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Beba das Crônicas

Ensaio sobre o frio medonho e os invernos de Virgínia e Machado

Por André Alvez (*) | 03/07/2021 21:37

Escrevo essa crônica numa noite muito fria e meus pensamentos navegam por invernos idos, nos tempos de Virgínia e Machado.

Talvez seja o meu franco niilismo que vos fala, porque o frio provoca em mim a mesma reação do mar diante da lua cheia: Inquietação, incômodo, raiva. Também me faz divagar entre estrelas, coisas sem lugar, rostos sem nomes, casos do acaso, a poeta, o escritor, o frio engolindo a chama do calor. Deu nessa rima fraca e não intencional que não apagarei, porque no inverno sinto preguiça só de pensar.

Do frio, guardo boa lembrança do bolinho de chuva que fazia minha mãe nos invernos da infância.

No agora, somente o leite quente com achocolatado, já na metade do copo, acima da mesa, ao lado do computador, me apraz.

As últimas palavras de Machado de Assis foram: “A vida é boa.” Morreu na primavera, entrando para o verão. Lá fora (dizem) passeava no céu o Sol levemente coberto de nuvens, jorrando raios de calor por todo o Cosme Velho. E como o sopro do vento não era gelado, teve gente que ouviu cânticos de anjos. Tivesse o bruxo morrido num dia de inverno, o velório seria composto de pessoas tremendo de frio, donzelas e senhoras perdidas em casacos de couro cheirando a mofo, espalhando ácaros entre as narinas alheias, provocando espirros, corizas. As lágrimas congeladas, rogando o desejo de escorrer pelos rostos tristes, findariam em lágrimas frias, indiferentes à dor, omissas ao real sentimento de luto pela perda do magistral escritor.

No entanto, Machado morreu feito Brás Cubas, o rosto coberto pelo emplasto curtido ao sol, atento a cada lágrima calorosa, a cada choro profundo, um defunto especial, velado num dia de calor.

Mais um gole de leite achocolatado e um pensamento me percorre: não fosse o frio, não existiriam fogueiras. E a ilação é inevitável: durante a inquisição, os hereges eram atirados às fogueiras. Por que tamanha crueldade? Tenho uma teoria: Torquemada e seus asseclas sentiam frio, um frio tão medonho que somente o fogo engolindo gente podia abrandar.

E as bruxas gargalhavam porque não temiam a morte e carregavam a certeza: cobertas pelas labaredas, o fim era breve e quente.

Pego o copo do leite achocolatado e o devolvo à mesa sem beber, outra certeza me ocorre, os nove círculos do inferno de Dante são feitos de gelo. Acho que li isso em algum lugar, não sei se é certo, mas concordo.

Calor humano e frieza da alma são frases incongruentes, mas desenham perfeitamente o meu pensamento.

Enquanto o frio perdura, me ocorre o gelo de uma tristeza: Virgínia Woolf não usava casacos, sentia pena do bicho morto, o mofo do couro lhe causava alergias terríveis e o aperto no corpo a incomodava. Em noites frias e caladas, paralisava os movimentos e seus olhos se perdiam no céu à procura de algo inexplicável. Era coisa complexa, olhar de tristeza, sentimentos invisíveis. Alguns dirão que é inquietação de poeta, eu acho que apenas sentia frio.

Outra rima tola me ocorre: tanto frio, tanto mar, águas que correm pelo leito do Rio para não congelar. Pobre Virgínia, buscava incessantemente abrandar a dor inexplicável de sua alma e num dia de frio intenso resolveu vestir um casaco longo, encheu os bolsos de pedras e entrou no Rio Ouse. E assim findou o seu frio, acabaram-se as tormentas de ventos gelados de quase sempre, morreu sorrindo, os olhos voltados para o céu imenso onde o sol lhe abraçava. (Oh céus, deixa eu corrigir isso aqui) Não foi assim, o final de quem tira a própria vida é triste e frio, o corpo de Virgínia demorou semanas para ser encontrado, quando conseguiram, a visão era de uma pedra de gelo dos olhos arregalados entre árvores esgalhadas. “A vida é como um sonho, é o acordar que nos mata”, escreveu certa vez.  Prefiro a certeza final de Machado de Assis, com um pequeno acréscimo: a vida é bela, é o frio que as vezes a estraga.

Balanço a cabeça e a cena se apaga, mas a inquietude do frio permanece.

Meu queixo treme e não existe um chiclete na boca, devolvo à mesa com os dedos trêmulos o copo de achocolatado após um gole seco.

O Sol, o velho amigo Sol, é dele que sinto falta. Talvez mais tarde, quando resolver sair da cama quente, colocarei o nariz para fora da janela por um breve instante, olharei para o nada feito Virgínia Woolf, sem pedras no casaco porque sei que meu tormento é breve. Então gritarei ao frio todo o meu enfezo, rosto sério, a voz firme: vá embora, procure um lugar chamado inferno (talvez exista), procure por lá um sujeito chamado Satanás, se enfie entre seus cornos e fique por lá para sempre.

Por hoje chega, meus dedos congelam e o resto do leite achocolatado perdeu a graça no último gole, já frio, desabando sem apegos pela minha garganta congelada.

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