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ABRIL, QUARTA  01    CAMPO GRANDE 32º

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Sequestros, angústia e funerais

Por Daniel Afonso da Silva (*) | 01/04/2026 13:00

Passava das 22h30 quando o telefone tocou. Não tocou muitas vezes nem muito tempo. No segundo ou terceiro sonido, Maria Aparecida Gomide atendeu. Atendeu perplexa e sem ciência do melhor idioma a manejar. Estava fora de casa e fora de seu país, o Brasil. Seguia atônita e aflita. Angustiada. Entorpecida pelas circunstâncias.

Circunstâncias-limite. Que lhe impunham um martírio em Montevidéu. Onde, agora, momentaneamente, vivia ao número 1.296 da avenida engenheiro Luis P. Ponce – a alguns passos da avenida general Rivera, a dois minutos do boulevard general Artigas e também a dois minutos da embaixada do Brasil nesse mesmo boulevard.
No reflexo, puxou o aparelho. Por costume, em bom português, disse “alô”.

Do outro lado, alguém com acento uruguaio contestou em espanhol e foi direto ao assunto. Com firmeza e nenhuma hesitação, informou que Aloysio Marés Dias Gomide – diplomata brasileiro, pai de família e marido de Maria Aparecida Gomide, sequestrado pelos tupamaros no meio do ano anterior – estava vivo, seguia bem e tinha sido libertado naquela noite.

Aliviada e enternecida, Maria Aparecida Gomide memorizou a conversa, anotou a informação e repassou ao brasileiro Quintino Symphoroso Deseta – também diplomata e locatário da residência da avenida engenheiro Luis P. Ponce.

Quintino Deseta deixou Maria Aparecida Gomide em casa e foi ao ponto marcado recuperar Aloysio Gomide. Foi de súbito e foi dirigindo o mesmo Mercedes Bens, de cor verde, que 209 dias antes servira de instrumento de fuga dos sequestradores.

Aloysio Gomide reconheceu-o imediatamente assim como veículo. Estava, enfim, livre. E, agora, em companhia amiga. Para o alívio de todos. Notadamente de Maria Aparecida Gomide. Que mais que ninguém guerreou tenazmente para o fim daquele cativeiro. Que marcou fundo as relações do Brasil com o Uruguai, do Brasil com a Argentina, do Brasil com a geopolítica da Bacia da Prata, do Brasil com os Estados Unidos e do Brasil com o mundo.

Vivia-se o biênio 1970-1971.

Tudo parecia remeter ao furor Buenos Aires, à excitação do maio soixante huitard francês, à ignomínia do AI-5 brasileiro e ao fracasso dos tupamaros no assalto à cidade uruguaia de Pando, ao norte de Montevidéu, que resultou na prisão da cúpula do movimento, em consequente sua radicalização, que resultou na ampliação da instabilidade social no país assim como na vulnerabilização das situação dos enviados estrangeiros em Montevidéu.

Montevidéu, assim, foi se tornando uma cidade insegura e menos bela. Triste, mesmo que radiante. Obtusa, mesmo que plácida. Aglutinando atenção internacional negativa. Fazendo renascer rivalidades, apreensão e mal-entendidos há muito superados. Notadamente vis-à-vis do Brasil e das Américas. Seu reduto e seu destino.

Pois a complexa emergência do Uruguai tornou-o, per se, mais que peculiar, especial. Produto de desígnios ibéricos, assentado em tratados europeus e forjado por interesses mundiais, esse belo país da América do Sul nasceu e se afirmou abraçado às venturas, imediatas e pretéritas, do Brasil, da Argentina e do Paraguai. Fazendo-se notar. Distinguindo-se. Trazendo na memória e na retina as lembranças de Sacramento à Província Cisplatina às tentações da Conferência Argentina às personalidades de Juan Manuel Rosas e Manoel Oribe à tenência de Paulino José Soares de Souza e Honório Hermeto Carneiro Leão ao martírio da Guerra do Paraguai. Permitindo-se, com isso, ser singular, diferente. Ingressando no século 20 completamente ereto. Com indicadores econômicos consequentes. Sem – ou com muito poucas – tensões sociais.

Um país de avant-garde. Com sistemas de educação de alta qualidade disponíveis a todos. Igualizado em oportunidades e avançado em costumes. Que adotou o divórcio em 1903, o aborto nos anos de 1920 e do voto feminino logo em seguida. Soprando e sorvendo bons ventos do mundo inteiro e internalizando, à sua maneira, tudo que o mundo tinha de bom a oferecer. Como a cultura da França, a economia do Reino Unido e a política dos Estados Unidos. O que, no conjunto, possibilitou-lhe passar aquele século alheio às intempéries das guerras totais.

Aliás, foi durante as guerras totais que a sua balança comercial afirmou-se mais pujante. Gerando excedentes financeiros e econômicos rapidamente traduzidos em distribuição de renda e benfeitorias sociais. Confirmando o Uruguai como modelo de alta performance. Que começou a declinar depois. Depois das guerras, depois de 1945.

Quando os Estados Unidos finalmente reabilitaram-se do choque de 1929 e a Europa começou a se reerguer dos esforços de guerra, por volta de 1950-1955, a economia uruguaia avançou para a entropia e caiu em colapso. Impondo à sociedade experiências inéditas de desigualdade, conturbação social e política. Jogando o país na vala comum das realidades confusas de seus vizinhos. Países dignos, mas que jamais se furtaram a recorrer à força para esmagar divergências e convulsões sociais.

A partir de 1950, o Uruguai estava assim. Igualzinho aos demais. Fazendo emergir, pela primeira vez, clivagens verdadeiramente irreconciliáveis. Todas abraçadas aos ecos de Berlim, da Guerra Fria e da tensão Leste-Oeste. Trazendo à superfície as apropriações latino-americanas dos preceitos daquele outubro russo de 1917. Ao mesmo tempo, novas convicções sobre a guerra da Correia. Até chegar à aventura de Sierra Maestra, que causou, de fato, a mudança de turnos de seus corações.

Quando os irmãos Castro e Ernesto Che Guevara ostracizaram o ditador Fulgêncio Batista naquele janeiro de 1959, a coalizão dos contrários tomou conta do Uruguai. De um lado, uma esperança incomum invadiu os desclassificados sociais. Por outro lado, os abastados e estabelecidos manifestavam ojeriza por todas aquelas notícias de Havana. Notícias que para eles não passavam de perigosa contravenção.

Essa tensão criou de súbito um ambiente de oposição irreconciliável no país. Uma situação-limite que ficaria ainda mais evidente quando da passagem de Ernesto Che Guevara pela capital, quando foi à Universidad de la República – Udelar, em 1961.

Foi um dia de júbilo para muitos. Caiu no 17 de agosto de 1961. O expoente da revolução cubana vinha a Montevidéu como paraninfo dos formandos – entre os quais, um chileno de nome Salvador Allende – antes de seguir para a reunião da Organização dos Estados Americanos, OEA, em Punta del Leste, onde encontrar-se-ia com o governador do Rio Grande do Sul, Leonel de Moura Brizola, para harmonizar as suas convicções revolucionárias, a sua demarcação à esquerda e o seu repúdio ao imperialismo norte-americano. As mesmas convicções, demarcação e repúdio que ele apresentaria aos universitários uruguaios naquela ocasião. Mal sabendo que Cuba seria suprimida da OEA logo em seguida.

De toda sorte, a sua manifestação foi uma fala costumeira. Ao estilo do novo regime de Havana. Mas, por estar em Montevidéu, fez questão de ressaltar as peculiaridades positivas daquela sociedade uruguaia; sociedade que ele conhecia tão bem. Peculiaridades positivas que não eximiam o Uruguai de estar em queda francamente livre e acelerando a marcha para a condição de banana republic.

Com clareza de supostos e luminosa presença, como em muitas partes, Ernesto Che Guevara dominou o ambiente. Fazendo o momento inesquecível. Levando o auditório ao êxtase. Impondo àquela juventude – e também muitos crescidos – acreditar na máxima do tudo é possível. Mesmo que uma revolução seja requeria. O que, nitidamente em suas palavras, ainda não era o caso concreto no Uruguai. Mas era o caso de vigiar. Pois poderia chegar o bom momento. Momento onde o modelo de Havana poderia servir de inspiração. Uma inspiração, claramente, não partilhada por quem estava fora daquele auditório. Que, tão logo informados do conteúdo da conferência do líder cubano, passaram a contestá-lo, difamá-lo e hostiliza-lo. E, se isso não bastasse, também tentaram eliminá-lo fisicamente.

Sim: na saída da universidade, Guevara foi vítima de um atentado.

Certo: não deu certo. Mas o recado estava dado. Restando aos bons e aos maus entendedores levar tudo aquilo a sério e, enfim, entender. Guerra é guerra. E, doravante, a guerra entre os uruguaios estava mais que lançada.

Aliás, bem antes desse incidente, em 1957, o advogado Raúl Sendic já tinha iniciado a mobilização das esquerdas no país. Primeiro com a organização do Partido Socialista.

Em seguida, com a conjugação dos movimentos à esquerda – Movimento de Apoio Camponês, Movimento de Esquerda Revolucionário e Federação Anarquista do Uruguai. Adiante, com a ampliação da instrução e conscientização à esquerda das massas urbanas e rurais empobrecidas. Especialmente mediante a organização de sindicatos e partidos. Em 1959, às voltas com os feitos de Havana, ele desferiu um fulgurante rechaço à internalização do receituário liberal e liberalizante do Fundo Monetário Internacional no Uruguai e, em contrário, passou a elogiar ostensivamente os modelos revolucionários mundo afora. Notadamente o cubano, mas também a experiência guatemalteca e a resistência argelina.

Quando, então, agora, Ernesto Che Guevara escapara de ser assassinado na capital uruguaia, a afluência socialista, em particular, e esquerdista, em geral, era mais que evidente no país. Tanto no campo quanto na cidade.

Tanto que naquele mesmo ano de 1961 o mesmo Raúl Sendic começou a organizar os trabalhadores do corte de cana ao norte do país, no departamento de Artigas, às margens do rio Quaraí, divisa com o Brasil pelo Rio Grande do Sul. E, consequentemente, ainda em 1961 colaboraria para o surgimento da União dos Trabalhadores Açucareiros de Artigas – UTA. Uma plataforma sindical que começou a militar por melhores condições de trabalho, melhores retornos salariais e pela reforma agrária no país.

Notando-se Artigas distante e isolada do eixo dinâmico do Uruguai – que sempre foi Montevidéu –, Raúl Sendic e as lideranças do UTA organizaram a famosa marcha hacia Montevidéu em 1962. Quando começou a circular a nominação tupamaros. Uma designação que remetia aos tempos coloniais. Quando tupamaros eram aqueles que resistiam às investidas da Coroa. E, nesse espírito, agora, seriam aqueles que, organizados e unificados, resistiriam aos desmandos das elites, dos potentados e dos imperialistas.

Essa marcha à capital, em 1962, foi o primeiro um turning point da organização das esquerdas no Uruguai. O próximo momento expressivo ocorreria no ano seguinte, em 1963, quando, de braço com sindicatos, comandos das esquerdas organizadas moveram-se à cidade de Nueva Helvécia para assaltar o Clube de Tiro Suíço. Deu certo. Os tupamaros levaram muitas armas, especialmente fuzis. Mas a repressão do governo frente ao movimento inaugurou-se implacável. Levando à dispersão do movimento e ao ingresso de Raúl Sendic na clandestinidade.

Clandestino e em fuga, Raúl Sendic calculou que a luta armada conjugada à guerrilha urbana seria a única saída para as esquerdas no Uruguai. Essa convicção acabou por precipitar a fundação do Movimento Nacional de Libertação Tupamaros, MNL-T, e a designação de seus líderes: Eleuterio Fernández Huidobro, Jorge Manera Lluveras, José Mujica Cordano e Raúl Sendic.

Munida da opção pela guerrilha urbana, a primeira ação do MNL-T foi o reconhecimento físico e espiritual da cidade de Montevidéu. A guerrilha seria urbana e executada na capital. Metade dos 2,8 milhões de habitantes do país estava nela. De modo que era imperativo conhecê-la plena e profundamente. Mapeado o espaço, a sua topografia, a sua paisagem, a sua demografia e a sua volição. Assim se fez.

Adiante o grupo foi ampliando a sua extensão. Angariando mais integrantes e cristalizando simpatias através da “conscientização das massas”. Uma “conscientização” manejada pela crítica acerba ao funcionamento do sistema financeiro no país. Um sistema financeiro que, na avaliação dos tupamaros, era a materialização do corpo e da alma do capitalismo selvagem no país.

Adiante e nesse espírito, os tupamaros começaram a, efetivamente, invadir casas e símbolos financeiros do país. A primeira operação ocorreu na capital e resultou na invasão de uma das maiores casas bancárias de Montevidéu com o propósito de demonstrar o grau de espoliação ao qual os uruguaios eram objeto. Nessa ocasião, não se levou dinheiro. Apenas documentos, que seriam tornados púbicos, que pretensamente evidenciavam as atividades extorsivas dos bancos no país.

Depois disso, no triênio 1964-1966, a ofensiva expandiu-se para instituições públicas e privadas, nacionais e estrangeiras. Sempre com o interesse de atrair atenção, ampliar a “conscientização das massas” e angariar-se maior adesão ao movimento.

Entre os estudantes, em todos os níveis de formação, a interação era quase absoluta. Entre trabalhadores, sindicalizados ou não, também.

Assim, em pouco tempo, o movimento ultrapassou o número de milhares de simpatizantes. O que insuflava a demanda por mais ações revolucionárias. Levando o país à conflagração permanente. Onde, em qualquer dia e lugar, tudo de absurdo poderia acontecer. Como aconteceu no ataque a bomba deflagrado contra a sede da Bayer em 1965 ou, ainda, no ataque ao setor comercial da embaixada do Brasil nesse mesmo ano.

No mês de dezembro do ano seguinte, 1966, sagrou-se vencedor das presidenciais o general Óscar Diego Gestido Pose. Membro do Partido Colorado, mas, mesmo assim, positivo aos ideários do MNL-T.

O MNL-T considerava o novo presidente, antes de tudo, um sujeito simpático. Não simplesmente por ser irmão do universalmente conhecido e querido Álvaro Gestido, titular da seleção uruguaia de futebol que conquistou a Copa do Mundo de 1930. Mas por sinalizar um retorno ao statu quo ante. Aquele mais nacionalista e mais protecionista anterior a 1945. O que, na avaliação dos tupamaros, trazia esperanças de melhoramentos sociais significativos. Impondo-lhes, taticamente, assim, congelar ou recuar em suas ações para sentir a qualidade dos ventos trazidos por Gestido.

Por infortúnio, a presidência de Gestido Pose durou pouco. Começou em abril e terminou em dezembro de 1967, quando da morte do general. Fato e feito que deram passagem à ascensão de Jorge Pacheco Arce, vice-presidente eleito na chapa com Gestido Pose.

Jorge Pacheco Arce era um jornalista uruguaio reputado. Não tinha passado militar. Mas, não por menos, revelou-se imediatamente um espécime da linha dura uruguaia.

Bem ao contrário do general falecido.

Para não espelhar dúvida de sua raison d’être, tão logo assumiu a presidência, Jorge Pacheco Arce aproximou-se e assenhorou-se das forças mais radicais à direita e à extrema-direita disponíveis no Uruguai. Se isso não bastasse, passou a ignorar demandas sociais, sindicais e não sindicais. Amordaçando liberdades civis e liberdades de expressão. Intervindo nos espaços universitários. Chegando à ignomínia de desprezar o Parlamento e governar por decreto.

Nessa ambiência, restou ao MNL-T voltar a organizar-se, mobilizar-se e praticar suas ações.

Além das invasões a casas financeiras, eles começaram, então, a inovar. Sendo a sua nova tática o sequestro de personalidades.

Ulysses Pereyra Revebel, presidente da empresa de telefonia uruguaia, foi o primeiro. Foi raptado no dia 7 de agosto de 1968 e solto cinco dias depois, no 11 de agosto. Foi um cárcere só para chocar. Não resultando em pressão nem interlocução com os poderes estabelecidos. O MNL-T estava aprendendo. Sondando a situação. Ele ainda não dispunha de estrutura nem de savoir faire consequentes. Sendo aquele sequestro apenas um case. Experimento para reflexão e aprimoramento.

O próximo sequestro ocorreu em setembro de 1969 e teve por alvo o banqueiro italiano Gaetano Pellegrini Giampietro. Foi um espetáculo de organização. Bem melhor que o anterior. Atraindo maior holofote da opinião pública. Chocando muito mais. Atravessando fronteiras e chocando também os estrangeiros. O que reforçou, ainda mais, o moral do movimento. Que, agora, via-se potente para estabelecer uma verdadeira queda de braço com a presidência de Jorge Pacheco Arce. Que, por sua vez, ampliou apenas a repressão contra o MNL-T.

Após o desfecho desse sequestro com a libertação de Giampietro, o MNL-T multiplicou ostensivamente as suas ações. Doravante, todo tipo de instituição virou alvo da fúria revolucionário. Com destaque para roubo massivo de documentos do Tribunal de Justiça da capital no réveillon de 1969 e o assalto à financeira Monty no 14 de fevereiro do mesmo ano.

Foi assim. Foi crescendo. Foi melhorando. Num consistente learning by doing que resultaria na operação mais ousada até então que foi a tentativa de tomada da cidade de Pando.

O movimento existia e se expandia. Todos sabiam. E, talvez por isso, pouco a pouco, foi sucumbindo ao tropismo – para não dizer, à ilusão – de toda frente revolucionária entorpecida pelo sucesso: começou a acreditar-se maior e melhor que realmente era. Com perto de cinco mil integrantes ativos, o MNL-T era, inegavelmente, grande. E, claramente, forte. Impossível ignorar. Mas nalgum momento começou o sentimento de potência subiu-lhe à têmpora.

Inundado de marxistas, leninistas, trotskistas, stalinistas, maoístas e castristas, o movimento passou a espelhar-se frontalmente nos exemplos de Moscou, Havana, Budapeste, Belgrado, Praga e Pequim. Para refestelar-se, passou a admirar a gente de Saigon e a gente de Paris. Notadamente aqueles que fizeram os protestos de maio de 1968. Ao seu lado, quase contíguo, começaram a louvar aqueles seus parentes que internalizaram o maio francês na América do Sul na forma de Cordobazo na Argentina.

E, mais ao norte, pelo Brasil, começaram a ter maior admiração pelos sobreviventes que resistiram ao após renúncia de Jânio Quadros, após deposição de João Goulart e após o 13 de dezembro de 1968.

Aliás, no caso desses últimos, entre um momento e outro, entre 1961 e 1968, o contingente de brasileiros asilados no Uruguai só fez aumentar. Afora o próprio presidente João Goulart, era simples, fácil, seguro e frequente encontrar o governador Leonel Brizola, o antropólogo Darcy Ribeiro e muitos outros brasileiros, notáveis e anônimos, que buscaram refúgio naquela região platina. O que refestelava a gente do MNL-T.

Nesse caleidoscópio de inspiração, Raúl Sendic emergiu da clandestinidade para liderar a operação mais arrojada operação até ali. Pretensamente à altura de seus inspiradores e em homenagem a Ernesto Che Guevara, capturado no 8 e morto no 9 de outubro de 1967 na Bolívia, desejou-se tomar a cidade de Pando, ao norte de Montevidéu, no 8 de outubro de 1969. Em caso de sucesso, mesmo que momentâneo, seria um golpe duro sobre a presidência de Jorge Pacheco Arce. Não precisaria dominar a cidade por muito tempo. Somente por algumas horas. Quem sabe, menos, por dezenas de minutos. Simplesmente para demonstrar ser possível o impossível como outrora sugeria Guevara.

Assim, no 8 de outubro de 1969, aniversário de dois anos da interceptação do líder cubano na Bolívia, vários comandos do MNL-T simularam um cortejo fúnebre, saíram de Montevidéu com destinação a Pando, chegaram a Pando, renderam as forças de ordem e começaram a sitiar a cidade. Um desejo faraônico demais. Que em pouco tempo foi aplastado pela polícia nacional. Que chegou rápido e tocou o terror. Assassinando vários integrantes do MNL-T e conseguindo prender os seus líderes – Raúl Sendic, Fernández Huidobro, Manera Lluveras e José Mujica –, que foram imediatamente conduzidos à temida detenção de Punta Carretas. O que causou uma súbita sensação de vitória à presidência de Jorge Pacheco Arce.

Ledo engano.

Aquele incidente, em contrário, causou grande sensação na população uruguaia que passou a solidarizar mais e mais com o MNL-T. Que, por sua vez, passou a contar milhares de integrantes ainda mais dispostos a multiplicar ações revolucionárias. Em parte, como corrente, para fragilizar a presidência de Jorge Pacheco Arce. Em parte, doravante, para forçar a liberação dos presos políticos de Punta Carretas.

Nesse propósito, os tupamaros começaram a efetivamente aterrorizar as classes dominantes e situacionistas através da multiplicação de assaltos a bancos e expropriação de montantes cada vez maiores em dinheiro. Como se fez no Banco Español naquele 11 de junho de 1970, quando cinco milhões de pesos uruguaios foram expropriados. Em seguida, onze dias depois, no 22 de junho seguinte, com a retirada de 16 milhões de pesos do Banco da Palestina. Adicionados aos oito milhões de pesos sequestrados do Banco Pan de Azúcar um dia depois. Aos 14 milhões do Banco de Londres no 30 daquele mês. E aos dois milhões da Sociedade de Bancos no 22 do mês seguinte. Sem contar, claramente, outras investidas menos espetaculares. Que levaram menos dinheiro e tiveram, por isso, menos exposição.

Vivia-se um terror social que ninguém, de parte a parte, podia negar.

Terror esse que foi ampliado pela mise en place do Plano Satã.

Um plano, sim, diabólico. Que visava o rapto de personalidades nacionais e estrangeiras para forçar a libertação dos tupamaros detidos em Punta Carretas e acelerar o enfraquecimento do regime de Jorge Pacheco Arce.

Os sequestros anteriores tinham servido de treino. Agora era pra valer. E assim se fez naquele dia 28 de julho de 1970.

Caiu numa terça-feira. Dia do agricultor. Inverno meridional. Com o Minuano sobrando e anunciando soprar. Às 7h30 teve início a operação. Protagonizada pelos cinco comandos do MNL-T. Onde, logo cedo, um invadiu uma garagem e roubou dois carros. Outro adentrou um edifício no bairro de Pocitos e roubou outro carro. Um terceiro ficou na retaguarda, aguardando no cativeiro. Outro restou monitorando quem chegava e partia das imediações da casa da vítima. Sendo o quinto, composto por duas mulheres e dois homens, aquele que executaria a ponta da ação. Que teve início às 8h25, com um toque à campainha da casa do juiz Daniel Pereyra Manelli. Uma autoridade importante e conhecida no país. Juiz havia julgado e condenado parcela importante dos tupamaros internados em Punta Carretas. Um alvo simbólico e estratégico ao movimento.

Em resposta à campainha, a empregada da casa dirigiu-se à porta e, sem maiores suspeições, abriu-a. Mal cumprimentou os visitantes e foi movida porta a dentro, subitamente dominada, amordaçada e amarrada. Tudo sob o olhar copioso de Gladys Lucas, mulher do juiz.

Gladys Lucas também ouvira a campainha e seguia perto à porta pra descobrir quem seria. Vendo a empregada dominada, ela congelou. Ficando sem ação, e até afônica. Tinha ciência do grau de insegurança na cidade, no país, na região e no mundo. Acompanhava, como todos, a evolução das ações do MNL-T assim como a resposta repressiva da presidência da República. Mais que isso, acompanhava diuturnamente o que sucedia nos países da região. Sabia exatamente o grau de agonia dos brasileiros que se erguiam contra o regime. Nos portenhos e paraguaios tinha fixação similar. Tinha impressões sobre a situação no México, no Chile e na Guatemala. Atinava para a situação nos Estados Unidos e sentia ao longe a agonia dos norte-americanos. Ora no Vietnã e ora engrossando manifestações pelos direitos civis no interior dos Estados Unidos. Gladys Lucas era assim. Uma pessoa culta, curiosa e informada. Um pouco – era verdade – saturada por informações tristes. Completadas pela sua nítida compreensão de que as ruas Montevidéu não eram mais as mesmas. Moviam-se diferentes. Tinham ficado plurais. Com a multiplicação de acentos e costumes muito diferentes. De gente que não vinha do interior nem dos pampas nem da constelação platina. Com gente de algures, que redobrava esforços para comunicar-se. Gente do mundo inteiro. Gente do Brasil. Gente que via ali, em Montevidéu, o seu point of rebirth. Mesmo que temporário. Mesmo que só para respirar. Sabendo-se lugar seguro.

Embora para ela, Gladys Lucas, nem tão seguro assim. Não simplesmente pela tensão dos tupamaros versus a presidência de Jorge Pacheco Arce. Mas pela sensação arraigada de que, mais que nunca, el futuro es un país extraño. E, portanto, tudo poderia acontecer. Em sua esperança, da porta pra fora. Com todos. Com ela não. Nem com os seus.

Enfeixada nessa torrente de impressões, Gladys Lucas viu o imponderável diante dos seus olhos. Sua empregada rendida e militantes do MNL-T movendo-se para dominá-la.

Não teve jeito, ela congelou. Virou pedra. Sem conseguir olhar para o lado nem para trás. Sem ação. Apenas escoltada pelo filho a tiracolo.

Todos imobilizados, para o MNL-T, agora, era seguir ao encalço do juiz Manelli.

Manelli percebeu rápido do que se tratava. Todos rendidos, restava-lhe, sem resistência, deixar-se levar.

Aqueles tupamaros não estavam brincando nem treinando. Estavam iniciando a operação do tudo ou nada para o seu movimento. Era o Plano Satã em marcha.

Monitorado, passo a passo, pelos detidos de Punta Carreras. Que aguardavam notícias e esperavam de sucesso. Que, até ali, era. Sucesso irresistível. Tudo muito rápido.

Em menos de cinco minutos e a ação de interceptação tinha sido concluída. Agora restava exfiltrar do magistrado, conduzi-lo ao cativeiro e comunicar à população. E assim se fez. Como encanto. Com movimentos calculados e gestos ensaiados. Tudo aprovado. Eficiência máxima. Que permitiu aos sequestradores sair da casa do juiz – com ele imobilizado – em menos de dez minutos após terem chegado. Saíram pela porta que entraram. Ganharam seus carros. Seguiram. Entregaram a vítima a outros comandos.

Que a conduziram ao destino. Que ninguém soube nem suspeitou nem podia suspeitar onde era.

Trinta minutos depois, pelas 9h, Gladys Lucas conseguiu refazer-se, acalmar o seu filho pequeno, tratar da angústia de sua empregada, respirar, sair à rua, atravessar a calçada, chegar à vizinhança, explicar a situação, solicitar um telefone e contatar a polícia relatando o ocorrido.

Tudo como impuseram os sequestradores. Que, antes de sair, cortaram as linhas telefônicas da casa do juiz.

Participadas do ocorrido, as forças de ordem baixaram em expresso no encalço de Gladys Lucas. Não tardaram chegar. Levaram dez ou quinze minutos. Tempo suficiente para a informação do infortúnio chegar ao conhecimento do ministro do interior, do ministro da justiça e do presidente da República do Uruguai.

Não era o primeiro, mas o terceiro sequestro. Não era rebarbativo nem feito apenas para chocar como os anteriores. Era estratégico. Sabia-se, a priori, da autoria. Sendo desnecessário ao grupo reivindicar e ao poder estabelecido procurar identificação.

A cadeia de comando começava e terminava em Punta Carretas. Era impossível negar. Os operadores da ação eram apenas braços competentes da causa. Que, agora, nitidamente, mudou de tom e levou a presidência de Jorge Pacheco Arce a mudar de humor.

Tanto que tão logo entrevistaram-se com a senhora Gladys Lucas, os departamentos competentes da presidência determinaram e mandaram executar o fechamento de todas as vias terrestres e marítimas do país.

A polícia secreta do regime assim como os enviados de Langley no país ficaram pela primeira vez atordoados com o efeito fantasma da operação. Ninguém suspeitou nem viu nada. Os tupamaros moveram três ou quatro peças à frente deles. Demonstrando que haviam amadurecido, melhorado e seguiam superando-se.

Evidenciando toda essa evolução, no dia seguinte, o 29 de julho de 1970, através de um comunicado com a numeração um – Comunicado n. 1 –, indicando que seriam vários os comunicados até a obtenção de seus objetivos, o MNL-T informou que iniciavam-se ali, com o sequestro do juiz Manelli, os expedientes do tribunal revolucionário do movimento. Um tribunal que iria, agora, inverter os papéis. Colocando no banco dos réus os contrários à evolução socialista, comunista e revolucionária no país.

No caso do juiz Manelli, o primeiro sentenciado, o comunicado indicava que o propósito era entender as razões dele ter impetrado penas tão severas ao encontro dos companheiros do movimento antes e depois do incidente de Pando.

Em linguagem eloquente e precisa, combatente e justa, aquele comunicado ainda reivindicava a soltura dos presos políticos de Punta Carretas. Como se fizera no Brasil nos nove, dez meses anteriores. Quando do rapto do embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick, no Rio de Janeiro no mês de setembro do ano anterior, do cônsul-geral do Japão em São Paulo no mês de março próximo passado e do sequestro do embaixador da República Federal da Alemanha no Rio de Janeiro no mês de junho também próximo passado.

Em todos os casos, as autoridades brasileiras atenderam às reivindicações dos sequestradores. Sempre libertando presos políticos e mandando-os ao exílio. No primeiro caso, libertaram quinze presos políticos em troca da liberdade do embaixador. No segundo, quatro. No terceiro, quarenta.

Os revolucionários do MNL-T sabiam bem que os regimes brasileiros de 1964 e de 1968 eram bem mais duros, em forma e conteúdo, que aquele de Jorge Pacheco Arce.

Entre eles, uruguaios, gostasse-se ou não, o presidente advinha de uma chapa eleita sob o escrutínio de sufrágio universal, livre e transparente. No caso do Brasil, em contrário, àquela altura da vida nacional, sob a presidência de Emílio Garrastazu Médici, era o terceiro militar sem voto popular que guiava o país. Com o agravante de, agora, diferente do período do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, viver-se a ditadura escancarada no Brasil. Guiada por elementos da linha dura. Composta de militares e civis não raramente integralmente intransigentes vis-à-vis da variedade mental, cultural, política e humana esparramada pelo território nacional.

Era assim. Era complexo. Era brutal. Difícil.

E, mesmo assim, os comandos revolucionários brasileiros conseguiam, mediante rapto de autoridades, ter supridas as suas reivindicações.

Por que seria diferente no Uruguai? – perguntavam-se os insurgentes do MNL-T.

A resposta veio de chofre e chegou no dia seguinte.

No 30 de julho de 1970, o MNL-T divulgou o seu Comunicado n. 2 e a presidência de Jorge Pacheco Arce respondeu.

O segundo comunicado do MNL-T foi diferente do primeiro. Além de mais extenso e ainda melhor elaborado, ele foi distribuído e lido em emissoras de rádio do país. Nele os integrantes do MNL-T faziam uma avaliação da situação do juiz Manelli em cativeiro. Informavam que aquela situação era grave e tendia a durar muito tempo.

Especialmente porque o referido juiz “recusava-se a cooperar”. Negando-se a responder a contento às perguntas do tribunal revolucionário. E, pior, menosprezando a propensão do movimento a, em caso de precisão, neutralizá-lo – leia-se, matá-lo.

Foi a primeira vez que essa alusão a assassinato veio a público por parte do MNL-T. E, mais que isso, foi a primeira vez que o movimento condicionou a integridade física de um sequestrado ao atendimento da demanda de soltura dos presos políticos de Punta Carreras.

Tão logo se leu, ouviu e mensurou a mensagem contida nesse Comunicado n. 2 do MNL-T, a presidência de Jorge Pacheco Arce respondeu indicando que “não haverá libertação. Independentemente das consequências”. Firmando, assim, impasses intransponíveis. Que, ao fim das contas, apenas encorajou os tupamaros a seguir a sua insurgência. Pois eles anteviam essa postura do presidente. E, por isso, já tinham novas ações previstas. E colocaram-nas em marcha imediatamente. No dia seguinte, o 31 de julho de 1970.

Caiu numa sexta-feira aquele dia. Deu um dia pesadamente invernal em Montevidéu. 72 duas horas após a captura do juiz Manelli. 70 horas após o início da mobilização progressiva das forças de ordem para localizá-lo. 48 horas após o Comunicado n. 1. 20 horas após o Comunicado n. 2. 12 horas após a negativa da presidência de Jorge Pacheco Arce. 10 horas após a decisão de inaugurar-se a execução da segunda operação do Plano Satã. Uma segunda operação longamente maturada. Finamente escrutinada. Treinada, repetida e memorizada. Evidenciando o profissionalismo e a determinação dos tupamaros. Que, agora, dispunham de três logradouros para visitar.

Um na rua Juan Benito Blanco, 1.265. Outro na rua Pilcamayo, 5.393. Mais outro na rua Potosí, 2.031. Todos à mesma hora. Em sincronicidade. No lapso das 7h30 às 8h30 da manhã.

Na Juan Benito Blanco, 1.265, o target eram dois diplomatas norte-americanos enviados no país: o experimentado Nathan Rosenfeld e o jovem Gordon Jones.

Nathan Rosenfeld tinha 48 anos e era responsável pelo setor cultural da embaixada dos Estados Unidos em Montevidéu. Gordon Jones completara 26 anos e respondia pelos assuntos econômicos. Ambos residiam no edifício Acapulco. Eram camaradas e cooperativos. Tinham rotinas comuns. Iam juntos para a embaixada. Logo cedo. Sem falha. Todos os dias. No mesmo veículo. Um Chevrolet Impala automático. Sempre conduzido por Nathan Rosenfeld. Que, nesse dia, sem nada suspeitar, tão logo desceu à garagem para ligar o carro, manobrar e aguardar Gordon Jones, foi rendido, imobilizado, amordaçado e jogado no banco traseiro de seu próprio carro. Que ficou ligado. Como de costume. Simulando normalidade no aguardo do companheiro de viagem.

Gordon Jones apareceu logo em seguida e apreendeu que algo não ia bem. O carro estava parado, com o motor ligado, sem ter sido manobrado e com alguém diferente de Nathan Rosenfeld ao volante. Não demorou segundos e ele sucumbiu a oceanos de indecisão. Em reflexo, deu dois ou três passos em direção ao carro. Em intuição, hesitou na passada e ensaiou retornar. Mas não dava mais. Foi cercado e interceptado. Tentou reagir. Recebeu uma coronhada e caiu desorientado. Era forte, atlético e jovial.

Reanimou-se. Resistiu. Intentou uma luta corporal. Mas foi imobilizado e também jogado no banco traseiro do carro. Que saiu às rápidas. Deixando vários moradores rendidos e apavorados. Alguns na garagem mesmo. Outros tentando chegar. Tudo muito rápido. Minutos. Que coincidiram com a intervenção do outro comando da MNL-T na rua Pilcamayo, 5.393, endereço de Daniel Anthony Mitrione, responsável pelo Office of Public Safety em Montevidéu.

Esse Office fora idealizado pelos norte-americanos em inícios de 1960, sob a presidência de John F. Kennedy, como resposta operacional aos potenciais aos efeitos da revolução dos irmãos Castro nas Américas. Temia-se uma cubanização das Américas e temia-se uma radicalização dos comunistas em todas as partes. O marcartismo parecia arrefecido na opinião pública dos Estados Unidos. Mas, em vero, seguia vivo e ativo no interior do deep state. Num plano mais amplo, naqueles anos Kennedy, a Guerra Fria ganhara níveis extraordinários de conflagração. Os sucessores de Stalin em Moscou estavam mais que nunca empenhados na desestabilização do Mundo Livre.

Tanto que logo após as revelações do 20º Congresso do Partido Comunista na União Soviética, em 1956, o primeiro-ministro Nikita Khrushchov colocou em questão o estatuto de Berlim Ocidental e, em consequência, reabilitou todos os fantasmas da tensão Leste-Oeste. Que, por sua vez, acenderam todos os alertas em Londres, Paris, Bruxelas, Roma e Washington. Abrindo caminho para a separação física de Berlim através da construção do muro que ficaria pronto em 1961. Moscou, Havana, Berlim eram, portanto, questões gravíssimas. Até os mais céticos da nova administração norte-americana sabiam que aquela ambiência impulsionaria confrontação no mundo inteiro. Notadamente nas Américas. Zona de influência histórica e imediata dos Estados Unidos. De maneira que o Office of Public Safety foi criado nesse contexto no interior do FBI e da CIA para servir de mecanismo de cooperação em matéria de inteligência e segurança pública dos Estados Unidos com os seus aliados nas Américas. Sendo ombreado, adiante, pela International Law Enforcement Academy, idealizada nesse mesmo concurso, para formar e preparar as forças de ordem latino-americanas contra o inimigo vermelho.

Daniel Anthony Mitrione – Dan Mitrione – nascera na Itália, em Nápoles, em 1920, e emigrara para os Estados Unidos ainda criança. Cresceu por lá sob os auspícios do american dream e do self made man. Engajou-se na Marinha durante a Segunda Guerra Mundial e, logo após, passou a integrar os tentáculos de Langley. Anticomunista epidérmico, tão logo surgiu o Office of Public Safety, ele manobrou para incorporar-se incorporado e, integrado, foi enviado em missões na América do Sul. Inicialmente no Brasil. Onde cooperou com policiais de vários estados. E, em seguida, no Uruguai. Onde sentou praça em Montevidéu e foi alçado à posição estratégica e de destaque ao longo da ascensão do MNL-T.

Ninguém conhecia mais e melhor o MNL-T no Uruguai e no mundo que ele. Mesmo assim, ele não conseguiu se precaver do Plano Satã nem daquela operação do 31 de julho de 1970.

A sua casa e os seus movimentos na cidade de Montevidéu eram todos monitorados havia semanas. O MNL-T sabia praticamente tudo sobre ele. Seus passos, trejeitos, virtudes, defeitos, gostos. Quando ele saiu de sua residência à rua Pilcamayo, 5.393 naquele dia 31 de julho de 1970 em direção ao Office, havia um verdadeiro exército de tupamaros posicionado em todos os quadrantes do trajeto. Quando ele entrou na rua Alejandro Gallinal, uma picape dirigindo em contramão fechou o seu Opel alemão e outra Kombi Volkswagen bloqueou-o por trás. Uma chusma de tupamaros apareceu. O seu motorista foi rendido. Ele foi interceptado, imobilizado, encapuzado e jogado na Kombi. Sabendo bem do que se tratava. Mas subitamente impressionado com tamanha audácia. Que ainda se desenvolvia em outros cantos da cidade. Mais especificamente no bairro Carrasco, à rua Potosí, 2.031, residência do ministro-conselheiro brasileiro Aloysio Marés Dias Gomide que, na ausência de diplomatas mais graduado, cumpria a função de cônsul adjunto do Brasil no Uruguai.

Aloysio Marés Dias Gomide era um diplomata experiente. Conhecia Montevidéu como poucos. Residia ali havia anos. Desde os tempos da presidência do general Óscar Diego Gestido Pose. Tinha acompanhado de perto a ascensão do MNL-T. Conhecia um por um dos homens principais da presidência de Jorge Pacheco Arce. Sabia exatamente a sua capacidade de ação. Conseguintemente seguia com apreensão a evolução dos acontecimentos naquele país que ele aprendera a amar e considerava, em parte, como também seu. Tinha 41 anos. Era maduro, cristão, católico. Casado com Maria Aparecida Gomide. Pai de seis filhos com ela. Um homem cumpridor e responsável. Símbolo do Brasil em Montevidéu. E, por tudo isso, agora, objeto da operação o MNL-T.

Ele avançara até bem tarde no trabalho do dia anterior e no início daquela sexta-feira ainda dormia. Maria Aparecida Gomide despertava sempre mais cedo, deixava as crianças na escola e iniciava as suas rotinas de mulher, mãe e patrona da casa. Sabia de tudo. Organizava tudo. Acompanhava tudo. Inclusive a manutenção de problemas estruturais da casa. Como era o caso frequente de problemas com a telefonia.

Naqueles dias, os telefones das casas do bairro funcionavam irregulares. Vários chamados de reparo tinham sido feitos. Técnicos credenciados eram aguardados para a execução de serviços. Qualquer dia, eles poderiam chegar a qualquer hora.

Nessa espera, naquele dia, passava das 7h30 quando ela avistou um cidadão com uniforme da companhia telefônica atravessando o seu gramado e avançando em sua direção. Diante da porta, ele tocou a campainha e foi recebido pela empregada. Que nada notou. Simplesmente recepcionou e informou que, de fato, os telefones da casa custavam funcionar.

O elemento aquiesceu, observou e prometeu voltar. Voltar em breve com uma equipe completa para solucionar o problema.

Maria Aparecida Gomide ouviu tudo e aguardou.

Minutos depois, pelas 8h20, a equipe chegou. Quatro homens e uma mulher. Todos igualmente aparentemente jovens demais para aquela função. Atravessaram o gramado, chegaram à porta e tocaram a campainha. A empregada atendeu e foi instantaneamente rendida, amarrada e amordaçada. Maria Aparecida Gomide, logo atrás, foi também imobilizada. O seu filho de apenas 3 anos olhava tudo aquilo sem entender. A casa estava tomada. Aqueles quatro componentes do MNL-T portavam revólveres e metralhadora. E não tardaram a informar do que se tratava. Queriam o diplomata Aloysio Gomide. Que foi despertado e apreendeu imediatamente do que se tratava.

Tentou apanhar o seu revólver, mas foi desencorajado. Os tupamaros tinham voz e postura de comando. Intimidando mentalmente as suas vítimas. Entre elas, o próprio diplomata. Que veio a eles como estava. Em pijama e com o semblante ensonado. Entorpecido pela situação.

Um dos sequestradores apanhou as chaves do carro do diplomata, um Mercedes Bens de cor verde. Outro tupamaro envolveu o diplomata num cobertor. Um terceiro e um quarto davam retaguarda para a saída segura da casa e da garagem. Enquanto um último dava as últimas consignas à Maria Aparecida Gomide. Que os tinha todos visto.

Sem máscara nem capuz. E, de saída, após a chegada da polícia, não deveria nenhum deles identificar. Fosse em foto ou retrato falado. Em seguida, deveria aguardar até às 9h para sair da casa e eventualmente contatar a polícia. E, por fim, poderia ficar bem, tranquila e serena, pois aquilo era apenas um dano colateral necessário para o avanço da marcha revolucionária de melhoramento do Uruguai.

Fecharam a porta atrás de si e saíram.

Levaram o diplomata Aloysio Gomide em seu Mercedes Bens de cor verde.

A rua estava tranquila e segura. Outros muitos tuparamos monitoravam tudo. Não demorou muitas quadras, e trocaram de carro. Abandonaram o Mercedes Bens, ingressaram o refém na Kombi Volkswagen que já continha Mitrione e seguiram para um logradouro não tão longe dali, na avenida Centenário, 4.115, residência do tupamaro Juan Espinosa.

Ainda não eram 9h da manhã. Mas o estrago estava plenamente feito. Um sucesso operacional irretorquível. Eficiente e sem falhas. Quase perfeito. Não fosse o caso do diplomata norte-americano, Gordon Jones, que, após nova luta corporal, conseguiu fugir. Mas tudo bem. A segunda fase do Plano Satã estava concluída. Agora era respirar e aguardar.

Os prisioneiros de Punta Carretas – especialmente Raúl Sendic e Eleutério Fernández Huidobro, mentores da operação – foram informados instantaneamente do ocorrido e caíram em regozijo.

Os demais formalmente implicados – a presidência de Jorge Pacheco Arce, a presidência de Richard Nixon e a presidência de Emílio Garrastazu Médici – caíram em apreensão.

A resistência dos tupamaros, com tudo isso, ganhava dimensão planetária. Monopolizando o noticiário, as chancelarias e as presidências do mundo inteiro. Colocando em risco o equilíbrio geopolítico das Américas. Reabilitando as querelas existenciais do rio da Prata. Impondo às Nações Unidas uma situação complexa e delicada.

Impingindo aos Estados Unidos níveis de constrangimento que havia muito não viviam. E levando o Brasil e os brasileiros a uma verdadeira crise de nervos.

Iam vivos na memória de todos os suplícios do embaixador norte-americano John Gordon Meir, assassinado na Guatemala, naquele não distante 28 de agosto de 1968. Da mesma sorte que ninguém esquecera do assassinato do embaixador alemão Karl von Spreti, também assassinato e também na Guatemala, naquele fatídico dia 6 de abril daquele ano de 1970.

Nas duas ocasiões, a presidência de Julio César Mendez Montenegro recusou-se a negociar os insurretos. Fazendo valer as suas convicções e os seus interesses soberanos nacionais.

No caso de Karl von Spreti – um sujeito de trajetória simplesmente extraordinária na história do cinema e das artes mundiais –, os sequestradores condicionavam a sua vida à libertação de 22 prisioneiros e ao pagamento de 750 mil dólares. Houve uma comoção mundial. Os principais países da região tentaram interceder junto à presidência guatemalteca. O presidente Richard Nixon e o seu secretário Henry Kissinger pressionaram o que puderam para superar o imbróglio. O primeiro-ministro Willy Brand despachou de Bonn para a Guatemala um plenipotenciário com a instrução de forçar a “libertação do embaixador a qualquer preço”. Mas não teve jeito. A presidência guatemalteca resistiu e o embaixador von Spreti foi assassinado.

O MNL-T ainda não tinha assassinado ninguém nesses termos. De toda sorte, a presidência de Jorge Pacheco Arce seguia o exemplo da presidência guatemalteca e não parecia disposta a reconhecer tampouco negociar com os tupamaros, “Independentemente das consequências”. Seguia irredutível. Era essa a sua posição desde o sequestro do juiz Manelli. Restava-se saber se haveria alguma evolução doravante com o sequestro dos enviados norte-americanos e do enviado brasileiro.

Fosse como fosse, o embaixador dos Estados Unidos em Montevidéu foi dos primeiros a solicitar audiência com o seu homólogo uruguaio e com a presidência de Jorge Pacheco Arce. Em seguida, todas as agências norte-americanas, do FBI à CIA, empresários, civis e militares em deslocamento, o Departamento de Estado e o próprio presidente Richard Nixon iniciam manobras para a superação de todos os impasses à libertação de seus concidadãos.

No caso brasileiro, a situação ganhou contornos francamente dramáticos. Tinha muito que o embaixador Luiz Leivas Bastian Pinto, representante do Brasil em Montevidéu, vinha reportando a situação de perigo real que sofriam os diplomatas brasileiros no Uruguai. A sua própria residência – Residência do Embaixador do Brasil em Montevidéu, no boulevard general Artigas – tinha sido assaltada. A integralidade do corpo diplomático seguia apreensiva com a evolução de protestos, criminalidade e violência na cidade. Todos sentiam-se alvo. O que levou o governo brasileiro a atender a sua demanda de contratação de mais um segurança para a embaixada semanas antes do incidente do Aloysio Gomide. Quando o sequestro se deu, ele foi um dos primeiros a solidarizar com Maria Aparecida Gomide. Aloysio Gomide era mais que seu liderado, era um amigo. Objeto de uma ignomínia que poderia ocorrer com qualquer um. Inclusive ele próprio. Que, logo após realizar seu gesto humano com a mulher do colega, iniciou o seu périplo de obrigações funcionais reportando a totalidade da situação ao gabinete do ministro em Brasília.

Na ausência do ministro Mário Gibson Barboza – que seguia em missão em Tóquio –, o gabinete era dirigido pelo secretário-geral do Itamaraty, o embaixador Jorge de Carvalho e Silva. Que imediatamente tratou da informação e a fez chegar ao presidente da República. O presidente Médici. Que apreendeu instantaneamente a complexidade do problema e passou a tratá-lo em caráter quase pessoal.

A sua vinculação com o Uruguai era imensa e profunda. Ele nascera em Bagé, no Rio Grande do Sul, mas a sua mãe, a senhora Julia Garrastazu, era uruguaia, da cidade de Paysandú. O seu conhecimento do país, da cultura e de seu povo era pleno. A sua vinculação sentimental com tudo que se passava por lá também. Antes de aceder à presidência da República, ele servia como comandante do III Exército, justamente no Sul. E, desse posto privilegiado, seguiu de perto os avanços da política no Uruguai.

Quando superou a hesitação e aceitou ser presidente brasileiro, ele elegeu o Uruguai como plataforma primordial da ação exterior brasileira na região. Não ao acaso, o seu primeiro deslocamento internacional foi justamente no Uruguai. Ocorreu no 11 de maio de 1970, quando recepcionou o presidente Jorge Pacheco Arce na cidade brasileira de Chuí e, em seguida, atravessou a fronteira para almoçar com o seu anfitrião na cidade uruguaia de Santa Teresa. Foi um encontro importante para todos. Tanto mais para o presidente Médici. Nesse encontro, selaram-se os avanços da integração física entre os países com a entrega das obras da BR 471 do lado brasileiro e da Estrada 9 do lado uruguaio. E, conseguintemente, selaram-se laços de confiança e acesso privilegiado entre os mandatários. Que não chegaram a ser amigos. Mas ficaram bem próximos.

Por tudo isso, a notícia do sequestro do diplomata brasileiro em Montevidéu lançou o presidente Médici em profunda apreensão. Um gabinete de crise foi imediatamente instaurado no Rio de Janeiro. O embaixador Jorge de Carvalho e Silva foi movido do Itamaraty em Brasília para o Palácio das Laranjeiras. Todos os ministros das forças – Exército, Marinha e Aeronáutica – foram mobilizados. O chefe de Estado-Maior do Exército também. O embaixador Mário Gibson Barboza foi participado de tudo em Tóquio. O embaixador Luiz Leivas Bastian Pinto foi instruído a entrevistar-se com o embaixador Charles Wallace Adair, enviado norte-americano no Uruguai. O embaixador Jorge de Carvalho e Silva foi instruído a entrevistar-se com o embaixador uruguaio e com o embaixador norte-americano no Brasil.

Diferente – e bem mais complexo – que o tratamento do sequestro de diplomatas estrangeiros no Brasil, o desafio agora era gerir o sequestro de um diplomata brasileiro no estrangeiro. Esse primeiro encontro do gabinete de crise sob a presidência de Médici serviu para auscultar-se a complexidade da situação. Mas a convicção geral aduzia a necessidade de utilizar-se todos os meios disponíveis para salvaguardar-se a integralidade física do brasileiro em posse do MNL-T.

Era fim de tarde daquele dia no Brasil quando os tupamaros vieram a público com o Comunicado n. 3. Um comunicado que demonstrava uma determinação impressionante ao informar que eles prometiam sacrificar os raptados caso as autoridades uruguaias mantivessem aquela postura inamovível.

Do Rio de Janeiro, o embaixador Jorge de Carvalho foi instruído a manter contato permanente com o embaixador brasileiro em Montevidéu e com o embaixador Antonio Francisco Azeredo da Silveira em Buenos Aires.

Coincidentemente, naquele dia, pela manhã, às 11h, o embaixador Azeredo da Silveira passou por Montevidéu para entrevistar-se com chanceler Jorge Peirano Facio.

Àquela altura, o infortúnio de Aloysio Gomide já era do conhecimento de todos e causou aos dois, Silveira e Facio, o sentimento comum de choque. Ambos estavam chocados com a situação e, em sintonia, seguiam sem efetivamente saber o que fazer.

Os eventos brasileiros, especialmente os efeitos do AI-5, eram notórios para todos. Mas na Argentina, a situação não era mais tranquila. Os montoneros estavam em franca atividade e evolução. Cada vez mais duros e mais radicais. Em acessos de fúria que os levaram sequestrar, meses antes, o cônsul paraguaio no país. De maneira que restava ao embaixador brasileiro e ao chanceler uruguaio contemplar as suas mútuas barafundas. Que só iriam aumentar em tensão nos próximos dias, meses e horas.

A noite tardou a cair em Montevidéu naquele dia que parecia não ter fim. Os telefones de todas as embaixadas não paravam de sonar. Jornalistas, diplomatas, autoridades e gente do comum requeriam informação. O embaixador Luiz Leivas Bastian Pinto autorizou atender-se a todos. Até que alguém ligou com um propósito diferente.

Identificando-se tupamaro e responsável pelo cativeiro do diplomata brasileiro. O seu interesse eram “tranquilizar” o corpo diplomático e a família do refém e solicitar um esclarecimento relevante: saber se Aloysio Gomide tinha algum problema de saúde que merecesse acompanhamento especial.

O conteúdo daquela ligação chegou imediatamente ao conhecimento o embaixador brasileiro que hesitou entre falar primeiro com Maria Aparecida Gomide ou com as autoridades reunidas no Rio de Janeiro. Acabou optando pela segunda opção e ligou para o embaixador Jorge de Carvalho e Silva no Brasil. O embaixador Carvalho e Silva, por sua vez, dispunha de uma orientação fria e clara: evitar-se ao máximo qualquer conversação com os tupamaros. Resolvendo-se, assim, em instantâneo a questão e ampliando a aflição de todos.

O dia e a noite desapareceram e a pressão sobre a presidência de Jorge Pacheco Arce só fez aumentar.

No sábado, 1º de agosto 1970, o presidente uruguaio, diferente de seu homólogo brasileiro, recusou-se a instaurar um gabinete de crise e simplesmente convocou duas reuniões. Uma para tratar da situação de seu nacional raptado, o juiz Manelli. Outra para tratar da situação dos estrangeiros.

Sobre a primeira, não houve evolução. A orientação anterior seguia vigente: ninguém estava autorizado a negociar com o MNL-T.

Sobre a segunda, a conversa foi um pouco mais longa. O chanceler Jorge Peirano Facio intentou localizar – sem sucesso – a todo o custo a sua contraparte brasileira, o ministro Mário Gibson Barboza. Era o único chanceler estrangeiro diretamente implicado não contatado. Moveu-se, então, ao embaixador Jorge de Carvalho e Silva entre Brasília e o Rio de Janeiro e foi orientado a tratar diretamente com o embaixador do Brasil em Montevidéu. Nessa ambiência, o presidente uruguaio iniciou a reunião e deu palavra a todos os segmentos civis, militares, diplomáticos e econômicos presentes. Ouviu a todos. Foi participado das crescentes pressões de Washington e de Langley. Também soube das impressões dos enviados das Nações Unidas em Nova Iorque. E, ao fim das contas, concluiu o mesmo: não negociar com os tupamaros.

Independentemente das consequências.

No dia seguinte, domingo, 2 de agosto, voltando de Tóquio com escala em Washington para uma atividade na OEA, o ministro Mário Gibson Barboza encontrou-se com o ministro Jorge Peirano Facio para conversar pessoalmente sobre o assunto. A posição da presidência uruguaia era notória para todos. O presidente Jorge Pacheco Arce apostava na postura ofensiva enquanto a presidência brasileira navegava por processos bem mais sutis. A conversa, então, foi apenas protocolar.

O ministro Mário Gibson Barboza ainda permaneceu na capital norte-americana por mais dois dias antes de regressar ao Brasil no 5 de agosto. Nesse período, ele sugeriu ao presidente brasileiro a possibilidade de se mobilizar a Argentina e o Vaticano na mediação do processo. Tudo era muito recente. Mas era seguro que demoraria terminar.

Enquanto isso, no Brasil, os militares reunidos no Rio de Janeiro decidiram sugerir ao presidente que adiasse a entrega das aeronaves adquiridas pelos uruguaios e o embaixador Jorge de Carvalho e Silva sugeriu que fossem adiadas as reuniões da Associação Latino-Americana de Livre Comércio, ALALC, a realizar-se em sua sede em Montevidéu.

Enquanto isso, em Montevidéu, o desespero tomava conta de Maria Aparecida Gomide. Ninguém sabia do cativeiro de seu marido. Tampouco sabiam se ele estava bem e sendo bem tratado. No limite, em absurdo, questionava-se se ele ainda estaria vivo.

Era complexa a situação.

O diplomata brasileiro estava sequestrado no mesmo cativeiro que Daniel Anthony Mitrione. E era sobre ele, Mitrione, que a pressão seguia intensa por parte do MNL-T desde o primeiro dia. No sábado e no domingo após o sequestro, Mitrione foi objeto de um inclemente interrogatório do tribunal revolucionário do MNL-T. Os questionamentos foram pesados e implicavam-no nas atrocidades cometidas pela CIA e pelo FBI no Uruguai e na região. A Mitrione restou transitar entre negar e silenciar.

O que só fez aumentar a fúria dos agentes do MNL-T contra ele.

Na terça-feira, 4 de agosto, o MNL-T decidiu libertar do juiz Manelli e permanecer apenas com os estrangeiros. Algo extremo começava a se formar. Os policiais uruguaios avançavam as suas buscas. Os militares de todos os países da região trocavam informações com todos os serviços de inteligência do mundo em busca de pistas do paradeiro dos sequestradores e de suas vítimas. O cerco parecia ir se fechando. O MNL-T, então, dobrou a aposta com a dura mensagem contida em seu Comunicado n. 5.

Sem nenhum desvelo, nesse comunicado, eles afirmaram que a vida dos presos de Punta Carretas estava nas mãos do Supremo Tribunal Federal do Uruguai ao passo que a vida dos enviados estrangeiros estava nas mãos do MNL-T.

A presidência uruguaia deu de ombros para aquele comunicado e interpretou a soltura do juiz Manelli como um recuo do MNL-T.

A quarta-feira, 5 de agosto, passou nessa ambiência. Certa apreensão entrelaçada a alguma esperança. Até que veio a quinta-feira e mudou tudo.

Na quinta-feira, o MNL-T apresentou o Comunicado n. 6. O mais contundente de todos. Subindo o tom do confronto e agudizando o teor do dilema.

Numa postura conclusiva, o documento indicava que o tribunal revolucionário do MNL-T havia julgado culpado o senhor Daniel Anthony Mitrione pela intervenção norte-americana no Uruguai. Mais que isso, reconheciam-no como espião e malfeitor do interesse nacional dos uruguaios. Não merecendo, por tudo isso, viver. E, nesse caso-liminte, só seria poupado caso a presidência de Jorge Pacheco Arce libertasse os presos de Punta Carretas.

À essa altura, o mundo inteiro acompanhava o drama da situação. Jornalistas dos principais meios de comunicação que haviam sido deslocados para Montevidéu reportaram imediatamente o teor desse Comunicado n. 6 às suas capitais. Causando frisson e êxtase em toda parte.

O MNL-T dava como prazo a meia-noite do dia 7 de agosto. A presidência de Jorge Pacheco Arce teria até esse dia e horário para negociar. Caso contrário, far-se-ia justiça.

Era um ultimato. Claro e grave. Que imprimia o terror no imaginário e na retina de todos.

Como resposta imediata, o presidente Richard Nixon decidiu quebrar as conveniências diplomáticas e chamar o presidente uruguaio à razão. Num pronunciamento emocionado, ele sinalizou estar “preocupado” com a intransigência uruguaia em dialogar com os guerrilheiros.

Do lado uruguaio, sentido a estocada, o presidente Jorge Pacheco Arce quebrou o seu silêncio que vinha sendo a sua prática desde a sua investidura em dezembro de 1967 e realizou o primeiro pronunciamento à imprensa reclamando respeito à soberania do Uruguai e reiterando que não negociaria com os tupamaros.

Do lado brasileiro, a sensação era de perigo de guerra. A inequívoca altercação pública entre os mandatários dos Estados Unidos e do Uruguai lançava a situação ao imponderável, onde tudo poderia acontecer. Por conta disso, desde Brasília, acionaram-se aviões da FAB para repatriar brasileiros residentes ou em trânsito no Uruguai, incluindo Maria Aparecida Gomide.

Com as horas passando, foi-se embora aquele dia infernal que deu lugar a outro dia mais desafiador: o 7 de agosto, dia que completava uma semana do cativeiro dos estrangeiros e o deadline estabelecido para o destino de Mitrione.

Montevidéu acordou acreditando e desejando em algum gesto da presidência de Jorge Pacheco Arce. Rezas, orações e vibrações dirigiam-se para lá o palácio presidencial.

Mas não.

No início daquele dia, um comando do MNL-T ainda invadiria o Ministério da Agricultura e Pecuária da Uruguai e sequestraria Claude Fly. Um norte-americano de 63, especialista em solos e contratado pela presidência uruguaia no âmbito do convênio Uruguai-USAID.

Não faltava mais nada.

Ou faltava.

Tão pouco deslocado Claude Fly ao cativeiro naquela manhã, os noticiários uruguaios e estrangeiros informaram que 80 agentes do FBI haviam desembarcado na capital do Uruguai. Concomitantemente, as forças de ordem uruguaias passaram a promover operações especiais em toda a capital em busca dos reféns. Uma dessas suas investidas mais espetaculares aconteceu no Hospital das Clínicas do Uruguai. Um edifício de 21 andares e mais de 1.500 leitos, onde suspeitava-se que Aloysio Gomide e Daniel Mitrione poderiam estar rendidos. Com 400 soldados do Exército o hospital foi tomado e foi objeto de varreduras leito por leito, andar por andar, durante toda aquela manhã. Nada encontrando-se.

Vasculhando-se outras partes da cidade, os soldados uruguaios – agora, sim – localizaram algo muito importante: a cúpula do comando dos tupamaros que havia executado as operações da manhã do 31 de julho: Edith Moraes, Asdrúbal Rivera, Graciela Jorge e Cándan Grajales.

Edith Moraes, Asdrúbal Rivera, Graciela Jorge e Cándan Grajales eram monitorados pela polícia uruguaia havia tempos. Mas, agora, formara-se convicção de sua implicação no sequestro dos estrangeiros. Mais que isso, detectou-se o local da reunião deles daquele dia.

Assim, com intuição e graça, os militares chegaram à casa, identificaram os presentes, renderam-nos e os prenderam. Desferindo um golpe duro na cadeia de comando do MNL-T. Que, pelo momento, no plano operacional, ficava acéfala. Restando aos demais organizarem-se e seguir a operação. O que ocorreu rapidamente e cristalizou-se no fim daquele dia com o Comunicado n. 7. Um comunicado combativo, que ameaçava matar todos os sequestrados em caso de tortura aos tupamaros interceptados naquele dia.

A noite do 7 para o 8 de agosto passou assim. Sob o manto da dúvida. Encharcada de incerteza. Francamente inchada de insegurança.

Ninguém sabia o que fazer nem o que iria acontecer.

Os presos de Punta Carretas não tinham sido soltos e Aloysio Gomide e Daniel Mitrione estavam desaparecidos.

As forças de ordem fechavam o cerco. Os tupamaros reagiam como podiam. A ofensiva de parte a parte ganhava níveis contundentes. Levando a coletividade internacional a um misto de solidariedade e desespero.

A manhã do dia seguinte, sábado, 8 de agosto, trouxe consigo o Comunicado n. 8, informando que os reféns estavam vivos. Mas, diante da irascibilidade da situação, era difícil saber por quanto tempo.

O presidente brasileiro entrou em contato direto com o presidente uruguaio. O ministro Mário Gibson Barboza ampliou a sua interação com o seu homólogo em Montevidéu. Autoridades de Washington e Buenos Aires fizeram o mesmo. Intensificando a pressão para uma negociação com os tupamaros. Que, agora, sem a cúpula do comando, recompunha-se como podia. De modo que ao longo daquele dia 8, Henry Engler, Rodolfo Wolf e Blanco Katras foram tornados os responsáveis pelo destino das operações e pela sorte dos sequestrados.

A inteligência militar uruguaia acompanhou essa recomposição de lideranças, monitorou os seus movimentos e identificou onde e quando encontrar-se-iam para avançar.

Seria naquele dia mesmo, às 23h, numa casa discreta, na grande Montevidéu.

Tão logo iniciada a reunião, os novos líderes foram interceptados e presos. Mas nada conseguiu-se apurar sobre o paradeiro do diplomata brasileiro nem dos demais norte-americanos.

Cientes da queda de mais companheiros e do avanço repressivo da presidência uruguaia, os tupamaros decidiram cumprir a promessa de fazer justiça; e a fizeram.

Antonio Mas e Aurelio Peña foram designados para ir ao cativeiro recuperar Daniel Mitrione. Foram no domingo, 9 de agosto. Foram à noite, pelas 21h. Assaltaram um carro no caminho e dispuseram núcleos de apoio em vários quarteirões e esquinas. Alegaram a Mitrione tratar-se de uma simples mudança de cativeiro. Informaram que Aloysio Gomide iria continuar onde estava. Conduziram tranquila e friamente Mitrione até um Buick da General Motors – roubado minutos atrás – e saíram para um lugar ermo. Doparam o agente norte-americano com uma dose expressiva de calmante. Vendaram-no e amarram as suas mãos atrás de si. Acondicionaram-no bem confortável no banco do carro e desferiram três tiros fatais. Dois no tórax e um na têmpora. Cumprindo a promessa e levando o mundo inteiro a uma comoção sem limites.

O corpo foi encontrado e identificado na segunda-feira logo pela manhã. A notícia atravessou fronteiras com velocidade espetacular. O presidente Richard Nixon e as autoridades da Casa Branca caíram em assombro. A pressão popular foi gigantesca. Hesitava-se em apoiar e condenar a postura firme da presidência uruguaia em negar-se a negociar com os tupamaros. O presidente da Argentina quebrou o silêncio e apoiou indistintamente o seu colega uruguaio. O presidente brasileiro não tinha condições de tomar partido, restando ao ministro Mário Gibson Barboza enviar um comunicado enérgico ao seu homólogo uruguaio qualificando de “crime bárbaro, frio e premeditado” aquele cometido contra Dan Mitrione e acentuar a “obrigação que têm os Estados de proteger as vidas dos representantes diplomáticos acreditados em seu território”.

Mário Gibson Barboza era perito no assunto. Participara das tratativas para o estabelecimento da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de abril de 1961 e, logo a seguir, teve a incumbência de convencer a presidência Médici a negociar com os sequestradores dos enviados estrangeiros no Brasil. Via-se agora numa situação complicada. A inviolabilidade da pessoa do diplomata no exterior era garantida pelo decoro das interações internacionais, mas a soberania de qualquer país – e, no caso, do Uruguai –, pelo mesmo decoro, não deveria ser pressionada, desrespeitada, minorada.

Após o assassinato de Mitrione, ficou ainda mais evidente que a presidência de Jorge Pacheco Arce não negociaria com os tupamaros; restando à presidência brasileira respeitar.

Entretanto, nesse momento, já sem lágrimas para chorar, Maria Aparecida Gomide foi à imprensa uruguaia e fez um apelo aos tupamaros para libertarem o seu marido, Aloysio Gomide, mesmo que, para isso, fosse necessário que ela própria negociasse.

Foi um gesto de amor mais que de desespero.

Dois dias depois, Maria Aparecida Gomide foi procurada por um advogado, amigo de Raúl Sendic e próximo à causa dos tupamaros, disposto e qualificado a ajudar.

Maria Aparecida Gomide aceitou a colaboração.

Que rendeu frutos imediatos.

No mesmo dia, esse advogado retornou com a informação de que o MNL-T exigia um milhão de dólares para o resgate. Era – e continua sendo – muito dinheiro. Mas Maria Aparecida Gomide não esmoreceu. Reportou a situação ao ministro Mário Gibson Barboza. Que noticiou ao presidente Médici. Que, em seguida, juntamente com a sua mulher, dona Scylla Nogueira Médici, recebeu Maria Aparecida Gomide.

A amabilidade do encontro foi imensa. Mas os seus efeitos práticos, quase negativos.

O presidente Médici recusou-se a engajar o Brasil no fornecimento do montante requerido. Em seu entender, seria uma ingerência sobre o Uruguai e poderia desembocar em consequências importantes e duradouras para as relações entre os países assim como para o equilíbrio da América do Sul.

Maria Aparecida Gomide entendeu, despediu-se e partiu.

Após meses de meditação, ela voltou, foi conversar com o ministro Mário Gibson Barboza e apresentou a hipótese de arrecadação mediante uma campanha popular. O ministro considerou boa a ideia e solicitou a anuência do presidente. O presidente anuiu. E, assim, no dia 13 de dezembro de 1970, ocorreu o lançamento da campanha na TV Tupi, quando Maria Aparecida Gomide concedeu uma entrevista ao showman Flávio Cavalcanti.

Flávio Cavalcanti dispunha do programa líder de audiência da televisão brasileira. O seu apoio na campanha foi decisivo. Como slogan, ele criou a chamada Maria Aparecia Gomide – Só o amor constrói. Que foi um sucesso de público e de doações.

Dias depois, Maria Aparecida Gomide ainda participaria do programa de José Abelardo Barbosa, Chacrinha. Ampliado a exposição da situação e angariando mais adeptos de sua causa.

Como resultado, doadores advieram de todas as partes do país. Os funcionários da cervejaria Ouro Preto, em Belo Horizonte, fizeram a doação de um dia de seus salários.

O jóquei clube de Santos doou a integralidade da renda de uma corrida. Um circo no Rio de Janeiro aportou todo o lucro de um fim de semana de espetáculos. Sem contar a participação massiva de várias personalidades de praticamente todos os segmentos da sociedade. Como Danuza Leão que emprestou o seu prestígio e o cardeal dom Agnelo Rossi que doou o seu anel episcopal.

A arrecadação foi importante. Mas não chegou ao montante requerido. Buscando solução, Maria Aparecida Gomide conseguiu ser recebida pelo presidente Juscelino Kubitschek juntamente com dona Sara. Nesse encontro, o presidente sugeriu que Maria Aparecida Gomide apresentasse a situação aos tupamaros e acentuasse que, malgrado os visíveis esforços, a arrecadação não ultrapassara um quarto do um milhão de dólares requerido. Maria Aparecida Gomide o fez. E os tupamaros decidiram aceitar aquela fração. Dando início a outra fase do processo: a entrega do dinheiro e a libertação de Aloysio Gomide.

As doações estavam dispostas em vários estabelecimentos financeiros espalhados por todos os estados do Brasil. Seria imperativo tudo reunir. Para tanto, Maria Aparecida Gomide apelou para o professor Théophilo de Azevedo Santos, presidente da Federação Nacional de Bancos, que conseguiu trazer todo o recurso para uma única conta no Banco Português no Rio de Janeiro.

Outro imbróglio dizia respeito à conversão dos cruzeiros em dólares. O ministro Antônio Delfim Netto foi acionado para deliberar e vedou terminantemente a operação.

Restou a Maria Aparecida Gomide sondar se os tupamaros receberiam o dinheiro em moeda brasileira. Eles aceitaram.

Surgia agora a necessidade de organização da logística para o dinheiro chegar no Uruguai.

Os tupamaros fixaram a entrega num ponto na cidade de Rivera. O ministro Antônio Delfim Netto voltou a alertar sobre o problema de atravessar-se aquelas divisas além fronteiras. O ministro Mário Gibson Barboza, em contato com o presidente Médici, indicou que a polícia brasileira faria, então, “vistas grossas”. Ficando, assim, pendente apenas o portador.

O mundo inteiro conhecia a feição de Maria Aparecida Gomide. Seria, para ela, arriscado servir de portador. Foi quando Inácia Almeida e Marcos Ribeirão de Azevedo voluntariaram-se.

Inácia Almeida era uma amiga da família Gomide, muito corajosa e habituada a ir com frequência a Rivera. Marcos Ribeirão de Azevedo era um advogado, sensibilizado com a situação.

No dia 30 de janeiro de 1971, Maria Aparecida Gomide embarcou do Rio de Janeiro com destino a Montevidéu. Foi com muitas bolsas e malas, simulando estar levando o dinheiro. Entretanto, no dia anterior, por terra e portando de fato o dinheiro, Inácia Almeida e Marcos Ribeirão de Azevedo seguiram de ônibus do Rio de Janeiro para Porto Alegre e de Porto Alegre foram de carro até Rivera.

O combinado era entregarem o dinheiro aos tupamaros às 6h30, num logradouro preciso da cidade uruguaia. Maria Aparecida Gomide seguia aflita em Montevidéu. O ministro Mário Gibson Barboza acompanhava tudo desde Brasília. O conselheiro Quintino Symphoroso Deseta foi designado para acolher Maria Aparecida Gomide em sua casa – aquela da avenida engenheiro Luis P. Ponce, 1.296 – em Montevidéu. Maria Aparecida Gomide, Mário Gibson Barboza e Quintino Symphoroso Deseta viviam minutos e segundos de aflição. As horas foram passando e nenhuma novidade advinha de Rivera. Inácia Almeida e Marcos Ribeirão de Azevedo ficaram o dia inteiro, das 6h às 18h, na cidade uruguaia e ninguém apareceu para cumprir o acordo. Voltaram, então, para Porto Alegre. Alojados no hotel, receberam uma ligação do Rio de Janeiro informando que o trato tinha mudado e que a entrega ocorreria no dia 3 de fevereiro na cidade brasileira de Chuí.

No dia e lugar marcados, foram até lá e conseguiram, enfim, entregar o montante. A senha da entrega era: “Nossa Senhora Aparecida nos proteja”. Com o complemento: “Estejamos protegidos”.

Chegou um desconhecido, apresentou a senha, ouviu a resposta e levou a sacola com milhões de cruzeiros brasileiros.

Os tupamaros haviam mudado realmente os planos. Queriam receber o dinheiro em Montevidéu. Por conta disso, o diplomata Quintino Symphoroso Deseta, por conta e risco próprios, serviu de portador. Tomou seu carro, atravessou a fronteira e veio ao Brasil apanhar a encomenda.

De volta, são e salvo, a Montevidéu, ele entregou o dinheiro ao advogado uruguaio que fazia contato com os tupamaros e no dia seguinte a operação foi concluída: o dinheiro chegou aos tupamaros e eles divulgaram um novo comunicado. Dessa vez, o Comunicado n. 16. Informando que o pagamento tinha sido concluído e que Aloysio Gomide estava perto de ser libertado, restando apenas a presidência de Jorge Pacheco Arce revogar o estado de sítio em vigor no Uruguai.

Em claro, um balde de água fria em todos. Maria Aparecida Gomide não sabia mais o que fazer. Ela não tinha mais lágrimas para chorar e, havia muito, nenhum motivo para sorrir. Era notória a irredutibilidade da presidência uruguaia. Fazendo aquele condicionamento, o MNL-T promovia uma verdadeira regressão das expectativas do processo de libertação do diplomata brasileiro.

Diante disso, presidências e chancelarias do mundo inteiro pressionaram fortemente a presidência do Uruguai e o estado de sítio foi revogado no dia 22 de fevereiro de 1971.

Nesse mesmo dia, às voltas das 22h30, o telefone tocou à casa do número 1.296 da avenida engenheiro Luis P. Ponce em Montevidéu. Maria Aparecida Gomide atendeu. Do outro lado um tupamaro informou onde tinha sido libertado Aloysio Gomide. Era o fim do martírio.

(*) Daniel Afonso da Silva, pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP

 

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