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Cidades

Carbono Oculto liga empresário de Dourados a R$ 291 milhões e metanol “fantasma”

Ministério Público de São Paulo aponta que apenas 2 de 153 cargas destinadas à indústria no MS foram entregues

Por Kamila Alcântara e Silvia Frias | 27/08/2026 10:58
Carbono Oculto liga empresário de Dourados a R$ 291 milhões e metanol “fantasma”
César Cirne Leal é acusado de usar a Oreonn, de Dourados, para dar aparência legal à compra de metanol desviado (Foto: Reprodução MPSP)

A indústria administrada por César Cirne Leal em Dourados teria sido usada como destino fictício de mais de 10,8 milhões de litros de metanol desviados para o esquema de adulteração de combustíveis investigado pela Operação Carbono Oculto.

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Indústria administrada por César Cirne Leal em Dourados foi usada como destino fictício de mais de 10,8 milhões de litros de metanol desviados para adulteração de combustíveis, segundo denúncia do MPSP na Operação Carbono Oculto. O empresário é acusado de integrar organização criminosa que atuou entre 2017 e 2025, com movimentações financeiras de R$ 291 milhões ligadas à empresa Oreonn, que aparecia em notas fiscais como compradora regular do produto.

Essa informação consta na denúncia completa obtida pelo Campo Grande News. O documento foi apresentado pelo MPSP (Ministério Público do Estado de São Paulo) contra César e outras 15 pessoas acusadas de integrar uma organização criminosa que atuou entre 2017 e 2025.

Segundo o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), César colocava a estrutura da Oreonn Indústria e Comércio de Óleos Vegetais e Químicas Ltda. à disposição do grupo para dar aparência regular às compras de metanol. O empresário teria a função de “chancelar documentalmente” aquisições feitas por Everton Felipe de Barros, conhecido como Soró, e Admar de Carvalho Martins, o Dema.

Com isso, conforme a acusação, a Oreonn aparecia nas notas fiscais como compradora e destinatária regular do produto. Entretanto, a maior parte das cargas não chegava à fábrica de Dourados e seria descarregada em outros locais, principalmente em São Paulo.

O metanol era posteriormente usado na adulteração de gasolina vendida em postos de combustíveis.

Destino no papel - Entre janeiro e agosto de 2025, a filial da Oreonn em Dourados teria comprado 10.827.108 litros de metanol da Quantiq Distribuidora.

O volume se refere exclusivamente às aquisições registradas em nome da unidade sul-mato-grossense e não inclui as compras atribuídas à matriz da empresa, localizada em Barueri, na região metropolitana de São Paulo.

A Sefaz-MS (Secretaria de Estado de Fazenda de Mato Grosso do Sul) analisou 153 DANFEs (Documentos Auxiliares da Nota Fiscal Eletrônica) emitidos para a indústria de Dourados naquele período.

Apenas duas cargas apresentavam registro automático de passagem vinculado ao MDF-e (Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais). As outras 151 não tinham o registro que permitiria confirmar o deslocamento dos caminhões até Mato Grosso do Sul.

Para os promotores, o resultado reforça a conclusão de que a “esmagadora maioria” das cargas documentadas como destinadas à Oreonn jamais chegou à fábrica.

A denúncia, porém, não apresenta as placas, datas ou destinos finais de cada um dos 151 carregamentos. Também não identifica uma rota física percorrida pelo metanol dentro de Mato Grosso do Sul.

Ao contrário, o MPSP afirma que, embora Dourados aparecesse nos documentos como destino, as entregas investigadas estavam relacionadas ao esquema criminoso que operava no Estado de São Paulo.

Carbono Oculto liga empresário de Dourados a R$ 291 milhões e metanol “fantasma”
Ilustração do esquema envolvendo insdústrias e emissão de notas ficais falsas; entre as empresas está a Oreonn, de Dourados (Foto: Reprodução/MPSP)

Estrutura empresarial - De acordo com o Gaeco, César não aparece como motorista ou responsável por despejar metanol nos postos. A função atribuída a ele era empresarial e financeira.

O empresário teria permitido que a Oreonn fosse usada para justificar as aquisições, movimentar recursos e ocultar o destino verdadeiro das cargas negociadas por Soró e Dema.

César Cirne Leal atua de forma recorrente a chancelar documentalmente as aquisições de metanol de Everton e Admar”, afirma a denúncia.

MPSP sustenta que a Oreonn possuía atividade industrial verdadeira, mas parte substancial dessa estrutura teria sido desviada para atender à organização criminosa. O modelo permitia misturar operações lícitas e ilícitas dentro da mesma empresa.

Notas fiscais e tickets de pesagem encontrados no celular de outro investigado mostrariam vendas formalmente feitas à Oreonn, mas com cargas efetivamente desviadas para postos de combustíveis.

R$ 291 milhões - O MPSP atribui a César R$ 291.725.256,36 em movimentações financeiras que teriam sido usadas para ocultar ou dissimular recursos. O valor corresponde às operações da Oreonn identificadas nas contas examinadas. A empresa teria enviado R$ 110.775.581,85 e recebido outros R$ 180.949.674,51.

Isso não significa que César tenha embolsado pessoalmente R$ 291,7 milhões. O montante corresponde à movimentação da empresa administrada por ele que o Ministério Público relaciona ao esquema investigado.

Dos R$ 110,7 milhões pagos pela Oreonn, R$ 99.625.549,24 foram destinados à Quantiq, fornecedora do metanol. A quantia representa 89,9% de tudo o que a indústria desembolsou dentro do recorte financeiro apresentado pelos investigadores.

A empresa também transferiu R$ 5.541.488,53 para a Indhoor Gestão de Ativos e R$ 1.061.200 para Daniela Brandão Morenilla Leal. Do outro lado, a Oreonn recebeu R$ 180,9 milhões de empresas de cobrança, transportadoras e comerciantes de óleos vegetais.

A Global Serviços de Administração de Cobrança repassou R$ 43.439.429,54, enquanto a Boston Intermediações e Cobrança transferiu R$ 18.093.034,50. Juntas, as duas empresas enviaram R$ 61,5 milhões à Oreonn.

Outros R$ 94,1 milhões vieram da Max Norte Comércio de Óleos Vegetais e da Inova Óleos Vegetais.

A Max Norte, considerando matriz e filial, repassou mais de R$ 61 milhões, embora apareça registrada como microempresa. Segundo a denúncia, o titular também figura como proprietário de um pequeno mercado em Osasco (SP).

A Oreonn ainda recebeu R$ 12.490.508,50 da M.P Transportes e R$ 1.474.000 da Log Fuel Transportes, empresa apontada como integrante do núcleo controlado por Soró.

Os promotores afirmam que essas operações repetem o padrão financeiro encontrado em outras empresas utilizadas pelo grupo para movimentar recursos sem revelar a origem ou o destino verdadeiro do dinheiro.

Carbono Oculto liga empresário de Dourados a R$ 291 milhões e metanol “fantasma”
Sede da Oreonn Óleos Vegetais e Químicos, que fica no Distrito Industrial de Dourados (Foto: Reprodução)

Anotação em casa - Durante buscas na residência de César, os investigadores encontraram uma anotação intitulada “Fluxo Financeiro, Importação de Methanol”, datada de 31 de julho de 2025. O documento apresentava cálculos para importar uma carga de 15 mil toneladas de metanol ao preço de US$ 345 por tonelada. A operação chegaria a US$ 5,175 milhões.

A anotação também mencionava um sinal de 10%, equivalente a US$ 517,5 mil, despesas portuárias, fechamento de câmbio e a nacionalização de lotes de mil toneladas.

Para o MPSP, o material mostra que César acompanhava diretamente os detalhes financeiros da importação de metanol e não era apenas um administrador distante das operações.

Fiscalização em Dourados - Em 16 de outubro de 2025, uma fiscalização conjunta da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) e da PF (Polícia Federal) vistoriou a unidade durante a Operação Alquimia.

Os agentes encontraram um tanque de 12 metros cúbicos identificado como “Metanol Recuperado” e outros dois tanques de 32 metros cúbicos sem identificação. As estruturas teriam sido usadas anteriormente para armazenar o produto.

Naquele momento, porém, a fiscalização não confirmou a presença de metanol nos tanques.

O supervisor da indústria informou que a fábrica não utilizava metanol nos processos produtivos existentes naquela época. Também declarou que a produção de biodiesel havia terminado no início de 2025, após o encerramento de um contrato com um produtor local.

A declaração entrou em conflito com os documentos que indicavam a aquisição de 10,8 milhões de litros entre janeiro e agosto do mesmo ano.

Segundo a denúncia, a Oreonn também não apresentou os arquivos das notas fiscais de compra e circulação, a relação dos caminhões nem os nomes dos motoristas necessários para rastrear as cargas.

Óleo Mix - A empresa declarou que o produto fabricado a partir do metanol adquirido era chamado de “Óleo Mix”. A ficha de segurança apresentada pela própria Oreonn informa que a composição continha entre 40% e 65% de álcool metílico, nome químico do metanol.

Na avaliação do MPSP, o “Óleo Mix” seria essencialmente metanol diluído e reembalado sob outro nome comercial.

A acusação considera essa composição incompatível com a justificativa de que o produto seria usado quase integralmente para a fabricação de óleo de soja refinado, processo que, conforme a denúncia, não utilizaria metanol.

Para os investigadores, o nome comercial ajudava a dar aparência industrial ao produto enquanto as cargas eram desviadas para terceiros ainda não completamente identificados.

Acusação - César foi denunciado pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro praticada de forma reiterada.

Embora o documento descreva adulteração de combustíveis, falsificação de documentos, fraudes contra consumidores e crimes tributários, essas condutas aparecem como atividades que teriam gerado o dinheiro posteriormente lavado pela organização.

Desde a tarde de quarta-feira (26), o Campo Grande News tenta um posicionamento oficial da empresa sobre o caso. O espaço está aberto para esclarecimentos.