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Campo Grande, Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017

12/08/2017 08:50

O brincar como cultura

Por Kelli Darliane Rodrigues da Silva (*)

Poucas coisas dão tanto sentido as vivências e experiências infantis quanto a brincadeira. É uma pena que os adultos percam essa conexão com a própria essência, pois quando perdemos a capacidade de brincar infelizmente perdemos esse fio condutor e deixamos de aprofundar o ser humano que existe em cada um.

É necessário que possamos refletir sobre a fragilidade dos vínculos de relação com as pessoas no contexto contemporâneo. Estamos ocupados demais, praticamente o tempo todo e acabamos não dando a devida importância ao cultivo e cuidado do ser e estar nessa avalanche de coisas por fazer. Basta observar alguns minutos para que possamos perceber nossas crianças muito sozinhas, privadas das relações, da riqueza e da beleza que a vida contém, se olharmos mais atentamente, vamos constatar que nós também ficamos sozinhos em meio à multidão. Estamos aprisionados na superficialidade de tudo. É urgente resgatar a vida humana aprisionada, fortalecendo relações, sendo presença, participando da vida de nossas crianças e permitindo que elas sejam presença em nossas vidas. Convivência, tempo, disponibilidade, desejo, pertencimento, diálogo, investimento, presença, ser e estar!

Como se aproxima o dia dos pais essa reflexão é ainda mais inquietante e pertinente. Qual lugar e qual o papel que um pai ocupa na vida de uma criança? Como se torna pai no sentido mais profundo da palavra? Qual a importância da presença de um pai na vida desse ser que está construindo a sua identidade? Mais uma vez voltamos a importância das relações.

A vida é um grande laboratório de reflexões e de vínculos, e isso não acontece de forma isolada, nos construímos nas nossas relações. Quando brincamos com a criança possibilitamos a ela dar forma as suas ideias, fantasias, medos, enfim estabelecemos a possibilidade de compreensão do cotidiano de forma lúdica. Isso além de essencial é estruturante para a construção da identidade do sujeito, que brincando experimenta a vida que o cerca. De maneira vivencial quem brinca explora uma diversidade infinita de possibilidades, emoções, sensações, objetos, natureza, constrói laços de cumplicidade com quem está com ela dando sentido a essa experiência. Pais possibilitem a experiência! Façam investimento na relação com seus filhos!

Que cada pai, mãe ou adulto que cuide da criança possa retomar o lugar de herói / heroína para seus filhos. Aquele lugar insubstituível e fantástico que ocupa o imaginário infantil. Para isso é necessário possibilitar a experiência! Dedicar tempo e tempo de qualidade. Aventurem-se nessa incrível, fascinante descoberta e aprendizagem.

Dessa forma entendo que o brincar é uma possibilidade de manifestação, é a linguagem universal das infâncias, da cultura infantil e porque não, da cultura humana. Temos deixado essa cultura no subterrâneo, porque vivemos um momento de repressão do brincar com nossa correria cotidiana. Mas, a partir do momento que libertarmos a criança aprisionada dentro de nós poderemos retomar a conexão com a nossa essência, com a nossa existência trazendo mais sentido para o palco de nossas vidas e de nossas relações, carregando de afeto nosso dia-a-dia e nos constituindo como sujeitos capazes de estabelecer relações profundamente humanas.

(*) Kelli Darliane Rodrigues da Silva é diretora do Centro Educacional Marista Champagnat (Cascavel), do Grupo Marista. Pedagoga e especialista em Educação na primeira infância.

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