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23/04/2014 08:22

Das benzedeiras

Por Heitor Freire (*)

Sincretismo é uma fusão de doutrinas de diversas origens, seja na esfera das crenças religiosas, seja nas filosóficas. Sincretismo é agir, unindo coisas díspares, apesar das diferenças, a favor do que é semelhante. Na história das religiões, o sincretismo é uma fusão de concepções religiosas diferentes ou a influência exercida por uma religião nas práticas de outra. No Brasil, somos testemunhas e beneficiários desse sincretismo religioso.

Oriundas desse sincretismo religioso surgiram as benzedeiras. Pessoas que aliavam o amor pela humanidade a uma vontade de contribuir para minimizar o sofrimento alheio. Embora esse encargo, algumas vezes, causasse a elas algum desconforto.

As benzedeiras, também chamadas rezadeiras, têm remédio para tudo. Não há doença que não se cure. Espinhela caída, coalho virado, carne quebrada, cobreiro, quebranto, mau olhado, doenças nervosas, encosto, doenças físicas, todos esses males têm solução.

A tradição de cura através de rezas, banhos, chás e efusões ainda é presente na sociedade moderna. O cantar silencioso e o chacoalhar de ramos de ervas traduz a ciência de um povo, o conhecimento do cotidiano.

Agora, de forma inédita, as benzedeiras são consideradas profissionais da saúde no Paraná. Em Rebouças, no interior do estado, uma lei regulamentou a tradicional prática. O prefeito diz que curandeiros podem auxiliar a saúde pública. Lá, as benzedeiras têm reconhecimento oficial. Considero essa atitude do prefeito de Rebouças um avanço social e um reconhecimento público e oficial de uma atividade útil à população.

Eu, pai de sete filhas, naturalmente, tive de conviver com as benzedeiras, mulheres maravilhosas que supriam muitas vezes o que os médicos não conseguiam resolver. Bem, no meu caso, minha longa convivência com elas teve no seu início o dedo forte da minha sogra, Armanda.

Aconteceu assim: minha filha número um, Valéria, com dois anos de idade, foi acometida de uma diarréia incessante acrescida de vômitos constantes. Levada ao médico, ele prescreveu um remédio que foi prontamente ministrado a ela. Só que a medicação não produziu nenhum efeito. E a diarréia e os vômitos continuavam.

A minha sogra comentou que deveríamos levá-la a uma benzedeira. Eu, do alto da minha experiência com 25 anos de idade, contestei, dizendo que quem sabia o que fazer era o médico. Ela esperou que eu saísse para o meu trabalho, pegou a menina com a minha mulher, Rosaria e foram para uma benzedeira.

Quando voltei do trabalho, ao anoitecer, encontrei a Valéria alegre e brincando. Então pensei: esse médico é bom mesmo. Comentei com a Rosaria, que me contou o que havia acontecido: a Valéria estava com coalho virado – que acontece quando os pais irresponsavelmente querendo fazer graça suspendem as crianças jogando-as para o alto e seguram-nas de volta – isso só se resolve com benzeção. Tive que me curvar à evidência dos fatos. A partir daí tornei-me fã e divulgador das benzedeiras.

Em Ponta Porã, onde morávamos na época, havia um médico muito famoso, dr. Astúrio Marques, vivo e clinicando até hoje. Quando o dr. Astúrio sentia que o que estava acontecendo fugia ao seu entendimento, aconselhava que de imediato se procurasse dona Conceição, mãe dele e benzedeira famosa na fronteira.

Quando mudamos para Campo Grande, o pediatra das nossas meninas era o dr. Juvenal Alves Corrêa, médico humanitário, competente, suave e amoroso no trato. O dr. Juvenal, quando percebia que a sua ciência não resolveria a questão apresentada, indicava de imediato que procurássemos a dona Elvira, benzedeira, comerciante, proprietária de uma casa comercial localizada na rua 7 de Setembro, a Frutal. Lá de imediato, éramos atendidos por ela e a questão resolvida. É interessante observar que essas pessoas são de uma simplicidade total, estão sempre à disposição, a qualquer hora, e sempre recusam qualquer tipo de pagamento.

Minha santa mãe, à sua maneira também tinha uma benzeção especial: quando as crianças caíam ralando os joelhos, por exemplo, passava as mãos, rezando de uma forma um tanto jocosa, em espanhol, dizendo: “Sana, sana, culito de rana, sino sana hoy, sanará mañana”.

Fica aqui registrado o meu reconhecimento, minha homenagem e meus agradecimentos a todas as benzedeiras do nosso planeta.

(*) Heitor Freire é corretor de imóveis e advogado.

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