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Terremotos estão ficando mais perigosos? O que os últimos sismos revelam

Por Alberto Veloso (*) | 27/08/2026 12:10

Terremotos têm chamado muita atenção porque, num intervalo de 52 dias, causaram danos e ceifaram vidas em cinco países: Venezuela, Japão, México, Colômbia e Indonésia. Com a mídia expondo os acontecimentos em tempo real, ficar indiferente é impossível, especialmente com o sucedido nas vizinhas Venezuela e Colômbia. Desses fatos, duas perguntas surgiram: o número de terremotos está aumentando? Os recentes sismos poderiam ter sido menos desastrosos?

O Serviço Geológico Americano (USGS, em inglês) assinala cerca de 15 terremotos anualmente, com magnitudes de 7,0 a 7,9, intervalo em que se encaixam os sismos dos cinco países citados. Neste ano, aconteceram 11 desses sismos no mundo; no ano passado, foram 16 e, em 2022, foram 19. Portanto, estamos na média, sem qualquer evidência de aumento significativo. Reforça esse argumento o fato de a origem primária dos terremotos estar ligada à movimentação das placas tectônicas, que também não demonstram anomalias expressivas em sua dinâmica milenar. Sendo assim, os terremotos apenas aparentam ser mais numerosos e perigosos, pois continuam seguindo o seu padrão usual: o de assustar e causar problemas mundo afora.

A distribuição global dos terremotos indica que 85% deles ocorrem ao longo do Cinturão Circum-Pacífico, onde se localizam países desenvolvidos, emergentes e pouco desenvolvidos. Tal diversidade econômica quase sempre implica o potencial danoso dos terremotos – país rico, menos estragos; país pobre é o contrário. Na verdade, não se trata apenas de dinheiro, pois também envolve disseminar técnicas de construções sismo-resistentes, preparar a população para enfrentar os desastres – saber como agir – e, fundamentalmente, contar com decisões governamentais corretas de médio e longo prazo. Quando se fala disso, o Japão é sempre citado como país modelo, o que é verdade – a sismicidade deles é tão complicada e agressiva que, para sobreviverem, não poderiam agir diferente.

Voltemos os olhos ao Chile, país emergente que vem enfrentando os terremotos e vencendo muitas batalhas. Figurativamente, os chilenos estão sentados numa bomba nuclear, que é a placa de Nazca mergulhando por debaixo de toda a extensão do país, processo lento que gera terremotos numerosos e perigosos. Para o Chile, é vital aperfeiçoar os códigos antissísmicos e edificar prédios que sofrem danos controlados, mas que continuam de pé após terremotos. Soma-se a isso treinamentos sistemáticos em escolas, para a criança aprender o que fazer durante e após um terremoto, incluindo salvar-se dos tsunamis. O governo reconhece o problema e apoia o enfrentamento aos terremotos/tsunamis com determinação.

Quantos países sul-americanos sujeitos a esses fenômenos fazem o mesmo? O tempo passa, os efeitos dos últimos desastres são esquecidos, governos se alternam, muito do planejado deixa de ser executado, problemas ficam sem soluções, mas os terremotos continuam na espreita. Um dia, um deles poderá atacar uma cidade despreparada, e o que vimos recentemente poderá se repetir. Infelizmente, se repetirá para muitos.

(*) José Alberto Vivas Veloso é professor aposentado da Universidade de Brasília e criador do SIS/UnB (Observatório Sismológico).

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.