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Beba das Crônicas

O voo de uma certa borboleta vermelha de nome Belchior

Por André Alvez | 13/03/2021 12:06

Embaixo da aba do meu chapéu, esse estranho conselheiro que faz sombra na minha testa, nasceu a ideia de submergir a minha voz nas chamas dos meus medos.

Porque o momento pede gritos e meus gritos são palavras. Então escrevo, embora em letras tortas.

A vida é uma pergunta e a resposta quase sempre foi muda. Para fugir do passado, nesse presente silencioso, sinto saudades do futuro, no qual poderei gritar minha palavra feito navalha, sem querer ferir ninguém.

Antes que meus olhos se tornem plangentes, necessito de alguma chama para despertar o meu sibilo.

Um estalo de dedos! É isso que preciso. Então senti os meus pulmões soprando gritos fortes num instrumento musical, o gingado que nunca tive, dançando junto da luz do sol refletida no amarelo intenso do saxofone.

Eu quero que esse pesadelo de terno e gravata desapareça! E à tarde, às três, busco na mente qual seria a primeira música a tocar no meu Sax. Talvez eu consiga aquela do Bob Dylan, “quantas vezes um homem pode virar sua cabeça e fingir que não vê?”

É esse o sentimento, o grande grito, jorrar poesia nas letras da canção, como fez o meu amigo de tantas noites insones. Ele aparece nos meus cochilos, naquele instante entre a realidade e o sonho, a imagem inapagável, o brilho do bigode, os cabelos jogados ao vento, cantando poesias e sorrindo como se fossemos amigos desde tempos imemoriais. Ao dedilhar o violão faz Poe, o poeta louco, revelar a angústia do pássaro negro e o meu brado é solene: blackbird me responda, o que os homens estão fazendo? Nunca mais é para sempre e eles sabem sim o que estão fazendo.

A imagem de uma formiga carregando nas costas restos de folhas secas me distrai, a desdita de quem não nasceu abelha, sequer desconfia do doce néctar das flores, se ilude ao pensar que aquela folha gasta lhe basta.

E o que me assusta são os sussurros das mariposas.

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro, diz o cordel cintilante no mesmo instante que o bicho das asas vermelhas novamente me apanha. Há um rufar enfático a cada segundo, um barulho quase tão intenso quanto as luzes rubras tingindo meus olhos. Voa desengonçada numa rua movimentada, passeando entre carros, pessoas e sinais, me faz lembrar a borboleta amarela de Rubem Braga. Só depois de tanto tempo consegui me acostumar com o rufar de suas asas batendo em meio a nuvens brancas, aqui e ali, desfilando num imenso céu azul, ora e vez pousando entre flores invisíveis, luzes de mercúrio, vivas e móveis, mesmo incrustradas nas telas de Van Gogh. Poe, o poeta louco, João Cabral o poeta do cante cortante, soprando a correnteza de um rio levando embora folhas mortas. E cá estamos, um louco do mal sentado no trono, envolto em gargalhadas insanas, sem regras, sem nada, tudo do jeito que o diabo gosta.

A borboleta vermelha era o rapaz vindo do interior – um tango argentino também me vai melhor que um blues – cantando poemas sobre duas estradas nuas e sinuosas, findando na certeza dos girassóis: viver é melhor que sonhar. Talvez as asas da borboleta vermelha tenham pousado em mim exatamente ali, naquela curva da estrada chuvosa que ainda hoje me aguarda após os vidros da janela, mas a ignoro. Sempre desobedecer, nunca reverenciar. Ela não é vermelha por acaso. Cuidado rapaz sem asas, se segure na beira do barranco do rio, não olhe para a correnteza, Heráclito já avisou que aquela água passando nunca é a mesma e nos vãos dos torrões úmidos da terra se escondem as negras mariposas.

A picada do inseto venenoso é a mesma imagem do casaco do general manchado de suor, não sabe, não encontra saída e a vida escorre pelos vãos dos dedos presos à garganta sem ar.

Uma coragem repentina me abraça, vejo a vermelha borboleta mergulhar nas águas bravias do rio e eu rio, dou de ombros, borboletas não sabem nadar. Um calafrio, barulho de avião, o medo. Eu não posso sufocar o meu grito em português, apenas trocar o sax por um singelo piano, dançar com as mãos nas sombras do meu quarto de paredes oprimidas, transformadas em sombras claras e escuras, formando teclados imperfeitos.

E sem que ninguém me detenha, encenar a inquietude do assum preto diante das grades da gaiola, tentando voar o seu grito em meio à tempestade de Beethoven.

No auge do meu delírio, verei a borboleta do que fui pousar por entre as flores brotando nas gotas da chuva caindo na estrada sinuosa, me levando para longe, bem longe dos grotões de terra onde se escondem as negras mariposas.


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