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O que é uma cidade?

Por Marcos Buckeridge (*) | 28/04/2026 08:00

Quando pensamos em cidades, a imagem que surge é quase sempre a mesma: edifícios, ruas, carros, pessoas. Um conjunto de estruturas físicas que organiza a vida cotidiana. Essa imagem não está errada — mas é insuficiente. Ela descreve a forma, mas não o funcionamento. E é justamente nessa diferença, aparentemente simples, que reside um dos principais desafios do nosso tempo: estamos tentando resolver problemas urbanos sem compreender plenamente o que, de fato, é uma cidade.

Uma cidade não é apenas um espaço construído. É um sistema — e, mais precisamente, um sistema complexo, dinâmico e em constante transformação. Um sistema que integra fluxos de energia, água, materiais, informação e pessoas, organizados em redes interdependentes. Quando esses fluxos operam de forma equilibrada, a cidade funciona. Quando entram em descompasso, surgem os problemas que conhecemos bem — enchentes, ilhas de calor, poluição, desigualdade, colapso de infraestrutura.

Esse ponto marca um importante deslocamento conceitual. Em vez de olhar para a cidade como um conjunto de partes — transporte, energia, habitação, saneamento —, passamos a compreendê-la como um todo integrado, no qual as partes não existem isoladamente, mas em interação contínua. Essa mudança de perspectiva não é nova na ciência, mas ainda é pouco incorporada ao pensamento urbano e, sobretudo, às políticas públicas.

Uma forma particularmente poderosa de compreender essa complexidade é recorrer a uma analogia biológica. Não se trata apenas de uma metáfora didática, mas de uma ferramenta conceitual. Assim como os organismos vivos, as cidades possuem algo que podemos chamar de “fisiologia”: captam recursos do ambiente — energia, água, alimentos —, processam esses insumos e os transformam em serviços, bens e resíduos. Esse conjunto de processos constitui o que se convencionou chamar de metabolismo urbano.

Essa aproximação não é casual e, ao levá-la às últimas consequências, torna-se evidente uma diferença crucial. Ao colocar cidades e organismos no mesmo campo analítico, é possível identificar padrões de funcionamento que, de outra forma, permaneceriam dispersos. No entanto, há uma diferença — e é justamente nela que emerge um dos limites do modelo urbano contemporâneo. Enquanto os ecossistemas naturais operam predominantemente em ciclos semiabertos, com elevada capacidade de reciclagem, as cidades modernas funcionam, em grande parte, de forma linear: extraem, consomem e descartam resíduos de forma desproporcional.

Como o funcionamento das cidades depende diretamente da exploração dos sistemas naturais, essa desproporção na capacidade de reciclar resíduos constitui uma condição estrutural que exerce pressão constante sobre esses sistemas. E, ao mesmo tempo, revela uma fragilidade interna, pois sistemas desse tipo tendem a acumular desequilíbrios.

Ao pensar a cidade como um sistema que possui fisiologia e metabolismo, torna-se possível identificar um ponto central, frequentemente negligenciado: o equilíbrio entre entradas e saídas — ou, em termos mais precisos, entre o que a cidade consome e o que consegue processar.

Esse ponto é particularmente relevante porque desafia uma suposição amplamente difundida. Em geral, assume-se que aumentar a oferta de recursos — mais energia, mais água, mais infraestrutura — levará automaticamente a melhores condições de vida. Mas, em sistemas complexos, essa relação não é linear. Em muitos casos, o aumento de entradas apenas intensifica a pressão sobre sistemas que já operam próximos de seus limites. Na linguagem biológica, a entrada força o metabolismo e pode, inclusive, gerar resíduos tóxicos.

É aqui que emerge uma distinção fundamental: o desempenho de um sistema não é determinado apenas por sua capacidade de captar recursos, mas, sobretudo, por sua capacidade de processá-los.

Essa ideia nos aproxima novamente dos sistemas biológicos — e não por acaso. Em organismos vivos, o crescimento não depende apenas da assimilação de recursos, mas também da capacidade de integrá-los às estruturas funcionais. Quando essa integração falha, surgem desequilíbrios e, em casos extremos, o colapso do sistema. Nas cidades, ocorre algo semelhante. Em certos casos, quando a integração falha, o sistema entra em colapso, como ocorreu no desaparecimento da cidade de Mayapán, a capital dos maias, na península de Yucatán, por volta de 1450. Uma alteração climática comprometeu o sistema hídrico da cidade devido a uma seca severa. O sistema urbano de então, já frágil devido a problemas políticos, levou à dispersão da população e ao desaparecimento da cidade. Uma publicação recente na revista Nature, da qual participaram pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, demonstrou a natureza sistêmica deste episódio.

Ainda que o exemplo dos maias seja extremo, ele indica que fluxos mal distribuídos geram sobrecargas em determinados pontos e escassez em outros. Sistemas que não “conversam” entre si geram ineficiências estruturais. Decisões setoriais, tomadas isoladamente, frequentemente geram efeitos indesejados em outras partes do sistema.

Um exemplo simples ilustra essa dinâmica: a expansão do transporte urbano, quando dissociada do planejamento territorial, pode aumentar o consumo de energia e induzir a ocupações desordenadas. Da mesma forma, soluções voltadas apenas à drenagem podem resolver enchentes localmente, mas transferem o problema para outras regiões.

Esses efeitos são frequentemente descritos como externalidades. Mas, em sistemas complexos, vão além disso: são manifestações diretas de interdependência.

É nesse ponto que a noção de urbsistema se torna necessária. Um urbsistema pode ser entendido como um sistema integrado composto de múltiplos subsistemas — transporte, energia, água, saúde, alimentação, comunicação — que operam em rede. O funcionamento da cidade depende não apenas da eficiência de cada um desses componentes, mas, sobretudo, da qualidade das conexões entre eles.

Essa ideia não apenas sintetiza o argumento, mas também o reorganiza e reflete a forma como pensamos sobre soluções urbanas. Ela nos obriga a abandonar a busca por respostas isoladas para problemas complexos e a reconhecer que a sustentabilidade urbana não é um atributo de partes, mas do sistema como um todo.

Ao mesmo tempo, essa perspectiva revela uma ambiguidade central: as cidades são, simultaneamente, parte do problema e parte da solução. Por um lado, concentram o consumo de recursos, a geração de resíduos e as emissões de gases de efeito estufa. Por outro lado, concentram conhecimento, tecnologia, capacidade institucional e inovação. Essa dualidade as coloca no centro das grandes transformações contemporâneas.

Não por acaso, análises recentes convergem para a ideia de que as cidades são o principal ponto de convergência de múltiplas transições globais — urbanas, agrícolas, ecológicas e costeiras. É nelas que os impactos se manifestam com maior intensidade, mas também onde as soluções podem ser implementadas em maior escala e com mais rapidez.

No entanto, essa centralidade traz um desafio adicional. As cidades não são sistemas isolados. Elas dependem de fluxos que se estendem muito além de seus limites geográficos: alimentos vêm de outras regiões, a energia é gerada em sistemas distantes, materiais percorrem cadeias globais. Essa condição cria uma rede de interdependências que conecta territórios em escala planetária.

Assim, uma cidade pode parecer eficiente localmente e, ao mesmo tempo, gerar impactos significativos em outras regiões. Essa dissociação entre o local e o global dificulta a percepção dos limites ambientais e torna a gestão urbana ainda mais complexa.

Diante disso, compreender o que é uma cidade deixa de ser apenas um exercício conceitual e passa a ser uma condição para agir.

Se continuarmos tratando as cidades como conjuntos de objetos, tenderemos a propor soluções fragmentadas. Se passarmos a vê-las como sistemas — ou, mais precisamente, como urbsistemas —, abrimos a possibilidade de intervenções mais integradas e eficazes.

Mas há, ainda, uma dimensão frequentemente negligenciada nesse debate. As cidades não são apenas sistemas físicos ou funcionais. São também espaços de experiência, de pertencimento e de identidade. A forma como as pessoas se relacionam com a cidade influencia diretamente sua disposição para participar de processos de transformação.

Essa dimensão — que poderíamos chamar de afetiva — será explorada mais adiante. Por ora, basta reconhecer que os sistemas urbanos não são apenas redes de infraestrutura, mas também redes de significado.

Talvez o maior equívoco que cometemos ao pensar as cidades seja tratá-las como algo externo a nós, como se fossem estruturas que simplesmente habitamos. Na verdade, somos parte integrante desses sistemas. Participamos de seus fluxos, influenciamos suas dinâmicas e, ao mesmo tempo, somos moldados por elas.

Compreender isso muda a natureza da pergunta. Ela deixa de ser apenas “como a cidade funciona?” e passa a ser “como queremos que ela funcione?”.

Seja qual for a resposta, ela passa por reconhecer que a cidade não é um conjunto de estruturas, mas um urbsistema, e que, ao transformá-lo, transformamos também a nós mesmos.

(*)  Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da USP

 

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