Sem caixa-preta, queda de avião será reconstruída por dados de clima e destroços
Expectativa é de que laudo dos motores saia em 45 dias, mas investigação completa deve durar 2 anos
Toda vez que ocorre um acidente aéreo grave no Brasil, com ou sem vítimas, o trabalho do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) em Brasília, órgão da Força Aérea Brasileira, é acionado para apurar as circunstâncias da ocorrência e identificar fatores que contribuíram para o acidente, sem apontar culpados. O objetivo é produzir recomendações de segurança para evitar novas tragédias na aviação civil.
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O Cenipa investiga a queda de um avião bimotor ocorrida na sexta-feira (3) em área de mata próxima ao Aeroporto Santa Maria, em Campo Grande, que matou o piloto Henrique Martin e a pesquisadora alemã Lydia Möcklinghoff. Sem caixa-preta, a apuração depende de análise de destroços, dados meteorológicos e depoimentos. O mau tempo é hipótese inicial. As investigações podem levar até dois anos.
Em Campo Grande, a investigação mais recente foi aberta após a queda de um avião bimotor na manhã da última sexta-feira (3), em área de mata próxima ao Aeroporto Santa Maria. O acidente deixou duas mortes: o piloto Henrique Martin e a pesquisadora alemã Lydia Theresia Möcklinghoff.
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A aeronave não tinha caixa-preta. Segundo apuração no local, o modelo Neiva EMB-810D Seneca não é equipado com gravadores de voo, o que não configura irregularidade. Em aeronaves menores, essa ausência é comum e faz com que a investigação dependa de outras fontes de informação.
Segundo dados do Cenipa, quando há caixas-pretas, os equipamentos são retirados e enviados a laboratórios especializados, onde são extraídos dados como altitude, velocidade, trajetória e comunicações da cabine, permitindo a reconstrução do voo. Sem esses dispositivos, a apuração se apoia na análise dos destroços, registros de manutenção, dados meteorológicos, GPS e depoimentos de testemunhas e controladores de tráfego aéreo.
O trabalho segue protocolo técnico dividido em fases e começa ainda no local do acidente. As equipes realizam o registro completo da área com fotos, vídeos, medições e mapeamento da posição dos destroços. Peças críticas, como motores, hélices e instrumentos, podem ser recolhidas para análise em laboratório ou armazenadas até o fim dos exames.
A partir dessas evidências, os investigadores reconstroem a dinâmica do acidente como um quebra-cabeça técnico, considerando três eixos principais: fator material, ligado a possíveis falhas mecânicas; fator humano, que envolve experiência, saúde e decisões do piloto; e fator operacional e ambiental, relacionado ao clima, visibilidade e procedimentos de voo.
Segundo o delegado Sam Suzumura, da Polícia Civil, uma das hipóteses iniciais é de que o mau tempo possa ter contribuído para o acidente, mas a conclusão depende da análise técnica da aeronave. Ele também citou a possibilidade de que o nevoeiro tenha dificultado a orientação do piloto logo após a decolagem, mas reforçou que a avaliação ainda é preliminar.
As investigações do Cenipa ocorrem de forma paralela às apurações policiais, podendo haver troca de informações, mas com objetivos distintos. Enquanto a polícia busca eventuais responsabilidades, o Cenipa atua na prevenção. O resultado é o Relatório Final de Investigação, que apresenta os fatores que contribuíram para o acidente e traz recomendações de segurança, sem identificação das pessoas envolvidas.
Mesmo sem caixa-preta, o Cenipa cruza dados técnicos, operacionais e humanos para reconstituir o voo. As investigações não têm prazo fixo e geralmente levam de um a dois anos para serem concluídas. Após o término da investigação, os destroços das aeronaves são devolvidos aos proprietários.
Análise - Os motores do bimotor Neiva EMB-810D Seneca, matrícula PT-WYQ, serão desmontados para a perícia. A expectativa é que o laudo saia em 45 dias. Contudo, o prazo será contado somente quando chegar equipe do Cenipa.
De acordo com o perito criminal Domingos Sábio Rivas, da Polícia Científica de Mato Grosso do Sul, os motores não têm condições de funcionamento, mas serão desmontados.
“Para ver se acha algum indício [sobre a queda]. Aparentemente, pelo que vi lá, creio que não seja o motor. Pelo sonoro dos vídeos, tem um da decolagem e um da queda, o som é de motor funcionado. Mas terá que abrir mesmo”.
A estimativa de prazo de 45 dias considera o período que foi necessário para o laudo da aeronave Cessna Aircraft 175, prefixo PT-BAN, que caiu em Aquidauana, a 141 km de Campo Grande. O acidente foi em novembro de 2025 e matou quatro pessoas.
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