Dourados precisa ouvir as mulheres
Num sábado à noite, no interior de Mato Grosso do Sul, sobem ao palco três mulheres com um show intitulado “Elas Cantam: Insurgência”: Ana Paula Lopes, Lumacê e Hindyra. Cantoras já conhecidas na noite douradense, exploram não só um repertório musical de excelente qualidade, mas também tocam em pontos centrais da realidade das mulheres na cidade de Dourados.
Nesta semana, o Senado aprovou o projeto de lei que equipara a misoginia ao crime de racismo. Retomo com vocês o significado de misoginia: “sentimento de repulsa, ódio ou aversão às mulheres”. Nosso estado é um dos com maior taxa de feminicídio do país, e destaco que o feminicídio é o último estágio da violência; antes dele, existe todo um arcabouço de formas de violência contra a mulher que, no limite, interrompem a vida das mulheres.
Escrevo este texto porque fui profundamente afetada pela apresentação. O show começa com “Olhos Coloridos”, música inicialmente interpretada por Sandra de Sá, mas agora, recebe uma nova versão no palco, o repertório transita por clássicos do samba, do rock e da música popular brasileira.
É notória a adesão do público, principalmente das mulheres, em um ambiente que preciso classificar como “alternativo” nos parâmetros da cultura sul-mato-grossense. No decorrer da apresentação, outras mulheres são convidadas a compartilhar o palco, que, na minha avaliação,se constrói como um manifesto musical em defesa das mulheres.
Infelizmente, sabemos que Dourados não é uma cidade segura para as mulheres, seja durante a semana, quando exercemos nossas principais atividades de trabalho, e muito menos durante a noite, horário que decorrem as principais atividades culturais da cidade.
Destaco aqui, principalmente, as falhas no planejamento urbano: um transporte público muito restrito e uma iluminação pública que deixa a desejar em várias regiões. Ou seja, ocupar a cidade num sábado à noite não é seguro para as mulheres. Entretanto, podemos dizer que existem brechas, pois, historicamente, as mulheres encontram alternativas para exercer o seu direito à cidade. Este sábado foi uma dessas brechas em meio a toda uma estrutura que não acolhe as mulheres.
Culturalmente, Dourados e as demais cidades do estado consomem um estilo musical que não podemos classificar como “alternativo”. O sertanejo universitário toca desde os menores bares até as maiores casas de show e grandes eventos musicais. Ter a oportunidade de ouvir outros estilos musicais numa cidade como a nossa é muito restrito, e mais restrito ainda é um palco com três cantoras mulheres.
Além dos palcos, tenho alegria em saber que essas mulheres também sempre estiveram nas ruas. A participação política em atos e manifestações em defesa da vida das mulheres (em que tenho a felicidade de muitas vezes ter caminhado ao lado delas) também é parte essencial de suas trajetórias.
Para finalizar, retomo o belíssimo show “Elas Cantam”, em seu encerramento com a música “Maria da Vila Matilde”, de Elza Soares. Se os ouvintes ainda não tinham compreendido, até aquele momento, que o show se tratava de um manifesto, é impossível ser mais incisivo. A música, já conhecida, traz em vários momentos o 180, número para a realização de denúncias de violência contra as mulheres. As falas, entremeadas com a música, são de alerta às mulheres sobre os tipos de violência e a necessidade de romper com relações abusivas.
Mas o que destaco, já que o público não era composto apenas por mulheres, são as falas direcionadas aos homens: um chamado para juntos lutarmos contra a violência de gênero.
Assim, novamente escrevo: escutem as mulheres de Dourados, com alegria, as que cantam; e com atenção, as que gritam por uma cidade mais segura, com menos violência, machismo e misoginia.
(*) Iara Cardoso é Professora de Geografia e Pesquisadora em nível de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Grande Dourados, na linha de Políticas Públicas, Dinâmicas Produtivas e da Natureza.
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