esses episódios de agressão se inserem em lógicas mais amplas de violência. Estudos associados à chamada “teoria do elo” indicam que a violência contra animais não é um desvio isolado, mas frequentemente está conectada a outras formas de agressão, inclusive contra pessoas. Ignorar essa conexão impede que o problema seja compreendido em sua complexidade e reforça a tendência de tratá-lo apenas como um ato individual de crueldade. A violência e a vulnerabilidade de seres humanos e animais estão conectadas.
Diante disso, é fundamental deslocar o debate do campo moral para o modo como nos organizamos como sociedade. Rapidamente, os casos passaram a ser usados para defender a redução da maioridade penal e o endurecimento das respostas penais. O que poderia ser uma discussão sobre cidade, convivência e políticas urbanas, sobre as condições que produzem vulnerabilidade, sobre a circulação de violências que atravessam humanos e animais e até sobre o recrutamento de jovens por grupos violentos na internet, acaba reduzido a uma defesa apressada de mais punição. Nesse deslocamento, perde-se a oportunidade de enfrentar as raízes do problema e de pensar respostas que realmente tornem a vida coletiva mais segura e habitável para todos, humanos ou não.
A comoção em torno de cães comunitários revela, assim, algo importante. Nossa disposição em proteger a vida é legítima e merece atenção, mas também pode ser rapidamente deslocada para justificar políticas de endurecimento penal. A passagem do cuidado ao punitivismo acontece quase sem que se perceba. Cães cabem perfeitamente nessa ideia de família ampliada, o que gera identificação imediata e mobilização rápida. O risco é que essa mobilização seja conduzida para reforçar a noção de que a solução para a violência urbana está em punir mais cedo e mais duramente. O debate se afasta das condições que produzem a violência e passa a se concentrar apenas em castigos exemplares, prisão e punição a menores de idade, caminhos que nada dizem sobre a organização multiespécie da cidade e pouco contribuem para reduzir a violência.
Precisamos refletir sobre como organizamos as cidades e outros ambientes em que vivemos, sobre como invisibilizamos a convivência multiespécie e sobre como o debate público sobre a proteção animal é frequentemente capturado por agendas punitivistas. A questão colocada por esses episódios não é simplesmente como punir melhor quem agride um animal, mas como as redes de violência se formam, se conectam e encontram ressonância, inclusive entre membros muito jovens da sociedade. O desafio está em aprender a organizar espaços em que diferentes formas de vida, humanas ou não, possam coexistir sem que a violência apareça como resposta recorrente.
(*) Letícia Dias Fantinel é professora no Departamento de Administração e do Programa de Pós-graduação em Administração da Universidade de Brasília. Pós-doutora em Estudos Humano-Animais pelo Human-Animal Studies Hub da Universidade de Lisboa.
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