Tecnoeugenia e o abuso de mulheres
Como cientistas e as big tech foram parar na ilha de Epstein
Torço por justiça para as mulheres. É mês de luta. E se banqueiros fossem desvelados por registros financeiros? Políticos desmascarados pelas conspirações que os elegeram? Magnatas da tecnologia pegos por rastros digitais? Audrey Lorde alerta: não é bem assim que a casa cai. As ferramentas do senhor não desmantelam o império... mas danificam e expõem a estrutura do poder. E com os arquivos Epstein, os pilares da broligarquia internacional ficaram à mostra.
A figura do Epstein já havia emergido em minhas pesquisas sobre ética da ciência e das tecnologias, mas por sua conexão com a eugenia e transumanismo.
A eugenia, concebida como ciência da majoração de raças superiores, desde o início opunha-se à migração e às políticas distributivas do Estado, afirmava a inferioridade das mulheres e defendia a esterilização de pessoas com deficiência. A supremacia da riqueza, da virilidade e da biologia ganhou força no século XIX e virou política mortífera no nazismo. Arrefecida após a II Guerra mundial, a eugenia retornou liberal nos anos 2000. Supostamente não racista, defendia o livre melhoramento individual. Mas o tempo revela e o fascismo tecnodigital não tardou a mostrar as entranhas.
Epstein é peça chave nesse processo. Enquanto transacionava informações, dinheiro, favores, mulheres e até crianças, financiava eventos entre bilionários do Vale do Silício e cientistas para debater temas relacionados a eugenia e transumanismo.
A exploração de meninas e mulheres não se restringe à ilha, é motor econômico. A cultura de livre apropriação e exploração de imagens de corpos femininos é a base da indústria digital. Foi a origem do Facebook, mas também das bases de imagens usadas para treinamento das mesmas inteligências artificiais, que agora despem mulheres e adolescentes.
No meio de tanta perversidade, confesso surpresa que as trocas entre “as mentes mais brilhantes do mundo” frequentemente provocam vergonha alheia.
Os arquivos revelam homens confabulando sobre ilhas imunes às leis internacionais, escapar para Marte, viver para sempre, sonhos de vida pós-apocalipse, fantasias de serem desejados por mulheres, a compra de um pênis maior ou em de formato mais desejável. Sonhos viris, todos lá. Especialmente constrangedores eram os cientistas, bobos da corte do bilionário. Animadamente, ofereciam explicações rasas que renderiam a reprovação em exames de seus estudantes. A conclusão é que financiamento público e salário digno são fundamentais para a qualidade e independência da pesquisa. Isso e algum senso de ridículo.
Além da violência contra mulheres, os arquivos revelam os mais poderosos homens da Terra planejando abalar a ordem global, instaurar uma sociedade de vigilância, conjecturando seleção eugênica. São inegavelmente perigosos, ainda mais se apoiados por teorias (supostamente) científicas.. mas ainda assim ridículos em seu medo de morte, em sua busca patética por se sentirem viris. Haja Karen Horney para explicar tudo isso...
(*) Monique Pyrrho é professora no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília.
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