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Campo Grande, Domingo, 25 de Agosto de 2019

25/07/2019 19:31

Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha

Por Thais Dominato (*)

A importante data do dia 25 de julho surgiu no cenário internacional no ano de 1992 durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas que aconteceu em Santo Domingo, na República Dominicana. Mais tarde, no Brasil, no ano de 2014, a lei n. 12.987 tornou esse também o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Tereza foi uma mulher negra, líder quilombola no século XVIII, no Vale do Guaporé, em Mato Grosso, e ícone de resistência negra no Brasil colonial.

Datas assim, tal como a do Dia Internacional da Mulher (8 de março), ainda não trazem muitos motivos para comemoração, mas sim para refletirmos profundamente sobre o caminho gigante a percorrer, sobre as lutas a serem travadas e as mudanças a serem alcançadas.
Na realidade das mulheres negras a discriminação de gênero e a discriminação racial operam juntas. É a chamada interseccionalidade fazendo com que a mesma pessoa seja atravessada por mais de uma vulnerabilidade e sofra maior limitação nas suas chances de sucesso. Resumindo: se as mulheres, em geral, enfrentam tantas dificuldades e desafios, isso tudo é potencializado em relação às mulheres negras.

A ativista e professora de Direito da Universidade da Califórnia e da Universidade de Colúmbia, Kim Crenshaw, em seu artigo “A interseccionalidade na Discriminação de Raça e Gênero”, ilustra essa sobreposição de discriminações ao relatar o caso das mulheres negras nos Estados Unidos que processaram a General Motors que se recusava a contratá-las. Crenshaw conta que, na empresa, até havia empregos para negros, mas somente para os homens e nos postos das linhas de montagem; por outro lado, os empregos disponíveis para as mulheres eram nos escritórios e, naquele local, as negras eram consideradas inadequadas e, portanto, não tinham qualquer chance de trabalho.

Como consequência dessa combinação e entrelaçamento das discriminações de raça e gênero, os dados da violência são cruéis: se a taxa de feminicídio contra as mulheres não negras é de 3,1 por 100 mil brasileiras, a das mulheres negras é de 5,3 por cem mil brasileiras; ainda, as pessoas negras são 54% entre as vítimas de estupro, enquanto as brancas são 34,3% (Atlas da Violência 2018). Há ainda que se destacar que, segundo o Ministério da Saúde, 60% (sessenta por cento) das mulheres vítimas de morte materna são negras e são elas também quem sofrem mais violência obstétrica, recebendo, por exemplo, menos anestesia no parto sob a máxima racista de que a mulher negra é mais forte. É fato, portanto, que o elemento racismo sujeita essas vidas a muito mais agressões e fingir que não existe o preconceito racial silencia as vivências dessas mulheres e suas necessidades.

O Dia da Mulher Negra é um dia que representa a luta contra as opressões sofridas e, seguindo a mestre em filosofia política, Djamila Ribeiro, que diz que não é preciso ser negra (o) para falar de racismo, bastando fazer isso a partir do seu lugar de fala, também acredito que nesse dia cabe a nós mulheres brancas, que até bradamos contra as desigualdades raciais, questionarmos se de fato temos contribuído para a mudança desse cenário.

Não dá mais para bater no peito com orgulho e dizer que é contra o preconceito racial escorando-se no fato de que uma, dentre as vinte amigas, é negra. Não dá mais para citar a única colega negra na sala de aula da universidade na tentativa de se convencer de que a cor da pele não é empecilho e que qualquer um pode alcançar o sucesso. Não dá mais para dizer que a mulher negra na novela é bem bonita haja vista ter até traços finos. Não dá mais para aceitar piadas ou comercial de televisão que só fazem objetificar o corpo da mulher negra. Não dá mais. É preciso enxergar esse racismo estrutural e estruturante que tudo permeia, entender que todas as pessoas, inclusive nós, somos parte do problema e da solução e, a partir daí, modificar práticas e pensamentos viciados que, mesmo inconscientemente, exalam discriminação. Isso sim é ser anti-racista!

(*) Thais Dominato de Defesa Silva Teixeira – coordenadora do Núcleo Institucional de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher. 

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