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O Espelho que Ninguém Quer Ver

Por Gillianno Mazzetto (*) | 16/04/2026 18:40

Caro(a) conviva,

O ser humano não é tão corajoso quanto pensa. Somos, na maior parte do tempo, fugitivos elegantes, pessoas que desenvolveram, ao longo da vida, uma habilidade rara e sofisticada: a arte de não ver o que está bem diante dos olhos.

A verdade não se esconde. Ela não some. Ela simplesmente espera, com a paciência irritante de quem sabe que vai vencer. Somos nós que desviamos.

Em muitos momentos da minha vida e da vida dos meus próximos vi cenas como está. Construí explicações engenhosas para situações que, no fundo, eu já entendia na primeira olhada. Transformava evidências em dúvidas, sinais em coincidências, e silêncios ensurdecedores em "talvez ele esteja só cansado".

Era um trabalho artesanal. Quase uma obra de arte. Levantava todas as manhãs e, com a destreza de um curador experiente, retirava da parede o espelho e colocava no lugar uma paisagem mais bonita. Paisagem bonita, acalentadora, verossímil, até convincente. Mas embebida em falsidade.

E aí me vem à mente Platão que, lá no século IV a.C., já havia diagnosticado isso. Na alegoria da caverna, ele nos apresenta prisioneiros acorrentados desde o nascimento, de costas para a luz, contemplando sombras projetadas na parede e chamando aquilo de realidade. O detalhe que paralisa não é a escuridão da caverna. É o que acontece quando um dos prisioneiros é solto, forçado a girar o rosto para a luz, e finalmente ver.

Ele sofre. A clareza dói. Os olhos, acostumados à penumbra confortável, recusam o brilho. E o detalhe mais perturbador de todos: quando esse homem liberto volta para contar aos outros o que existe além, eles não acreditam nele. Preferem as sombras. Não por ignorância, mas por escolha. Platão escreveu isso há vinte e quatro séculos. E nós ainda vivemos na caverna, arrumando as cadeiras para ficar mais confortáveis.

José Saramago, milênios depois, pegou essa mesma caverna e a transformou em romance. No Ensaio sobre a Cegueira, uma epidemia misteriosa rouba a visão de todos, exceto de uma mulher que enxerga e prefere fingir que não vê, para sobreviver entre os cegos.

A cegueira, em Saramago, não é ausência de luz. É falta de coragem. Seus personagens não perdem os olhos, perdem a disposição de usar o que os olhos mostram. O mais perturbador não é a escuridão que cai sobre todos. É a penumbra que alguns escolhem, mesmo podendo ver.

Saramago e Platão se encontram exatamente aqui: a cegueira mais perigosa nunca foi a do homem que não enxerga. Foi sempre a do homem que enxerga e decide, com plena consciência, não ver.

Existe um mecanismo silencioso dentro de nós que trabalha em turnos. De dia, ele filtra. De noite, ele edita. Sua função é simples: apresentar ao consciente apenas a versão da realidade que não exige mudança imediata. É um serviço de proteção não solicitado, mas amplamente utilizado. Funciona assim: a verdade chega, bate à porta, e esse mecanismo gentilmente a recebe, serve um café, e a encaminha para uma sala de espera onde ela ficará indefinidamente.

Chamamos esse mecanismo de vários nomes. Esperança, às vezes. Otimismo, outras. Maturidade emocional, de forma equivocada, quando queremos soar mais sofisticados. Mas no fundo, quando a honestidade visita a madrugada, sabemos o nome certo. Chama-se medo.

Fernando Pessoa, ou melhor, Bernardo Soares, seu heterônimo mais confessional, escreveu no Livro do Desassossego algo que carrego comigo como um espinho: "Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Há uma lucidez feroz nessa frase. Soares via. Via com uma nitidez quase insuportável. E ainda assim escolhia a névoa de Lisboa, o escritório entediante, a meia existência sonhada em vez da inteira existência vivida. Não por fraqueza. Por uma espécie de pacto íntimo com a própria ilusão, a consciência de que a verdade plena talvez não caiba dentro de uma vida comum.

Pessoa entendeu o espelho melhor do que ninguém. E passou a vida inteira escrevendo sobre isso. E aqui está o ponto que me incomoda, e que, talvez, deva incomodar você também.

A ilusão não é apenas confortável. Ela é funcional. Ela nos permite continuar. Permite acordar, trabalhar, amar, planejar. Pois, se víssemos tudo com clareza cirúrgica o tempo todo, provavelmente entraríamos em colapso antes do almoço. A lucidez absoluta é insuportável lancinante. Por isso, há uma sabedoria cruel na parcialidade com que encaramos a realidade.

Entretanto, existe uma diferença fundamental, e devastadora, entre a ilusão que nos sustenta temporariamente e a ilusão que nos sequestra permanentemente. A primeira é uma tábua no mar. A segunda é um aquário que chamamos de oceano.

O espelho que ninguém quer ver não está quebrado. Não está sujo. Não está escondido num porão empoeirado. Ele está ali, na parede da sala, limpo, bem iluminado, refletindo com precisão desconcertante. O que fazemos com ele?

Passamos na frente apressados. Olhamos de relance, apenas o suficiente para arrumar o cabelo, ajustar a gravata, confirmar que a aparência está razoável. Nunca paramos de verdade. Nunca ficamos tempo suficiente para ver além da superfície. Porque além da superfície está a pergunta que não queremos responder.

Não estou falando de autocomiseração. Nem de terapia. Estou falando de um ato simples e aterrorizante que pouquíssimas pessoas praticam mais de uma ou duas vezes na vida: o ato de olhar para si mesmo sem a misericórdia da narrativa pessoal. Sem o advogado interno que já preparou a defesa antes mesmo da acusação ser feita. Sem o roteirista que reescreve as cenas para que o protagonista sempre saia bem. Apenas você. E o que de fato existe.

Pergunto, então, a queima roupa:

Quantas verdades você está deixando na sala de espera?

Qual relacionamento, qual escolha, qual direção de vida está sendo mantida viva por uma ficção cuidadosamente nutrida? Não por mal. Não por covardia barata. Mas por aquele medo específico e humano demais de que, se a ilusão cair, não sobre nada digno de continuar. Essa é a questão.

A verdade avassaladora que evitamos raramente destrói. Ela desacomoda. Ela exige reposicionamento. Ela cobra o preço do crescimento, que nunca é gratuito e quase nunca é indolor. Mas o engano conveniente, esse, sim, destrói. Só que devagar. Com anestesia. Com a gentileza perversa de quem nos deixa dormir enquanto cobra os juros.

O espelho continua na parede.

Você passa por ele todos os dias.

A questão não é se vai olhar. A questão é por quanto tempo ainda vai fingir que não reconhece o rosto que aparece.

Pense nisso!

[ * ] Gillianno Mazzetto é filósofo e psicólogo

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.