A mudança é irritante, mas a certeza é absurda
Voltaire escreveu essa frase como quem acende uma vela num quarto cheio de espelhos. A luz não serve para mostrar apenas o rosto dos outros; serve, sobretudo, para revelar as sombras que insistimos em chamar de verdades.
Mudar irrita porque desmonta a mobília da alma. O ser humano gosta de reconhecer o caminho mesmo no escuro. Há conforto nas repetições: as mesmas opiniões, os mesmos hábitos, os mesmos julgamentos servidos no café da manhã como se fossem pão quente. A mudança chega sem pedir licença. Troca os móveis de lugar, abre janelas que estavam fechadas havia anos, faz corrente de ar onde antes havia apenas poeira acomodada. É natural que incomode. Crescer sempre arranha um pouco a pele antiga.
O problema não está no incômodo da mudança. O problema começa quando transformamos esse incômodo em trincheira e passamos a defender nossas certezas como soldados cansados demais para voltar para casa.
A certeza absoluta é uma espécie de arrogância silenciosa. Ela não grita necessariamente. Muitas vezes fala baixo, com voz educada, mas carrega dentro de si uma convicção perigosa: a de que já compreendeu o mundo por inteiro. E compreender o mundo por inteiro é uma pretensão desumana. Somos criaturas atravessadas por limites, por experiências incompletas, por memórias que deformam os fatos, por emoções que pintam de vermelho o que talvez fosse apenas cinza.
Quem tem certeza de tudo não escuta — espera apenas a sua vez de falar. Não conversa — corrige. Não encontra pessoas — classifica. A certeza excessiva transforma o outro em erro ambulante.
Há uma ignorância particularmente sofisticada: a ignorância de quem leu muito, viveu bastante, sofreu intensamente e, por isso mesmo, acredita que sua experiência basta para medir todas as outras. Mas nenhuma dor individual é régua universal. Nenhum amor vivido explica todos os amores. Nenhuma fé alcança todos os mistérios. O mundo é vasto demais para caber na biografia de uma única pessoa.
Talvez por isso os verdadeiramente sábios sejam frequentemente atravessados pela dúvida. Não aquela dúvida paralisante que impede a vida, mas a dúvida humilde que mantém as janelas abertas. Só quem admite não saber completamente continua aprendendo. Só quem aceita a possibilidade de estar errado consegue enxergar nuances onde os dogmáticos enxergam apenas inimigos.
É curioso observar como as pessoas mais rígidas costumam ser também as mais frágeis diante da mudança. Defendem suas certezas com a violência de quem teme que uma única pergunta seja capaz de derrubar o edifício inteiro. E às vezes é mesmo. Há convicções construídas sobre alicerces tão estreitos que não suportam o peso de uma conversa honesta.
A vida, no entanto, é especialista em desmentidos.
Ela desmente o jovem que jurava nunca perdoar. Desmente a mulher que acreditava conhecer perfeitamente o homem que dormia ao seu lado. Desmente o pai que tinha certeza sobre o futuro do filho. Desmente o ateu e desmente o religioso. Desmente os apaixonados e os indiferentes. O tempo possui uma elegância cruel: ele não discute conosco, apenas continua passando até que nossas certezas envelheçam.
E envelhecem.
Algumas se tornam lembranças constrangedoras. Outras viram feridas. Outras, felizmente, transformam-se em sabedoria — porque tivemos coragem de abandoná-las quando já não serviam mais.
Mudar de ideia exige uma coragem que raramente recebe aplausos. O mundo admira quem sustenta opiniões com firmeza, mas deveria admirar também quem reconhece: “eu estava errado”. Há uma grandeza silenciosa nesse gesto. É preciso desmontar o próprio orgulho tijolo por tijolo. É preciso suportar o olhar dos que confundem coerência com imobilidade.
Mas coerente não é quem nunca muda. Coerente é quem continua fiel à busca da verdade, mesmo quando essa busca o obriga a abandonar antigas convicções.
A natureza inteira parece compreender isso melhor do que nós. As árvores perdem folhas sem considerar o outono uma humilhação. Os rios mudam de curso quando encontram obstáculos. O mar nunca repete exatamente a mesma onda. Só o ser humano insiste em tratar a transformação como fracasso.
Talvez porque mudar nos lembre da nossa incompletude.
E somos incompletos. Profundamente.
Carregamos dentro de nós versões sucessivas de quem fomos. A pessoa que você era aos vinte anos talvez estranhasse suas ideias de hoje. E isso não deveria causar vergonha, mas alívio. Significa que a vida aconteceu. Significa que encontros, perdas, leituras, amores e dores deixaram marcas suficientes para modificar alguma coisa em você.
Pior seria permanecer intacto.
Há quem atravesse décadas sem revisar um único preconceito, uma única opinião, uma única certeza sobre os outros ou sobre si mesmo. Essas pessoas parecem estátuas: sólidas, imponentes, admiradas à distância. Mas estátuas não florescem. Não aprendem. Não amam melhor aos setenta do que amavam aos trinta.
A dúvida, ao contrário, é fértil. Ela faz perguntas. E perguntas são sementes.
“E se eu estiver vendo apenas uma parte?”
“E se a história do outro tiver capítulos que desconheço?”
“E se minha verdade for apenas uma verdade possível entre tantas outras?”
“E se eu puder compreender mais?”
Essas perguntas não enfraquecem o pensamento; elas o humanizam.
Voltaire talvez soubesse que a maior ameaça à convivência humana não é a divergência, mas a convicção absoluta. Guerras começaram porque alguém tinha certeza de possuir a única verdade legítima. Famílias se romperam porque alguém acreditou conhecer completamente o coração do outro. Amores morreram sufocados pela incapacidade de admitir que sentimentos mudam, pessoas mudam, necessidades mudam.
A mudança irrita porque exige movimento. A certeza é absurda porque exige impossibilidade.
Ninguém consegue olhar o mundo de todos os ângulos. Somos observadores parciais tentando compreender um universo excessivamente complexo. Reconhecer isso não nos torna fracos; torna-nos humanos.
Talvez a maturidade não consista em acumular certezas, mas em aprender a conviver com perguntas sem perder a ternura. Talvez a verdadeira inteligência seja a capacidade de sustentar convicções provisórias, fortes o suficiente para orientar a vida, mas leves o bastante para serem revistas quando a realidade pedir passagem.
No fim, o que permanece não é a rigidez das nossas opiniões, mas a qualidade da nossa escuta. O mundo muda todos os dias: mudam as pessoas que amamos, mudam nossos corpos, mudam nossos medos, mudam até as palavras com que tentamos explicar tudo isso.
Resistir à mudança é como tentar segurar água com as mãos fechadas.
Por isso, entre o desconforto de mudar e a arrogância de ter certeza absoluta, talvez seja mais sábio escolher o desconforto. Ele dói menos do que a ignorância vestida de verdade definitiva. Ele nos mantém vivos, atentos, porosos ao mistério que é existir.
A mudança pode irritar porque bagunça a casa. Mas a certeza absoluta é absurda porque tranca as portas, apaga as luzes e nos faz acreditar, ingenuamente, que o pequeno quarto onde estamos é o próprio universo.
(*) Cristiane Lang é psicóloga.
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