ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
AGOSTO, DOMINGO  16    CAMPO GRANDE 23º

Artigos

A transição energética não deveria ser um balcão de negócios

Por Flávia Collaço (*) | 16/08/2026 08:30

As mudanças climáticas constituem o maior desafio coletivo do nosso tempo. Enfrentá-las requer uma profunda transformação da forma como produzimos, consumimos e nos relacionamos com a energia, com os territórios e com os recursos naturais. Trata-se de uma transição que é, simultaneamente, tecnológica, política, econômica, institucional, cultural e cidadã. Mais do que substituir fontes de energia, significa redefinir prioridades, redistribuir benefícios e riscos, fortalecer a participação social e construir modelos de desenvolvimento compatíveis com os limites ecológicos do planeta e com a promoção da justiça social.

Entretanto, basta entrar em um congresso, seminário ou feira sobre transição energética para perceber um deslocamento do discurso… Em vez de um debate orientado para política e soberania energética, encontramos estandes, rodadas de investimento, prospecção de mercados e disputas por oportunidades econômicas. Em muitos momentos, parece que houve um pequeno erro de digitação no conceito: deixamos de discutir a transição energética para celebrar investimentos e negócios da transação energética (aqui faço menção honrosa e saudosa ao querido professor Célio Bermann, que nos deixou em janeiro de 2026).

Essa não é apenas uma provocação semântica. É um diagnóstico. O Brasil tornou-se um dos principais símbolos mundiais da expansão das energias renováveis. Nossa matriz elétrica figura entre as mais “limpas” do planeta, com a geração eólica e solar crescendo em ritmo acelerado. No entanto, são muitas as contradições que um observador mais atento pode notar ao analisar nosso modelo energético por meio da confrontação de poucos dados…

A história do setor elétrico brasileiro demonstra isso com clareza. A construção do Sistema Interligado Nacional foi de uma sagacidade e projeto político impressionantes, chegando a 99% dos brasileiros, mas, ao mesmo tempo, foi sustentada por grandes hidrelétricas que deslocaram comunidades, inundaram patrimônios culturais, alteraram ecossistemas inteiros e produziram conflitos sociais que permanecem até hoje. Mas os paradoxos não pararam no passado.

Nunca produzimos tanta eletricidade a partir do vento e do Sol. Mas também nunca desperdiçamos tanta energia. A expansão acelerada das fontes renováveis intermitentes tem tornado o sistema progressivamente mais vulnerável. Em 2026, o País já descartou volumes de geração renovável equivalentes à produção anual de Itaipu. Ainda assim, o Brasil assiste ao crescimento da pobreza energética justamente entre aqueles que deveriam ser os principais beneficiários dessa expansão. Hoje, mais de 82 milhões de brasileiros estão inadimplentes, e as despesas com energia elétrica, água e gás respondem por aproximadamente 21% das dívidas em atraso. O paradoxo é evidente: produzimos mais energia do que nunca, mas ela permanece cada vez menos acessível para uma parcela significativa da população. A pergunta torna-se inevitável: transição energética para quem?

Se a expansão da infraestrutura energética não se traduz em redução das desigualdades, em acesso universal à energia de qualidade, em tarifas mais acessíveis e em melhoria das condições de vida, talvez seja necessário perguntar se estamos transformando o sistema energético ou apenas ampliando seus mercados.

A crescente corrida para atrair data centers ilustra esse dilema. Essas infraestruturas demandam enormes quantidades de eletricidade e água, justamente em um contexto de crescente insegurança hídrica provocada pelas mudanças climáticas. Energia pode ser produzida de diferentes formas; água doce, porém, continua sendo um recurso finito e reconhecido internacionalmente como um direito humano. É legítimo perguntar quais prioridades estão orientando o planejamento energético nacional e quais interesses ocupam o centro dessa agenda.

O problema talvez não seja apenas tecnológico, mas imaginativo. E aqui a universidade tem um papel muito importante: o de produzir conhecimento, crítica e utopias!

Grande parte dos cenários de transição energética parte do pressuposto de que basta substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis para que o futuro seja automaticamente mais sustentável. Mas uma verdadeira transição não consiste apenas em trocar a origem da eletricidade. Ela pressupõe transformar as relações entre energia, território, economia e sociedade. Pressupõe perguntar não apenas como produzimos energia, mas para quê, para quem e sob quais custos sociais e ambientais.

Em outras palavras, talvez nos falte diversidade de imaginários sobre o futuro energético.

(*) Flávia Collaço, professora da Escola de Engenharia de São Carlos da USP (Universidade de São Paulo).

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.