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Open-air schools, écoles de plein air, escolas ao ar livre

Por Diana Vidal (*) | 06/08/2020 09:42

Após quatro meses de isolamento social, com suspensão das aulas presenciais da educação básica, alunos, pais, professores, gestores públicos e donos de estabelecimentos particulares discutem o possível retorno às escolas.

Os argumentos são os mais diversos e vão desde uma preocupação sincera com a aprendizagem de crianças e adolescentes à angústia com a inabilidade em substituir a prática docente no ambiente familiar, a necessidade de volta ao trabalho por parte de pais, mães e responsáveis ou a crise financeira das instituições privadas.

Da mesma forma, o receio de uma nova onda de contágio, disparada pelo convívio de milhões de alunos, e modelos matemáticos que estimam a possibilidade de morte de até 17 mil crianças e adolescentes, caso todas as escolas no País abram as portas a partir de agosto, geram ansiedade e dividem as opiniões.

Há pelo menos dez anos, a história da educação tem se sensibilizado por uma história das emoções, o que implica dizer que o dilema atual não é uma questão menor, mas um problema relevante, que precisa ser enfrentado com seriedade. Ao mesmo tempo, permite reconhecer, em episódios do passado educacional, situações que guardam similaridades.

Se voltamos no tempo em mais de 100 anos, vamos encontrar uma discussão correlata. Não me refiro à covid-19, uma novidade do século XXI, mas à tuberculose. Claro que podemos atentar para os ritmos diferentes da descoberta de vacinas. Enquanto a BCG iniciou sua aplicação apenas em 1921, e no Brasil em 1927, para resolver uma questão sanitária que se arrastava desde o século XIX, testemunhamos a viabilidade de uma vacina contra o coronavírus sendo desenvolvida em menos de um ano. No entanto, a angústia e ansiedade da sociedade, se não se igualam em termos de duração, guardam relação em termos de intensidade.

Enquanto a vacina não era encontrada e de modo a não alijar a população em idade escolar da frequência às escolas, uma iniciativa surgiu ainda em 1904, na Alemanha e na Bélgica: as écoles de plein air, que ficaram conhecidas nos países de língua inglesa como open-air schools, e, no Brasil, como escolas ao ar livre. O movimento repercutiu mundialmente e, em 1922, era realizado o I Congresso Internacional de Escolas ao Ar Livre, na cidade de Paris.

Nele, “a escola ao ar livre foi definida como uma instituição médico-pedagógica para crianças em idade escolar que deveria conciliar as necessidades orgânicas daquelas em estado de saúde mais frágil com a necessidade de instrução, adotando-se uma categorização em quatro termos: aulas ao ar livre, escolas ao ar livre tipo externatos, escolas ao ar livre tipo internatos e preventórios”, como explica o pesquisador André Dalben em artigo publicado na Educação em Revista, em 2019.

A proposta respondia à inquietudes de sanitaristas e educadores engajados com movimentos anarquistas e socialistas, que identificavam nas condições frequentemente deploráveis de vida das classes populares em grandes cidades a causa do recrudescimento de doenças e da alta taxa de mortalidade infantil. Simultaneamente, coadunava-se com pregações da Escola Nova, principalmente no que concernia ao contato com a natureza e o rural.

Nesse sentido, rapidamente foi incorporada ao repertório de escolanovistas em ações ocorridas em várias cidades do mundo, não necessariamente restritas ao que, na época, eram denominados débeis físicos e mentais; mas como uma solução que poderia atender a toda a população infantil, por oferecer oportunidade ao salutar exercício físico em associação ao desenvolvimento mental e intelectual, permitindo a formação integral do educando.

Algumas iniciativas foram implantadas no Brasil. No Rio de Janeiro, a Escola de Débeis, criada na Quinta da Boa Vista pela administração Fernando de Azevedo da Instrução Pública Municipal, entre 1927 e 1930, foi uma delas. Outra que assumiu a denominação corrente foi a Escola de Aplicação ao Ar Livre de São Paulo, instalada no Parque da Água Branca, em 1939. Era dividida em ensino pré-primário e primário. De sua estrutura, nos conta Dalben (2019), no mesmo artigo:

“A proposta era de proporcionar um ambiente educativo inovador, com muitos preceitos advindos dos movimentos escolanovistas. A professora da classe pré-primária teria a função de orientar e estimular as crianças para obter os conhecimentos a partir da observação, da experiência e de projetos desenvolvidos de acordo com os seus próprios interesses. Previa-se uma galeria de arte para expor os trabalhos desenvolvidos pelas crianças e o espaço para o cultivo de uma horta.

As histórias contadas pelas professoras poderiam servir de motivo para dramatizações. Já na classe primária, a ideia era de que, por se tratar de uma escola ao ar livre, o contato íntimo com as estruturas do parque poderia favorecer, a partir da observação, a aquisição de conhecimentos científicos sobre a natureza, sobre história e geografia. O ensino da aritmética e linguagem seria intercalado com trabalhos de expressão: desenho, pintura, modelagem, carpintaria e bordado”.

Para viabilizar essa relação com o exterior, as escolas ao ar livre valiam-se de um mobiliário versátil, constituído por cadeiras, mesas e lousas leves e portáteis. Os próprios alunos e professores carregavam os móveis e instalavam as classes embaixo de árvores ou onde achassem mais adequado ao que tinham como propósito de aprendizagem. As fotos remanescentes dessas experiências são encantadoras e nos convocam a pensar sobre formas de ensinar e aprender que extrapolam o continente das salas de aula.

Nessas imagens, não somos confrontados com o uso de máscaras e protetores faciais por parte de crianças, tampouco vemos placas de acrílico separando mesas como em fotografias recentes, veiculadas sobre as escolas particulares de Manaus.

Talvez estejamos tão apegados às soluções empresariais, pensadas para os adultos trabalhadores, que não possamos reconhecer a inadequação dessas medidas para os alunos dos anos iniciais da educação básica. Talvez os espaços escolares tenham se reduzido tanto que a unidade básica da classe apareça como única possibilidade de ensino presencial, impedindo-nos de explorar outros horizontes.

Mas, se várias pesquisas atuais apontam que o contágio da covid-19 é muito menor em espaços abertos, por que não considerar o ar livre como uma opção, não apenas para responder aos desafios do hoje, mas como uma via de reconexão de alunos e professores com o mundo para além dos muros escolares e como estímulo a uma verdadeira educação ambiental?

(*) Diana Vidal é professora titular de História da Educação da FE/USP e diretora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP).