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Arquitetura

Há 66 anos, casa de madeira é relíquia e a paixão da Dona Nina

Na Rua São Caetano, uma vida inteira floresce entre memórias e saudades

Por Natália Olliver | 14/04/2026 07:25
Há 66 anos, casa de madeira é relíquia e a paixão da Dona Nina
Casa é paixão de Dona Nina há 66 ano, no bairro Vila Duque de Caxias (Foto: Natália Olliver)

“Minha casa é minha paixão, minha família construiu, meu marido. Tenho três paixões na vida: meu velho, meus filhos e minha casa”. Na Rua São Caetano, Anamir Cunha do Nascimento, mais conhecida como Dona Nina, abre o portão da casa dela como quem abre um álbum de fotos com orgulho para a visita. Ali, há 66 anos, ela conta como a casinha de madeira verde, cheia de plantas, foi uma bênção para ela e a alegria do marido, que faleceu há 4 anos.

RESUMO

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Dona Nina, de 90 anos, mora há 66 anos em sua casa na Rua São Caetano, em Campo Grande, construída pelo marido José, falecido há quatro anos. Com memória afiada, ela relembra a vida de lavadeira, as dificuldades sem luz e ônibus no bairro e a criação de dez filhos. A família mantém a tradição de pintar o imóvel anualmente, preservando a história e o carinho do patriarca.

Sentada na mesa da varanda, Dona Nina não precisa de esforço para lembrar o passado. Aos 90 anos, exibe uma saúde invejável e uma memória afiada para a idade. Com ela não tem mentiras. Inclusive, até admite as “lições” que já deu em gente inconveniente. Tudo ali é preservado. A família se recusa a deixar a casa envelhecer, por isso pinta o imóvel anualmente. Tradição que herdaram do pai.

Há 66 anos, casa de madeira é relíquia e a paixão da Dona Nina
Há 66 anos, casa de madeira é relíquia e a paixão da Dona Nina
Lembrança da casinha verde de Dona Nina e ela na sala com retrato dos netos (Foto: Natália Olliver)

Na parede, esculturas de araras, tucanos e de bois feitos de madeira, inúmeras plantinhas penduradas, um banco azul de madeira na lateral da casa e o clássico retrato de time de futebol fazem parte do cenário. Ela guarda ferros antigos de passar, assim como escovões de ferro usados para polir os pisos.

“Nasci no bairro Amambai. Essa casa foi um presente maravilhoso que Deus nos deu. Ela está com uns 66 anos. A gente, quando fez aqui, era tudo mato, não tinha rua. Vim com 5 filhos, depois tive mais 2 e criei mais 3, eduquei e fiz o que eu pude por eles. A gente batalhava porque não tinha ônibus, não tinha luz. A luz eu que mandei pôr. Fui lá na prefeitura, pedi, porque os meninos tinham que estudar de noite. Fiquei muito feliz porque foi uma luta, uma batalha que eu ganhei.”

Dona Nina trabalhou como lavadeira por anos e relembra de um episódio que ficou marcado na memória: a maldade das pessoas e a resposta “sincerona” que deu ao bullying sofrido na época.

Há 66 anos, casa de madeira é relíquia e a paixão da Dona Nina
Há 66 anos, casa de madeira é relíquia e a paixão da Dona Nina
Nina conta com a ajuda de uma das filhas para andar pela varanda (Foto: Natália Olliver)

“Eu lavava roupa para fora, carregava trouxa de roupa mais ou menos 1 km para trazer e mais 1 km para levar. Não tinha ônibus, não tinha quem vendesse lenha. Era tudo difícil, mas, graças a Deus, eu venci. Fui muito feliz carregando as trouxas e me chamavam de formiga cabeçuda; eu parava, dava uma xingada no povo e vinha embora. Eu já estava desconfiada de que estavam tirando sarro de mim e, quando ouvi, falei cada palavrão que sumiram.”

Naquele tempo, as coisas eram mais difíceis, segundo ela. As pessoas precisavam se impor para serem respeitadas. Na vida de Nina, o lema é: nunca guardar em si aquilo que você não gosta. Quem ensinou isso a ela foi o pai.

“Comigo não tinha esse negócio de escorregar e ficar caído, não. Era difícil, as pessoas não tinham estudo. Pra sentar e debochar é fácil. Se tem uma coisa te incomodando e se você não tomar uma atitude, vai acabar com você.”

Depois disso, Nina foi trabalhar de cozinheira e ajudante no Hospital Militar e também na limpeza do Colégio Arlindo de Andrade. Como ela conta, a vida continuou.

Damos uma tour pela casa. Na sala, há inúmeros retratos de netos e bisnetos, e ela já não lembra de cabeça quantos tem. Aos 90 anos, até tataranetos já entraram na lista.

Apesar de não saber quantos são, faz questão de apontar as fotografias e explicar, como se fôssemos parte da família, quem são as pessoas eternizadas nelas, dizendo: “Minha família, eles são muito importantes para mim. Ó esse bebê da vovó, coisa linda de vó”. Ela olha a foto de José, parceiro de uma vida toda, com saudade e amor.

Há 66 anos, casa de madeira é relíquia e a paixão da Dona Nina
Dona Nina e o marido José, na sala da casinha de madeira dela (Foto: Natália Olliver)

“Essa casa Deus deu uma bênção muito grande para a gente. Meu esposo, seu José, ele fez essa casinha para nós. Comprou o terreno e, para mim, foi a maior alegria. Ela foi construída com muito carinho. Todo ano limpamos ela, pintávamos as paredes. Ela é do jeitinho que está hoje, tanto dentro quanto fora, tudo arrumadinho e feito com carinho. Alguns amigos falam que moramos longe, mas a gente é quem faz a distância.”

A casa principal é pequena: dois quartos, uma sala, uma cozinha e hoje uma despensa. Para que os filhos ficassem mais acomodados, fizeram um “puxadinho ao lado”. No quintal, pé de goiaba e até bananeira estão presentes.

Confira a galeria de imagens:

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“Eu adoro plantas, tem no quintal todo. Tem uma cachorrinha chamada Lili, que depende dela para tudo, chamo ela de valente.” O pequeno pinscher defende o quarto de Nina como um pitbull e não sai da retaguarda dela durante toda a entrevista.

No fogão a lenha antigo, Nina ainda faz mocotó e buchada. Até hoje, a família mantém a conservação da casa como José fazia, mas há coisas que só ele era “capaz”. A casa começou na cor preta, mas hoje é verde por fora e mantém alguns detalhes em azul. Nina mostra o lampião que mantém como relíquia desde 1950: “Guardo até hoje, é minha paixão.”

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