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Campo Grande, Terça-feira, 27 de Junho de 2017

15/05/2014 10:04

Sob o céu que nos protege

Por Valfrido Medeiros Chaves (*)

Estamos em Iguatemi, a 600 metros da ponte que dá acesso a Japorã, justo na área invadida há dez anos, onze dias após o presidente da Funai e membro do MPF afirmarem, em Campo Grande, num encontro promovido pelo TRF-3, que invasão indígena não é invasão, “é entrada”, diante de índios guarani que, tomando a afirmação “ao pé da letra”, passaram à pratica de “sua justiça” pelas próprias mãos.

Do acampamento montado pela comunidade de produtores rurais lesada pelas invasões, observa-se a área da aldeia e das fazendas transformadas em figura jurídica “sui generis”: “terra de ninguém” onde “invasão” não é invasão, “depredação” não é depredação, “roubo” não é roubo e brasileiro não é cidadão.

Diante da omissão do aparelho estatal brasileiro, cidadãos de bem são alçados à condição inferior aos criminosos comuns e, expulsos de suas propriedades, se vêm alijados, de fato, das páginas da “Constituição Cidadã”.

Pelo meio de uma pastagem limpa, passam invasores carregando uma porta e um freezer, na direção da aldeia. Mais à esquerda, ao sul, rezes são atropeladas, numa aparente operação de caça. Três horas após, cruzam a invernada índios com sacos de carne às costas, na direção da Aldeia. Um índio morre a tiros, num acidente de caça ao gado.

Neste momento, o freezer abandonado no meio da invernada é a testemunha muda de uma situação absurda: dentro de Território Nacional, uma área está fora de todos os princípios constitucionais que possam, porventura, abrigar os cidadãos quanto a seus mais elementares direitos.

Numa recíproca absurda, indígenas injustiçados, tutelados e manipulados incorrem em práticas de crimes previstos em lei, com aparente anuência da Funai, Procuradoria Federal e o que mais seja.

Proprietários, que a tudo assistem, impotentes, não estão sob o guarda-chuvas protetor do aparelho estatal que tem como escopo a defesa da democracia e do Estado de Direito: a Procuradoria Federal não aparece, sequer para testemunhar os fatos. Chegam ao local ONGS sociais para apoiar a situação estabelecida, após uma vibrante assembleia realizada em Campo Grande, em que foram denunciadas como submissas à “burguesia assassina”, o Secretário de Segurança e a imprensa comprada, sendo ainda levantadas suspeitas sobre a conduta do “fazendeiro” Zeca, o Governador .

Coroando essa peça de teatro do absurdo paira a fala posterior de um Procurador da República, de sua cadeira, afirmando, diante de cidadãos expulsos de seu teto e ganha pão, que “índio tem que invadir mesmo pra mostrar força”. A leviandade de tais palavras extrapola qualquer inadequação que já tenhamos ouvido de alguma autoridade constituída.

Na boca da noite, a fumaça tolda a visão sobre a Aldeia, transformada em ampla churrascaria, graças ao gado roubado. Para alguns, com visão sectária e ideológica, tudo não passa de um “avanço” na impactação da “democracia burguesa”, no ritmo de “dois passos adiante, um passo atrás”, conforme a afinada balalaika leninista ora em curso em nossas fronteiras.

A tudo testemunha uma comunidade impotente excluída do abrigo da lei, um freezer branco abandonado em meio ao pasto, tudo, às margens do Iguatemi, “sob o céu que nos protege”.

Nota: Este artigo foi escrito há dez anos. A violação de direitos de brasileiros que acreditaram na Republica, nas leis, compraram, pagaram impostos, produziram, continua à solta e impune, conforme quer a cartilha ideológica no poder. Por isso não há solução e o ódio continua a ser semeado entre nós.

(*) Valfrido Medeiros Chaves é psicanalista.

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