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Campo Grande, Segunda-feira, 26 de Junho de 2017

18/06/2015 10:20

Entrou água do Aquário

Por Pedro Spíndola (*)

Não como, nem onde precisava: nos 24 grandes tanques que abrigariam os peixe. Entrou água no empreendimento como um todo.

A situação caótica a que chegou o Aquário do Pantanal é digna de preocupação e merece providências urgentes, para que o prejuizo não seja maior do que já está ocorrendo.

A obra, cuja previsão inicial de gastos era R$ 87 milhões, deve atingir R$ 230 e, segundo o atual governador, não há previsão para a inauguração do Aquário. Fala-se que deverá ser no 2º semestre de 2016.

O governo passado protelou por três vezes a inauguração. Prometida inicialmente para outubro de 2013, foi sendo adiada; terminou o governo e nada aconteceu. Ficou a informação que tudo estava pronto para acontecer em poucos dias. Não estava. Não era verdade, mas parecia que sim. Uma empresa foi escolhida – mediante licitação – e contratada - para promover a gestão do empreendimento. Até agora não está atuando pois não há o que gerir.

Foram comprados, extemporâneamente, 11 mil e tantos peixes, a preço de ouro, que foram confinados em grandes caixas d’água plásticas, na sede da Polícia Ambiental, dentro do Parque das Nações Indígenas, com uma lotação superior ao recomendado, sendo alimentados com ração, configurando-se em uma prática absolutamente fora dos padrões técnicos mínimos recomendados. Fosse feita pela iniciativa privada, os órgãos de fiscalização e controle ambiental jamais aprovariam.

Veio o frio e mais de 10 mil peixes morreram: 83%. O que não poderia ter acontecido, de forma nehuma. O mais inexperiente aquarista amador sabe que na época do frio a água de todo aquário tem que ser aquecida. O que deveria ter sido feito nos “aquários” improvisados, que o governo anterior utilizou. Falaram que os peixes foram acometidos por fungos, o que também não é admisível, não morreriam todos assim de repente. Existe prevenção e existem tratamentos. A vida não aceita improvisos.

Sabendo-se que a inauguração não ocorreria tão cedo, estes 11 mil peixes não poderiam ter sido adquiridos. Nem deveriam...

Em sua concepção original, apresentada a mais de 20 anos atrás, os peixes das 248 espécies do pantanal deveriam seriam capturados na natureza, por equipes especializadas compostas por técnicos do governo e das universidade, oportunidade em que o trabalho seria amplamente aproveitado para produzir documentários sobre os peixes em sí e sobre os ambientes da coleta: rios, córregos, corixos e lagoas. Só de rios e córregos são mais de 170, que seriam devidamente identificados, documentados e georeferenciados. Os canais de TV que exibem documentários científicos, nos mostram peixes e ambientes do mundo inteiro entretanto, quase nada temos disponível sobre a ictiofauna e os ricos ambientes pantaneiros.

O procedimento correto seria, uma vez capturados, esses exemplares de peixes aqui capturados não poderiam, sob o ponto de vista científico, em hipótese alguma, ir diretamente para os tanques do Aquário. É o princípio mais elementar para o manejo de espécies capturadas na natureza.

Teriam que permanecer em quarentena, em uma extensão rural, prevista na ideia original do aquário. Nela, além de vários tanques para acomodar e observar os peixes, também seriam produzidos diversos alimentos: vegetais, frutas convencionais e silvestres, minhocas, e pequenos peixes forrageiros.

Esta extensão chegou a existir, viabilizada através de um convênio celebrado com a Prefeitura Municipal de Campo Grande, que cedeu uma área na Escola Agrícola das Três Barras para esta finalidade.

O governo anterior sempre bateu na tecla e prometia que o aquário “vai contar com o maior laboratório do Brasil para estudos e pesquisas envolvendo peixes do ecossistema regional, tornando-se referência internacional de pesquisadores e cientistas. Materiais analisados nos peixes e na vegetação poderão ser transformados em medicamentos e cosméticos".

Além disso, "ele dará condições de aprofundar o conhecimento e assegurar a integridade da fauna e flora presentes na região pantaneira” e que “o manejo das espécies em exposição deverá ser objeto de estudo e pesquisa constante no Aquário do Pantanal, que servirá como um grande laboratório vivo para maior entendimento sobre a biologia e ecologia da fauna e flora do Pantanal”. Na disso aconteceu e tem pouca probabilidade de acontecer. A empresa ganhadora da concessão para gerir o aquário só vai cuidar da bilheteria. Não investirão em pesquisa científica. Isso é papel de governo.

Chegou-se a cogitar na criação de um instituto ou fundação para cuidar do aquário como um todo. Com o volume de dinheiro gasto até hoje, seria possível.

(*) Pedro Spindola é técnico agrícola e jornalista
psspindola@gmail.com

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