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Beba das Crônicas

Vou riscar as tatuagens e guardar o meu amor na masmorra

Por André Alvez | 01/08/2020 08:03

O amor é um sentimento que mantenho preso numa masmorra. Quando solto é fogo que queima, o declínio da razão. Sou cega quando me apaixono, me transformo numa maluca, incapaz de raciocinar corretamente.

O que se passou pela minha cabeça quando resolvi tatuar o nome dele no meu braço? Não contente, acrescentei o símbolo do Flamengo, time que ele ama, logo eu, que nunca gostei de futebol. Gabriel não merecia nem um pingo da dor que senti. Em algum momento da nossa relação a luz se tornou intensa, veio a cegueira, o transe completo e o pássaro acabou liberto da gaiola.

Quando nos conhecemos, Gabriel fixou o rosto em mim na sala de aula de um curso de Excel, armado naquele jeito estranho de olhar, sonso e vagaroso, o sorriso que não começava nos lábios e sim nas rugas dos olhos. Toda mulher enxerga sem encarar: o homem era pequeno, mas confiante. Sou uma mulher grande em tudo, quase dois metros de altura, do nome difícil, Stephania, mesmo nome da minha bisavó, uma polaca de sangue forte, mulher benzedeira e parideira, mãe de doze filhos.

Os opostos se atraem. Eu queria apenas aprender a mexer com planilhas, a empresa estava pagando, precisava prestar atenção. O Gabriel não passava de um vagabundo que o pai pagou o curso para se livrar da presença dele dentro do quarto o dia todo.

No intervalo, ele sentou-se na outra ponta da mureta e não desistiu enquanto não olhei para ele. Sorriu aberto, aquele riso feito cascata, começando nas rugas dos olhos e só depois atingindo a boca.

Um homem tão pequeno, o que poderia querer com uma mulher enorme como eu? Ele insistiu, o rosto fixo em mim. Retornei o sorriso e abaixei a cabeça. Depois me puni com um soquinho na coxa, detesto quando abaixo a cabeça.

No outro dia já se sentou ao meu lado, ignorando a aula, o professor, as fórmulas e os números nas planilhas.

- Oi, eu sou o Gabriel. – Disse, sem tremer a voz, o ar sonso-vagaroso.

- Oi – não revelei o meu nome, mas senti o rosto ferver e ele percebeu –

- O que vamos fazer quando sairmos daqui Stephania?

Como sou burra, é claro que ele sabia o meu nome, ouviu diversas vezes durante a chamada. Foi então que o monstro da sedução me abraçou. Eu não tinha nada para fazer, nenhuma audiência, nenhum cliente para atender, nada.

- Não tenho nada para fazer. Você tem?

Voz baixa, rouca, o pensamento imaginando um rio buscando a cachoeira.

Mostrou-me o molho de chaves.

- Estou de moto. Um passeio?

Dei outro soquinho na coxa, a perna ameaçou tremer. Pensei dizer não, mas eu realmente não tinha nada para fazer e minha única dúvida era se aquela criatura tão pequena sabia pilotar uma moto.

- Tudo bem, vamos.

E não olhei mais para ele. A aula tinha ainda duas horas de duração, mas demorou eternamente.

Na saída, rosto lívido, o procurei em meio à multidão, até dar com ele no estacionamento da escola, sentado na motocicleta e olhando para mim, o sorriso já instalado nas rugas dos olhos, pronto para descer até a boca.

Pelo menos a moto não é pequena, imaginei e sorri.

Montei num passar de perna único, como se fosse acostumada a andar de moto, ainda que a última vez tivesse acontecido na adolescência.

- Você se parece com a Marisa.

- Marisa?

- Marisa Horta.

- Ah sim... (Marisa Orth, ela de novo, sempre fazem essa comparação odiosa).

- Aonde vamos?

- Dar um rolê. Coloque o capacete e segura firme na minha cintura.

Juntei as mãos e ele acelerou. Estava um pouco gordo, deu para sentir, mas quando meus braços subiram até os seus ombros, a grande surpresa, ele tinha músculos. Talvez frequentasse alguma academia.

Gabriel rodou o centro da cidade e depois pegou a saída para São Paulo. O tempo todo falava alguma coisa que eu não entendia por causa do vento, e a tudo respondi sim. Quando ele virou e estacionou na garagem de um motel a minha reação foi uma mistura de surpresa, espanto e raiva.

- Cara, a gente mal se conhece e...

Ele armou no rosto uma expressão de desapontamento, as mãos agitadas tentando ajeitar os cabelos esparramados pelo capacete:

- Você disse sim diversas vezes no caminho.

- Eu não ouvi nada do que você perguntou. O sim foi uma espécie de livramento.

- Até o convite para o motel você não ouviu?

- Não ouvi nada! Vento, capacete, cabelos nos ouvidos, surdez completa, entende? Você foi direto ao ponto, não falou nada de si, já veio me trazendo para um motel, você é maluco...

- Falei que sou solteiro e gosto de você desde os tempos do cursinho.

- Cursinho? Nos anos noventa? Cara, eu tinha dezoito anos!

- Não mudou quase nada...

Fiquei sem graça, um leve rubor tomou conta da minha face, não sabia o que dizer.

- Você nem se lembrou de mim. – Disse e suspirou fundo.

- Olha, não me leve a mal, mas eu nunca....

- Então suba e vamos embora. — Fez ele, um tanto enfurecido: —

Não foi um convite movido pelo sentimento de desculpa ou arrependimento, mas sim uma espécie de ordem, dura, direta e desde que saí da casa dos meus pais, não obedeço às ordens de ninguém. Além do mais, já estávamos mesmo ali e a última vez que fiz amor a Dilma ainda era a presidenta.

E porque os homens podem fazer sexo no primeiro encontro e as mulheres não? O gavião e a galinha? Comigo não. Afinal, ele não era totalmente desconhecido, já tínhamos convivido duas semanas no curso de Excel e fizemos cursinho nos anos noventa.

Apanhei o capacete das mãos dele:

- Tudo bem, vamos entrar.

Ele tremeu, eu dei soquinhos na coxa, e lá fomos nós. Uma cama imensa, o lençol caprichosamente esticado, a luz mortiça da tarde se acabando, o resto do mundo num silêncio cúmplice lá fora e o sorriso do Gabriel, aquele que começa nas rugas dos olhos e vai descendo até os cantos da boca, bem diante de mim.

Nada mais posso contar, minha intimidade está instalada no escuro de uma masmorra, que fica após a ponte acima do lago, no qual passeiam, de um lado para o outro, diversos crocodilos. Nem às sombras confesso os meus gemidos. Mas posso dizer que foi bom, quem diria, aquele homem pequeno...pequeno em tudo...Ah, embaixo da ponte que protege a masmorra há uma corrente de água cristalina em busca da cachoeira...

No outro dia ele já me esperava em frente à escola, ornado de um brilho de triunfo difícil de explicar. Me apanhou pelas mãos e tentou me beijar. Dei-lhe o rosto, neguei o que ofertei com fartura menos de vinte e quatro horas antes, entre quatro paredes. Ele insistiu e cedi sem muito esforço.

Eu não queria namorar ninguém, mas quem sabe, depois de ontem, os crocodilos que protegem a masmorra morreram afogados, colocando fim às noites solitárias...

O que começou num encontro casual, se tornou sério, engatamos firme o namoro e no começo foi tudo tão bom... Gabriel me apresentou à sua família, fiquei amiga de todo mundo, na segunda semana a mãe dele já me chamava de filha.

Nunca se acostumaram com o meu nome, para eles eu era uma mulher enorme do nome confuso. E assim, de Stephania, me transformei na Estepe. No começo achei lindo, divertido, fofo: “Estepe, cunhada linda, mulherão da porra essa Estepe, venha Estepe, o jantar está pronto, Estepe, amada Estepe”.

Durou até o domingo perto do natal quando surgiu por lá, “só de  passagem”, a ex do Gabriel, uma moça magra, dos olhos enormes, nariz adunco, feia de rosto, mas das nádegas salientes e o flagrei olhando para ela, armado naquele ar sonso vagaroso, as rugas dos olhos se contorcendo, o riso pronto a se armar.

Estou sempre duas doses acima na desconfiança. Num instante, no meu íntimo pensamento, ser chamada de Estepe se transformou num deboche. O ciúme a tudo desgasta, até mesmo o amor. Eu sempre fui muito desconfiada. O castigo dos céticos é duvidar de tudo, inclusive das próprias dúvidas. Fui levando o nosso caso por mais um tempo, mas o alerta estava definitivamente ligado: nas festas, nos bares, nas reuniões da família, sempre tinha outra mulher e lá estava aquele olhar sonso e vagaroso, o mesmo risinho do Gabriel, começando nas rugas dos olhos e descendo até os cantos da boca...

Como não percebi antes? Gabriel sempre jurou fidelidade, mas que mulher fraca é essa que acredita em juras de homem, perguntaria minha finada avó, a velha polaca. Eu que não sou, respondo para o vento.

E então a tatuagem deixou de fazer sentido, se tornou a raiz dos meus arrependimentos, uma prova desenhada de que fui enganada.

Queria voltar no tempo, quando a moto virou a primeira esquina, daria um toque nos ombros do Gabriel pedindo para voltar, sem lhe dar chances para retrucar, mantendo o rosto sério enquanto ajeitava os meus cabelos assoprados pelo vento.

- Como vai ser? – Perguntou o tatuador.

- Depois de Gabriel, escreva Garcia Marquez. Em cima do escudo do Flamengo, desenhe um coração bem grande e pinte-o completamente de preto. E nem senti dor enquanto o tatuador fez o seu trabalho.

O amor acaba. O meu acabou na última tragada de cigarro, o filtro ainda queimado nos dedos trêmulos, a bagana jogada na encruzilhada do lago frio lá fora, aquele mesmo lago que descarrega num rio em busca da cachoeira, a correnteza das águas borbulhantes, mas que nunca sorri.

Acabou. Não volta mais.

Sozinha novamente – suspirei – e depois mergulhei o meu corpo nas noites tormentosas, enrolada num cobertor, aprisionada no canto da masmorra, os pulsos envoltos em algemas de aço entre duas rochas, enquanto a garganta ressecada impede o soluço, mas não as lágrimas.

Elas rolam, rolam, rolam no meu rosto febril...

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