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Campo Grande, Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2017

27/10/2011 07:05

Competências do século 21

Por Emerson Barreto*

O trabalho com as competências do século 21 no Ensino Fundamental 1

Emerson Barreto

Já que a escola deve formar seus alunos para a vida, para a convivência no coletivo, a reflexão na educação deve ser permeada pela discussão da sociedade e dos princípios que a regem. Também é indispensável repensar os processos educativos e as incompatibilidades do ensino que, frequentemente, limitam-se a ficar entre os muros da escola. À medida que enxergamos necessidades de formação diferentes daquelas que são praticadas nas escolas de hoje em dia, torna-se necessário convidar todos os participantes desse processo a refletir acerca das modificações emergentes no campo educacional.

No relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o Século 21, Educação: um tesouro a descobrir, são feitas reflexões sobre os novos rumos da educação na sociedade do século 21. Entre elas, destacam-se a discussão sobre os quatro pilares da educação, o conceito de educação ao longo de toda a vida e as articulações que se desenvolvem entre esses pilares e as exigências da sociedade.

Jacques Delors (1988, p. 90) descreve o aprender a conhecer “como um meio e como uma finalidade da vida humana”.[i] Ele vincula o desenvolvimento humano às necessidades básicas de aprendizagem para o alcance de “uma participação ativa na sociedade” e para que se continue aprendendo. Para a educação básica, menciona, ainda, a preocupação com o “ensino das ciências” e com o “espírito empreendedor”.

Fortemente relacionado ao pilar aprender a conhecer está o aprender a fazer, ligado ao mundo do trabalho e à formação profissional, do modo como se constituem no mundo atual.

Já o pilar aprender a ser se fundamenta na exigência de que a escola promova o desenvolvimento total da pessoa para que “todos, sem exceção, façam frutificar os seus talentos e potencialidades criativas, o que implica, por parte de cada um, a capacidade de se responsabilizar pela realização do seu projeto pessoal” (DELORS, 1988, p. 16).

No pilar aprender a viver juntos, o autor destaca a importância de “viver juntos desenvolvendo a compreensão do outro e a percepção das interdependências – realizar projetos comuns e preparar-se para gerir conflitos – no respeito pelos valores do pluralismo, da compreensão mútua e da paz” (DELORS, 1988, p. 102).

O pensamento autônomo e crítico é indispensável para a formação de cidadãos capazes de intervir na sociedade, conscientes de sua postura e de seu papel na coletividade para manter a convivência tolerante e ética no contexto da pluralidade social, econômica e cultural. Para responder à necessidade de promover uma educação que abarque conhecimentos, comportamentos, conceitos, procedimentos, valores e atitudes, torna-se também fundamental desenvolver competências e trabalhar temas como ética, empreendedorismo, autoliderança, comunicação oral, trabalho em equipe, administração do tempo, educação ambiental, responsabilidade social, consumo consciente e educação financeira.

Dentro de um contexto contemporâneo, desenvolver essas competências é tão importante quanto o ensino dos conteúdos curriculares tradicionais. E esse trabalho deve ser iniciado de forma estruturada já nos primeiros anos do Ensino Fundamental.

A competência autoliderança, por exemplo, auxilia os alunos a desenvolver a iniciativa, a tomar consciência dos próprios talentos e limitações, a administrar seus pensamentos e ações de forma autônoma e responsável, a posicionar-se no mundo para desenvolver suas potencialidades sob todos os aspectos e a buscar sua realização pessoal e, posteriormente, profissional em equilíbrio com a coletividade.

Atrelada a essa competência, pode-se citar também o empreendedorismo. Não no seu entendimento equivocado, de formar pequenos executivos aptos a desempenhar funções com eficácia no mundo empresarial, mas no sentido de ser criativo, empreender mudanças, defender ideias, dedicar-se com afinco à realização de sonhos e objetivos, mobilizando seus talentos e conhecimentos e os de seus pares. Um indivíduo empreendedor é capaz de vislumbrar novas realidades e de construir novos caminhos para si e para os outros, o que faz essa competência essencial nos estudos, no trabalho e na vida.

Em uma sociedade que tem cada vez mais tarefas a cumprir, mais papéis a desempenhar, mais informações a absorver, mais resultados a entregar, a administração eficiente do tempo é uma das chaves da liberdade e da autonomia. Ter tempo para se relacionar com os amigos e a família e participar de grupos culturais e sociais, tempo livre para conhecer novos lugares, para o lazer e o descanso, sem prejudicar o cumprimento do planejamento de estudo e de trabalho, depende de um aprendizado constante e do exercício da disciplina.

Ao pensarmos nos comportamentos culturais dos seres humanos, sobressai sua capacidade de interpretar as expressões da realidade, atribuindo-lhes significado e sentido. Desenvolver a competência leitora é essencial, tanto no aspecto restrito, da interpretação de um texto, de um enunciado matemático ou de um gráfico, por exemplo, como também em um aspecto mais amplo, de leitura do mundo. A capacidade de ler e a qualidade da leitura permitem às pessoas participar da sociedade letrada, o que em última instância as habilita a uma atuação consciente e efetiva no mundo. Ler o mundo, de acordo com Paulo Freire, é condição básica ao pleno exercício da cidadania.[ii]

Igualmente importante para a vida em sociedade é a comunicação oral. Saber expressar de forma articulada e eficiente os pensamentos e opiniões por meio da fala é essencial no contexto escolar e nas relações pessoais e profissionais. Cabe ressaltar que essa competência é necessária às várias áreas do conhecimento que compõem o currículo e frequentemente solicitada em nosso cotidiano. Entretanto, não basta colocar os alunos para dizer algo em público, é necessário dispor de momentos privilegiados de aprendizagem com estratégias adequadas.

Projetos colaborativos, ideias e decisões coletivas estão cada vez mais em destaque. É o mundo 2.0, ou até mesmo 3.0, como alguns especialistas classificam. Conselhos pedagógicos, juntas médicas e comitês, para citar apenas alguns exemplos, reforçam a eficácia do trabalho em equipe, o que evidencia a necessidade do desenvolvimento dessa competência de forma estruturada. Na escola, o objetivo não deve ser apenas o produto final do trabalho, ou do projeto, mas levar os alunos a entender processos e relações interpessoais.

A formação de cidadãos para as demandas atuais e futuras passa irrefutavelmente pelas questões socioambientais. Temas como escassez dos recursos naturais e intensidade dos impactos humanos no ambiente estão na pauta das discussões sobre a qualidade de vida no planeta. Nesse cenário, refletir sobre hábitos de consumo e os impactos gerados individual e socialmente ao meio ambiente são de grande importância para a formação dos alunos, direcionando-os para a construção de uma sociedade sustentável.

Somado a essa questão, em um país com pouca tradição em educação financeira e com tanto acesso ao crédito e ao consumo como agora, é fundamental que os alunos, desde cedo, aprendam a lidar com o dinheiro. Menciono práticas que efetivamente os habilitem a uma gestão eficiente dos próprios recursos, visando ao planejamento dos gastos e do consumo propriamente dito.

Isso passa por entender de onde vêm os recursos, como são formados os preços dos produtos e a diferença deles no mercado. Passa também por exercitar a diferença entre querer e precisar, o essencial e o supérfluo, entre poupar ou gastar. Sobre o consumo, aprender a identificar no que gastar o seu dinheiro, de que forma e que impacto isso pode gerar, tanto em termos orçamentários como em relação à própria saúde e ao meio ambiente. Por isso, a relação direta entre educação financeira, consumo consciente e educação ambiental. Sobre este último tema, já trabalhado há mais tempo de forma estruturada pelas escolas, reforço justamente a articulação com as outras competências, extrapolando os conteúdos curriculares específicos sobre ciências e natureza.

Por fim, um projeto bem estruturado para o desenvolvimento desses conteúdos e competências não pode deixar de contemplar a cidadania e a ética, intrinsecamente ligadas a toda essa discussão, dentro de um conceito mais amplo de responsabilidade social.

Após discorrer sobre os temas e competências que são relevantes para o século 21, proponho uma reflexão final: há que se adotar essas práticas de forma mais integrada com todo o projeto da escola e não apenas em ações ou projetos isolados. E já desde as séries iniciais.

O trabalho estruturado dessas competências, pensado de forma articulada, inclusive com as disciplinas do currículo, requer planejamento e investimento na formação dos professores. No entanto, as escolas que se propuserem a oferecer uma proposta de ensino amparada por ferramentas educacionais que contribuam para o pleno desenvolvimento de todas essas demandas, cada dia mais latentes na sociedade contemporânea, estarão à frente na conquista de uma educação pautada na autonomia, na liberdade, nos valores e no compromisso com a cidadania.

() Emerson Barreto é gerente pedagógico da Aymará Educação

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Excelente artigo, porém acredito que muitas dessas deficiências educacionais não são deveres do Estado ou da escola, e sim da família. Atualmente, os pais não dispõe de tempo para educar os filhos, e transferem essa responsabilidade para a escola. Dessa forma, temos que voltar ao tempo da palmatória, para que o professor possa, além de ensinar, realmente "educar" os alunos.
 
Renato Moura em 27/10/2011 11:37:12
Um artigo de testo muito bem explicado e detalhado no ambito educacional. No entanto para ser mais direto; o ensino público deveria ser o prioritário do País, porque tem maior crientela; A escola Pública tem que mudar muito com o objetivo de ensinar mais e conversar menos, como reunões diversas durante o ano letivo. Há numa media de 15 reuniões anual sem necessidade usando o tempo integral.
 
luiz alves pereira em 27/10/2011 08:39:30
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